sexta-feira, 13 de setembro de 2013

AVISO AOS NAVEGANTES, QUEM NÃO FALAR AGORA... CALAR-SE-Á PELOS PRÓXIMOS 10 ANOS.

Chegou a hora das Comunidades Tradicionais do litoral norte apresentarem suas propostas locais de zoneamento marítimo.
É de fundamental importância essa participação para que as atividades pesqueiras e agrícolas tradicionais não sejam atropeladas.
Nossa proposta, para a área da Enseada do Flamengo baseia-se nos seguintes pontos: 
No caso da Enseada desde 2004 temos nossas áreas demarcadas dentro de um Projeto chamado RDS ENSEADA DO FLAMENGO, onde existem vários documentos protocolados e alguns deferidos junto à Cetesb, F.F., M.P.A., PMU, solicitando no local um Parque Aquícola com Área de Preferência aos maricultores tradicionais, respeitando os locais de rede de espera e cerco flutuante, inclusive um local onde existem R.A.M. onde já se registrou a presença de meros. Esse projeto integrou o Plano Diretor Municipal e a Lei de Uso do Solo. Ele também integra o estudo do PLDM feito pelo Instituto de Pesca e capitaneado ilustre Dr. Hélcio de Almeida Marques, que prevê a Área Preferencial, os locais dos pesqueiros tradicionais de tresmalho e de cerco flutuante. 
 
PLDM 2005. foto: Peter S. Németh 

Gostaríamos de salientar que os maricultores da Enseada através da APE gostariam de ser ouvidos quanto ao seu próprio ordenamento local baseado na sinergia entre pesca tradicional e maricultura sustentável e regras tácitas de uso comunitário do espaço marinho, já que no primeiro Gerco eles não foram ouvidos e a proposta efetivada veio de outro setor pesqueiro. 
A íntegra do Projeto RDS Enseada do Flamengo está sendo avaliada para localizar e reunir diversos documentos protocolados que compõe o seu escopo. Abrangem: Plano Diretor, LUOS, Conferencias: Mun. Est. Fed., Ibama, SEAP, MPA, Cetesb, F.F. e I.F., APA .
O Mapa localiza as diversas zonas de interesse pesqueiro, maricultura, bancos naturais de mexilhão, trilhas na mata, recifes artificiais marinhos (poita dos meros). O Mapa é baseado nas regras tácitas tradicionais locais que integram: 
1- os pesqueiros tradicionais, pedra da laje, pedra rachada, figueirinha, porto velho, poço fundo (castelinho), saco grande (todo, cerco flutuante), após o calhéu (pedra redonda) zona mista exceto arpoador, saco do arpoador, até saco do soldado (zona de influência do cerco flutuante da ponta do espia); 
2- com a maricultura familiar artesanal de baixo impacto em áreas de 2.000 m2. (dois mil)
Esse mapeamento foi aperfeiçoado e passou a integrar a mais recente Versão do PLDM elaborada pelo DR. Hélcio Marques para o convênio Inst. Pesca e MPA, que consultou diretamente as comunidades pesqueiras afetadas pela criação dos parques aquícolas, e o regramento tradicional local em várias praias, inclusive delimitando as áreas preferenciais quando pertinente.
 
                                              PLDM 2008. fotos: Peter S. Németh.

Consideramos essencial o respeito com os Territórios da pesca em Canoas Caiçaras a remo, seja com tresmalho de costeira, rede de espera, redes de tróia(trolha).
Consideramos também urgente "a ampliação da Z2 M. E. (zona 2 marinha especial), no mínimo até a isóbata dos 10m, e no máximo até todo o largo da ilha Anchieta e do Mar Virado para terra". 
O arrasto de porta (não há licença para pescar o camarão branco), seguido da caça submarina (proibida em Z2ME, caçam dentro dos nossos cultivos!), são as duas atividades mais impactantes sobre a recuperação dos estoques pesqueiros locais, impedindo que o ambiente natural se regenere, os organismos cresçam, se multipliquem e se espalhem para fora da Z2ME, beneficiando a todos. Uma zona delimitada para cada grau de impacto de cada tipo de pesca/atividade.
Também consideramos mais do que essencial uma especial atenção ao modelo de ocupação (lei de uso do solo) do entorno, bem como a rede de coleta e tratamento de esgoto. Pois o que vemos é uma crescente verticalização no município de Ubatuba, sem controle algum, que já dominou todo o Itaguá, Praia Grande, avança pelas Toninhas, já tem sementes na Enseada, Sununga-Lazaro, e na Ribeira (nesses três últimos bairros está o grande filão imobiliário/náutico que deseja verticalizar e lotear onde for possível, inclusive nos grandes morros das penínsulas verdes, "zona paisagística notável").
Essa é nossa proposta de ordenamento para a Enseada do Flamengo e arredores que desde 2004 cultivamos para quiçá um dia implementar. 
att.
Peter Santos Németh
SEGUE ABAIXO O CONVITE PARA AS OFICINAS:
Prezado(a) Senhor(a),
Em nome da equipe responsável pela elaboração dos Planos de Manejo da Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Norte (APAMLN) e Área de Relevante Interesse Ecológico de São Sebastião (ARIESS), entramos em contato para convidá-lo a participar das oficinas de Diagnóstico Participativo.
O Plano de Manejo é um documento que irá definir o modo como os usos e atividades poderão ser desenvolvidos nos territórios da APAMLN e ARIESS, de forma a garantir a utilização sustentável dos recursos naturais. Neste processo também será elaborado o Plano de Manejo da ARIE São Sebastião, criada juntamente com a APA Marinha do Litoral Norte.
Nestas oficinas levantaremos junto à população como utilizam os recursos naturais e o território da APAMLN e ARIESS, assim como a eventual existência de conflitos entre as diferentes atividades identificadas. Também vamos verificar as potencialidades da APAMLN e ARIESS e pensar em como fortalecê-las, para promover o desenvolvimento das atividades de modo sustentável.
Para participar das oficinas, os setores envolvidos com o ambiente marinho foram distribuídos em três segmentos:
- Segmento 1: é formado por todos os envolvidos com a pesca artesanal, incluindo pescadores e grupos familiares, bem como as mariculturas de pequeno porte.
- Segmento 2: inclui aqueles que realizam outras atividades econômicas no mar, incluindo pesca industrial e amadora, maricultura (exceto de pequeno porte), turismo, esportes náuticos, atividades industriais, exploração mineral, transporte, além de associações de usuários e outros.
- Segmento 3: é constituído por representantes do Poder Público de órgãos municipais, estaduais e federais, além de organizações da sociedade civil de interesses difusos, incluindo institutos de ensino e pesquisa, bem como ONGs ambientalistas atuantes na região, grupos de defesa de minorias, associações de moradores, dentre outros.
Avalie qual o seu segmento e compareça!
Esperamos você! Sua experiência e seu conhecimento são muito importantes!
A organização do evento oferecerá transporte e alimentação. Caso necessite de transporte, entre em contato com o e-mailparticipe.apasmarinhas@gmail.com ou com o telefone (11) 3818-8996
As oficinas serão realizadas nos seguintes locais e datas:
Oficinas de Diagnóstico Participativo - 1ª rodada
Segmento
DATA
Local: Centro Universitário Módulo. Rua Frei Pacifica Vagner, n.653. Centro. Caraguatatuba
2
9/10/2013
das 08h30min às 17h00min
Local: Parque Estadual da Serra do Mar - Núcleo Caraguatatuba. Rua do Horto Florestal, n.1200. Rio do Ouro. Caraguatatuba
3
10/10/2013
das 08h30min às 17h00min
Local: Centro Universitário Módulo. Rua Frei Pacifica Vagner, n.653. Centro. Caraguatatuba
1
14/10/2013
das 08h30min às 17h00min
Atenciosamente,
EQUIPE DE COORDENAÇÃO DO PLANO DE MANEJO - APAM LITORAL NORTE
Saiba mais:
O que é Processo Participativo: O Processo Participativo é uma forma democrática de tomada de decisão e tem como principal objetivo informar e envolver a população, para que, de forma coletiva, sejam elaboradas normas e boas práticas agregando e considerando os diversos interesses e usos dos grupos sociais. O Conselho Gestor da APA Marinha acompanhará o processo, bem como o cumprimento das regras acordadas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

ARQUIVOS INTERESSANTES SOBRE A CANOA CAIÇARA

GRANDE ARQUIVO DO JOSÉ RONALDO DOS SANTOS COM HISTÓRIAS RELACIONADAS A CANOA CAIÇARA, SEUS SABERES E FAZERES.
SÃO CAUSOS, LEMBRANÇAS, RELATOS E PESQUISA QUE REPRESENTAM MUITO BEM A DIMENSÃO DA IMPORTÂNCIA DA CANOA CAIÇARA PARA ESSA CULTURA PRAIANA SUI GENERIS. VALE A PENA ESPIAR.
ACESSE AQUI: http://coisasdecaicara.blogspot.com.br/search/label/Canoas

foto: Peter Németh

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O INFELIZ DESTINO DE NOSSOS PARQUES ESTADUAIS: A PRIVATIZAÇÃO.


Atualizado em 04 de agosto de 2022: 
A Ilha Anchieta, localizada em Ubatuba no litoral norte de São Paulo, terá restaurantes e até um hotel para atrair turistas. O local paradisíaco que conta com água em tons esmeralda, Mata Atlântica preservada e construções históricas, é considerado uma das principais áreas de conservação do estado e por isso virou foco de mudanças para movimentar o turismo da região.

Atualizado em 20 de abril de 2018: TURISMO
7 praias estão sob gestão da prefeitura de Ubatuba.
RENATA TAKAHASHI - 18 DE ABRIL DE 2018

Atualizado em 23 de janeiro de 2017: Entrevista com Adriana Mattoso sobre a "barganha política, visando conquistar a prefeitura de SP, e daí para fortalecer o projeto de poder do PSDB em nível estadual e nacional" utilizando como "dote" a Fundação Florestal e nossas UCs paulistas.

Atualizado em 7 de junho de 2016: 3 anos depois deste post saiu a privatização [Notícia Estadão - 25 Parques privatizados.], e mais "profeta" do que Raul Seixas, no ano de 2000, escreveu o Prof. Diegues:

Uma política conservacionista equivocada que transforma esses lugares em não-lugares, com a expulsão das populações tradicionais, pode estar abrindo espaço para que esses não-lugares se tornem o domínio de pesquisa das multinacionais ou de convênios entre entidades de pesquisa nacionais e internacionais, e, ao final, “privatizados”, como manda o manual neoliberal. Talvez seja por isso que as grandes entidades conservacionistas internacionais associem de forma tão íntima a conservação da biodiversidade e as áreas protegidas vazias de seus habitantes tradicionais e de sua cultura”. (DIEGUES, 2000a: p.32, grifos do autor).

Tomei conhecimento lendo algumas notícias que existe uma "vontade" política de que nossas áreas de proteção integral, como parques estaduais, sejam privatizados pelo Estado (1).
A estratégia traçada para alcançar este objetivo é a de sucatear essas unidades de conservação tanto na parte administrativa (3), quanto na liberação de recursos que já estão reservados para a gestão delas (2).
Muitos gestores de carreira com imenso conhecimento técnico especifico estão sendo substituídos por funcionários "políticos" que ocupam cargos de confiança.
Essa política de Estado nefasta, visa desarticular todo o sistema de gestão desses Parques Estaduais, primeiro afastando os gestores de carreira (3) que mesmo sem o repasse de recursos financeiros continuavam a exercer a melhor administração possível, muito mais pela vocação pessoal e verdadeiro senso de dever a cumprir, do que pelo apoio administrativo e financeiro do Estado.  
Essa pressão sobre os gestores de carreira também tem influenciado em processos de revisão da legislação ambiental atual, como a revisão do GERCO, o Zoneamento Ecológico Econômico da região costeira de São Paulo (15), onde interesses econômicos monstruosos da especulação imobiliária, marinas (13) e garagens náuticas tomaram conta do processo de revisão infiltrando-se em todos os níveis de uma representação dita "democrática" (4 e 5). Pressionados a seguir a "política" da Secretaria de Meio Ambiente eles se calam diante das evidentes manipulações em favor dos interesses econômicos que acontecem descaradamente nesses processos de revisão.
O abandono dos nossos Parques Estaduais é proposital e atende a uma estratégia premeditada com o intuito de desarticular, sucatear e repassar ao interesse privado a administração de nosso patrimônio ambiental (6). Aliás essas "parcerias" com grandes ONGs transnacionais e Bancos (7) interessam verdadeiramente a quem?(8 e 12) Em que mesas, e quais cadeiras, decidem as cláusulas dos contratos? Com os excelentes gestores de carreira que possuímos (e que estão sendo afastados) precisamos da tutela internacional para cuidar da política de gestão do patrimônio natural que é nosso?
E as comunidades tradicionais que durante décadas sofrem os impactos diretos de um ambientalismo radical que as exclui do ambiente natural em que elas sempre estiveram inseridas harmonicamente, elas serão respeitadas por uma administração privada ou internacional que deseja uma natureza em estado prístino, intocada (11), só "pra inglês" ver?
A situação é realmente alarmante! As notícias estão aí, espalhadas nos links abaixo, é simplesmente uma questão de juntar as peças e descobrir que nosso patrimônio natural está à venda, se não vendido.
Como já cantou o "profeta" Raul Seixas: "Os estrangeiros eu sei que eles vão gostar, tem o Atlântico tem vista pro mar, a Amazônia é o jardim do quintal, e o dólar deles paga o nosso mingau. É tudo free, tá na hora, agora é free, vamo embora, dar lugar pros gringo entrar, pois esse imóvel está pra alugar..."(9)
Fontes:
1 - http://noticias.band.uol.com.br/cidades/noticia/?id=100000603960
2 - http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,mesmo-com-r-144-milhoes-em-caixa-areas-de-protecao-de-sp-estao-abandonadas,1067478,0.htm
3 - http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,ambientalistas-veem-aparelhamento-politico-em-ucs-de-sao-paulo,1067490,0.htm
4 - http://canoadepau.blogspot.com.br/2013/05/cetesb-sim-sim-sim.html
5 - http://realnorte.wordpress.com/gerco-ln-paulista/
6 - http://www.ambiente.sp.gov.br/acontece/sma-e-wwf-brasil-assinam-convenio-em-apoio-a-gestao-de-unidades-de-conservacao-publicas-e-privadas/
7 - http://fflorestal.sp.gov.br/2010/12/08/governo-assina-contrato-com-banco-interamericano-de-desenvolvimento-para-recuperar-serra-do-mar/
8 - http://www.youtube.com/watch?v=y2Iu7xk6vfg
9 - http://letras.mus.br/raul-seixas/48296/
10 - http://www.wwf.org.br/informacoes/noticias_meio_ambiente_e_natureza/index.cfm?36082&fb_action_ids=3479656246838&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=%7B
11 - http://raizesefrutos.files.wordpress.com/2009/09/diegues-o-mito-moderno-da-natureza-intocada.pdf
12 - http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-753X2008000200015&script=sci_arttext
13 - https://www.change.org/pt-BR/peti%C3%A7%C3%B5es/bruno-covas-secretario-estadual-do-meio-ambiente-cancelamento-da-proposta-de-altera%C3%A7%C3%A3o-do-zoneamento-da-praia-de-bareque%C3%A7aba
14 - http://www.informarubatuba.com/reunio-pl-249-15-
15 - http://informarubatuba.com.br/sete-praias-ja-estao-sob-gestao-municipio-segundo-prefeitura-de-ubatuba/

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

S.O.S.! CANOAS CAIÇARAS AGONIZANDO EM ILHABELA

Meu amigo Julinho Mendes escreveu uma crônica linda sobre um guapuruvu na mata cujo sonho é de um dia se transformar em Canoa:
"Quero ainda poder navegar, morar num ranchinho à beira da praia, rolar em rolo e beijar o mar. Quero pescar, balançar nas marolas, carregar pescador, sentir o vento na proa, quilhar na popa em rumo a parcéis. Quero ser livre, seguir o clarão do sol e voltar no rastro da lua. Quero ouvir o canto dos goetes, quero o encanto das sereias, a benção de Iemanjá..."
Esse guapuruvu do Julinho quer ter esse privilégio antes de morrer de vez, secar e apodrecer no mato.
Sim, este é o destino mais glorioso que uma árvore pode ter, a de renascer como Canoa Caiçara, ter um dono cuidadoso e orgulhoso, um ranchinho na beira da praia para descansar depois da pesca, ter um nome muitas vezes igual ao da filha ou esposa, família que a Canoa ajuda a sustentar com dignidade.
Pois bem, esse é o lindo sonho de uma árvore que ainda não virou Canoa.
Mas dias desses fui alertado sobre várias imensas Canoas Boneteiras, mais de 10, que representam 1/3 do patrimônio naval da Praia do Bonete em Ilhabela que foram compradas por um dono de hotel para "enfeitar" a praia.
Foto: http://tainhanarede.blogspot.com.br/2015/04/caa-icara.html
Essas Canoas Caiçaras Boneteiras acima, um dia foram árvores magníficas, um dia foram escolhidas para renascerem Canoas, foram imaginadas e esculpidas por um Mestre Canoeiro, foram adotadas por uma família Caiçara, ganharam cores vivas e um nome, ganharam uma alma, realizaram o sonho...
Hoje, estão agonizando na areia, imóveis, paralisadas, "pássaros na gaiola" como disse um amigo meu.
Que maior pesadelo pode existir para quem antes viveu aventuras diárias no mar, desvendou segredos das profundezas marinhas, dividiu alegrias com seu dono.
Que destino infeliz, salvar-se de apodrecer no mato para apodrecer na praia... logo alí, a poucos metros do oceano, das aventuras, do gosto salgado, do balanço cadenciado das ondas, do afago do seu dono, do cheiro abençoado dos peixes.
Que desgraça!
Ah... podem dizer... mas elas foram vendidas!
Sim, foram vendidas, ou melhor compradas. Compradas por um empreendedor capitalista que fez uma oferta para uma família que talvez tenha sido acuada ano após ano pelo próprio sistema capitalista, que extermina qualquer tipo de cultura comunitária baseada  na reciprocidade igualitária, como é a Cultura Caiçara. Desta forma, cada vez mais e mais impactadas pelo consumismo proporcionado pelo capital que corrompe costumes, altera tradições e "pasteuriza" culturas, essas famílias se desfizeram de suas Canoas.
Podem ter pensado no "fracasso" da pesca artesanal, que já não proporciona o "de comer", na dificuldade de conseguir uma autorização "do meio ambiente" para fazer sua roça de mandioca.
- Pra que uma Canoa se eu nem consigo mais ser "Caiçara"!
Se pensarmos em toda a dificuldade e em todo o "custo" ambiental, humano, artístico, social, cultural envolvido na construção e uso de uma Canoa Caiçara, jamais aceitaríamos que uma Canoa pudesse servir como "enfeite". Isso é o verdadeiro crime ambiental! Isso sim deveria ser motivo de indignação e repúdio!
Volta pra água! Volta pra água! Volta pra água!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O SONHO DE UM GUAPURUVU - por JULIO CÉSAR MENDES



Peço permissão novamente para publicar mais um maravilhoso texto do meu amigo Julinho Mendes.

Fonte: O Guaruçá - http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=45375"

ATENÇÃO, ESSE TEXTO É MELHOR LIDO SOB ESTA MELODIA DE RODOLFO VIDAL: CLIQUE AQUI 

Julinho Mendes
27/08/2013 - 09h00
O sonho de um guapurubu

Julinho Mendes 
Já cumpri com meu divino dever: reflorestei, dei sombra fresca, produzi ar puro, abriguei passarinhos, alimentei formigas, oxigenei a terra. Nesse meu período de vida, vislumbrei a vocação e o destino de meus pais: Ser navegante! Mas o destino a Deus pertence. Hoje me encontro velho, seco, sem vida e com o destino de em breve me desintegrar na terra. Não foi esse o destino de meus pais. Não é esse o fim que eu quero. Quero ainda poder navegar, morar num ranchinho à beira da praia, rolar em rolo e beijar o mar. Quero pescar, balançar nas marolas, carregar pescador, sentir o vento na proa, quilhar na popa em rumo a parcéis. Quero ser livre, seguir o clarão do sol e voltar no rastro da lua. Quero ouvir o canto dos goetes, quero o encanto das sereias, a benção de Iemanjá...
Estou com medo. O tempo está passando e ninguém vem me buscar. Pica-paus e baitacas já me fazem buracos para seus ninhos. Minhas raízes interromperam o sulco da terra, não bebo mais água, não oxigeno mais. Por favor, não me deixem aqui! Daqui a pouco vem um sudoeste qualquer e me põe no chão e cai também o meu sonho de ser navegante.
Se me ajudarem saio daqui e igual papai e mamãe me torno canoa, navegante e me findo no mar. Quero que me pintem de verde e amarelo e me deem o nome de Ícaro. Vou navegar ao sol, derreter-me ao tempo e diluir-me no mar.
Quero ser canoa! Quero navegar!
Na mata, em breve, findarei. No mar vida nova terei.
Sou Guapurubu, dos tupinambás, dos caiçaras... Sou do lugar de muitas canoas. Sou de Ubatuba e moro no morro do Félix.
Venham! Venham me buscar!



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

AS CANOAS DO TIPO "REGATA" FEITAS PARA COMPETIR, PESCAR E LUTAR.

Que lindas, estreitas e esguias são estas canoas do tipo "regata" lá de Cananéia usadas localmente para a pesca da manjuba. Que habilidade para remar uma destas!
Neste site já falei das variedades diversas do tipo de embarcação classificado como Canoa Caiçara; a Canoa de Voga, a Canoa Boneteira, a Canoa de Paranaguá - PR.
Faltava algo sobre a Canoa Regata.
"Segundo Francelízio, pescador e canoeiro, a regata é uma canoa longa, de boca estreita, sem bordadura, muito veloz, corta muita água, mas não e é adequada para a pesca no local. Era confeccionada em Ilhabela e vendida para Santos e para o litoral sul do estado, utilizada na pesca da manjuba. Em Ilhabela, segundo Cláudio, pescador e carpinteiro, as canoas para seis ou oito remadores, eram utilizadas exclusivamente para as regatas que ocorriam duas vezes ao ano no município, nunca para a pesca. No decorrer do anoficavam guardadas em ranchos, aguardando a próxima competição". (Maldonado, 2001, p.105, grifos da autora).
"Cortar água" é o efeito que pode ser observado na proa da canoa da foto abaixo:

A pesca da manjuba:
Em 1999, acontece um marco histórico na questão dos direitos das comunidades Caiçaras sobre o usofruto de seus territórios tradicionais, mesmo que em áreas de unidades de conservação integral, que foi a PORTARIA REGIONAL Nº 1 /99 DE 13 DE AGOSTO DE 1999, assinada pelo INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS:
"Considerando a importância do Mar Pequeno (ou Mar de Dentro), por se tratar de região estuarina que constitui o terceiro maior criadouro mundial de espécies aquáticas;
Considerando a importância sócio-econômica do recurso manjuba para a região do rio Ribeira de Iguape;
Considerando que as bocas das Barras de Icapara e do rio Ribeira de Iguape, e praia do Leste são áreas pouco profundas e de concentração de juvenis de diversas espécies de peixes;
Considerando que o efeito não predatório da rede corrico sobre a população de manjuba e demais espécies, conhecimento este resultante dos trabalhos de pesquisa realizados pelo Instituto de Pesca da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Estado de São Paulo;
Considerando a alteração ambiental provocada pela aberturas do Valo Grande e mantendo a solicitação já efetuada aos órgãos competentes em favor do fechamento, durante o período das secas, resolve:

Art. 1º- Permitir o exercício da pesca da manjuba, com o petrecho denominado "manjubeira" ; no rio Ribeira de Iguape a partir do local conhecido como "coroinha" e "sinal" no Costão do Icapara até a Pedra do Jeajava.; e na margem da Ilha Comprida até o Hotel "Maré Alta".
Parágrafo único- As normas de navegação da Marinha devem ser respeitadas.
Art. 2º- Permitir o exercício da pesca da manjuba, com qualquer denominado "corrico", no Mar Pequeno (ou Mar de Dentro) até Sabauna e, também, no rio Ribeira de Iguape até os locais conhecido como "coroinha", e "sinal", respeitando as normas de navegação da Marinha.
(...)
Art. 5º- O petrecho "manjubeira" permitido para a pesca da majuba nos locais do Mar Pequeno e no rio Ribeira de Iguape descritos no art. 1º desta Portaria, deve apresentar as seguintes características:
I- Panagem
1. Redes compostas de braço, manga e saco com comprimento máximo de 150 m (cento e cinquenta metros); cada segmento da rede deve ter as características de comprimento e malhagem especificadas nos incisos II, III, e IV deste artigo.
2. Redes compostas somente de manga e saco com comprimento máximo de 150 m (cento e cinqucenta metros); cada segmento da rede deve ter as características de comprimento e malhagem especificadas no incisos III e IV deste artigo.
II- Braço (se houver)
Comprimento máximo de 34 m (trinta e quatro metros), malhagem mínima de 24 mm (vinte e quatro milímetros);
III- Manga
Comprimento máximo de 90 m (noventa metros), com malhagem mínima de 20 mm (vinte milímetros);
IV- Saco
Comprimento máximo de 26 m (vinte e seis metros), malhagem mínima de 18 mm (dezoito milímetros).
Parágrafo único- Para efeito de mensuração, define-se tamanho de malha como a medida tomada entre ângulos opostos da malha esticada e o tamanho da rede como medida tomada entre as extremidades da panagem.
Art. 6º- O comprimento da rede "corrico" a ser utilizada no rio Ribeira de Iguape e no Mar Pequeno, não deve ultrapassar 150 m (cento e cinqüenta metros), com malhagem de 24 mm (vinte e quatro milímetros).
Parágrafo único- Para efeito de mensuração, define-se tamanho de malha como a medida tomada entre ângulos opostos da malha esticada e o tamanho da rede como medida tomada entre as extremidades da panagem.
Art. 7º- O exercício da pesca, praticado em descordo com estas disposições constitui dano à fauna aquática de domínio publico, nos termos do art. 71 do Decreto-Lei nº 221/67assim como crime, nos termos dos Art. 34 da Lei nº 9.605/98, de 12 de fevereiro de 1998".

Essa importante "Portaria regional" criou um precedente capaz de garantir o acesso doa populações tradicionais aos seus territórios de direito ancestral, desde que sob regras de manejo sustentáveis, que muitas vezes reproduzem ou formalizam o próprio manejo tradicional.

1   fontes: 
1- https://www.facebook.com/photo.php?fbid=400427030063184&set=a.104000543039169.4555.100002876713968&type=1&relevant_count=1
2-MALDONADO, Wanda. Da mata para o mar - A construção da Canoa Caiçara em Ilhabela/SP, 2001.
3- http://ipesca.tripod.com/pesca.htm
4- http://www.pesca.sp.gov.br/noticia.php?id_not=547

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

PARATY LANÇA CAMPANHA DE APOIO AO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA JUNTO AO IPHAN

Dia 16 de agosto último a Secretaria de Cultura de Paraty lançou a campanha de apoio ao registro da Canoa Caiçara como bem cultural imaterial do Brasil.
Estiveram presentes os Srs. Ronaldo dos Santos, secretário de cultura; André Bazanela, chefe do Iphan de Paraty; Robson Dias Possidonio, fórum das comunidades tradicionais, de Trindade; Mestre Vítor Cardoso do Carmo, Mestre canoeiro da Trindade; Peter Santos Németh, proponente do Registro representando a APE-Associação Pescadores da Enseada e Mário Ricardo de Oliveira, Mestre rabequeiro representando a Fundart-Ubatuba; no salão nobre do paço municipal de Paraty que estava lotado.
O intuito do Registro é garantir a continuidade e a salvaguarda dos saberes e fazeres associados à construção da Canoa Caiçara que é o símbolo maior da Cultura Caiçara. A importância da Canoa Caiçara está oculta dentro do processo empírico que engloba sua confecção e seu uso na faina diária da pesca tradicional. São saberes que apenas existem na mente do Mestre e somente possíveis de serem transmitidos através da oralidade.
Apoiam esta iniciativa desde 2011, a Associação Pescadores da Enseada - APE, FUNDART - Prefeitura de Ubatuba, Nupaub-USP, Museu Caiçara de Ubatuba, APA Marinha - LN, Fundação PróTamar - Ubatuba, Instituto Costa Brasilis, União dos Moradores da Juréia, Amyr Klink Projetos Especiais, os remadores das corridas de canoas do Litoral Norte, além de vários colaboradores e admiradores da Canoa Caiçara.
A adesão de Paraty ao Registro com a criação desta Campanha de apoio veio contribuir e abrilhantar ainda mais este projeto agregando mais colaboradores e compilando informações da região sul fluminense que carecia de maior coleta de dados relacionados à Canoa Caiçara.
 foto: Peter Németh
Aumenta assim a visibilidade sobre as questões que impedem ou prejudicam a reprodução cultural da Nação Caiçara, principalmente a defesa e o direito ao uso de seus Territórios Tradicionais ancestrais tanto em terra quanto no mar, cada vez mais ameaçados pelo ambientalismo radical que exclui o homem da natureza e pela especulação imobiliária devastadora.
Agora o Iphan deverá nos próximos anos solicitar mais estudos relacionados aos saberes e fazeres da Canoa Caiçara para delimitar ainda mais o recorte do bem a ser registrado, principalmente nos litorais sul paulista e norte paranaense, para que o Registro seja definitivamente inscrito no Livro dos Saberes.

Fontes:
http://canoadepau.blogspot.com.br/2013/01/conselheiro-do-iphan-visita-mestres.html
http://canoacaicarabrasil.blogspot.com.br/
http://fundart.com.br/fundart-prestigia-31o-festival-da-cachaca-cultura-e-sabores-de-paraty/