terça-feira, 10 de março de 2026

Uma ferramenta lítica ou a minha imaginação?

Há cerca de uns 30 anos, meu amigo pescador da Praia da Enseada, João Batista, nascido e criado naquela costeira, estava arrastando camarão no Largo das Toninhas, entre a Ilha Anchieta e a Ponta das Toninhas e um objeto inusitado veio em meio aos camarões. Enquanto fazia a escolha do lance ele encontrou uma pedra muito diferente, com formato ovalado, perfeitamente simétrica, pesada e bem polida. 

O João Batista então a guardou no barco e vez em quando a usava para amolar suas facas a bordo.

Certa vez, durante uma das puxadas para manutenção do Arcanjo Miguel (nome do barco), eu o estava ajudando com a pintura e lhe perguntei sobre aquela pedra de amolar, como devia ser antiga por estar tão gasta pelo uso (ela realmente se assemelha a uma pedra de Carborudum).


Foi então que ele me respondeu: "Não Alemão.... isso aí não é Carborundum não.... isso aí eu achei no arrasto de camarão". Eu já respondi admirado: "Não é uma pedra de amolar"??! E logo fui observar a pedra melhor e vi realmente que ela possuía "camadas" e "veios" como os de uma pedra qualquer.

Empolgado com a minha curiosidade e espanto ele falou: "Pode levar pra você Alemão".

Desde então tenho essa pedra curiosa guardada. Esses dias eu a encontrei numa das minhas gavetas e tive um lampejo, quase um delírio... E se for um artefato lítico?! Uma ferramenta confeccionada pelos sambaquieiros que habitaram a região de Ubatuba há cerca de 1650 anos atrás, com permanência contínua naquelas paragens pelo período de mais ou menos 900 a 1000 anos?!

Dezenas de estudos científicos identificaram na região diversas oficinas líticas nas praias e ilhas da região, Ilha do Mar Virado, Ilha Anchieta, Tenório, Picinguaba, Ilha das Couves.

Quem sabe esse povo antigo não estaria em uma travessia costeira a bordo de uma de suas canoas e uma refrega de Sudoeste tenha virado a embarcação no meio da viagem?! Ou quem sabe uma batalha entre "tribos" rivais e o artefato tenha sido perdido durante a disputa?! 

Impactado por essa hipótese absurda, consultei informalmente uma pesquisadora que trabalhou em alguns desses estudos e ela me disse com muita cautela que "parece sim um artefato lítico", mas como ela foi achada no fundo do mar, a pedra está "descontextualizada" e embora os gumes pareçam ter sido feitos intencionalmente pelo homem apenas uma análise mais profunda e científica poderia concluir algo. Disse-me também que em nenhuma escavação da região, das quais participou, ela encontrou algum objeto fusiforme do mesmo tamanho, já menores, entre 3 e 4 centímetros, sim, ela já havia encontrado.

Deixo aqui algumas fotos do "objeto", ainda com alguns respingos de tinta do Arcanjo Miguel.





sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

ANDOR DA CAPELA DE SANTA RITA DA ENSEADA

Por volta do ano de 2011 fizaram uma limpeza na Capela de Santa Rita da Praia da Enseada e no lixo encontrei este andor jogado fora na rua.
Analisei a construção bem artesanal que deve ter sido obra de algum morador da comunidade. Percebi que haviam alguns berços no centro que pareciam ter sido feitos para apoiar uma embarcação e deduzi que o andor deve ter sido feito para levar São Pedro Pescador. Não pensei duas vezes e resgatei o andor do lixo.
15 anos depois deste resgate estou eu aqui estabilizando o andor com o mínimo de intervenção possível para que permaneçam suas características originais preservadas. Manterei os berços originais (que ainda possuem algum vestígio da tinta marrom usada para pintar a embarcação) e também os berços de pinus que claramente foram feitos depois para algum ajuste, estes de pinus tive que recompor com cola pois os pregos incharam com a ferrugem e os estouraram.
Passei de leve uma lixa 180 só pra tirar a sujeira superficial das madeiras e também as farpas. Mantive os restos de papel crepom colados que mostram como era enfeitado o andor.
Perecebe-se no andor as várias tentativas de melhora da estrutura como o uso de parafusos de inox e arame de cobre para tentar fixar melhor o Santo e sua embarcação.
A idéia é o mínimo de intervenção possível mas deixando a estrutura firme e coesa. Depois de tudo pronto pensei que seria bacana estudar o interesse do Museu Caiçara de Ubatuba em expor a peça como um testemunho da religiosidade da Comunidade da Praia da Enseada. Seria bacana também verificar se existe ainda na Capela de Santa Rita algum São Pedro com embarcação, e se esta embarcação tem o casco pintado de marrom conforme os vestígios de tinta no andor.
(Todas as fotos são de Peter Santos Németh)