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terça-feira, 10 de março de 2026

Uma ferramenta lítica ou a minha imaginação?

Há cerca de uns 30 anos, meu amigo pescador da Praia da Enseada, João Batista, nascido e criado naquela costeira, estava arrastando camarão no Largo das Toninhas, entre a Ilha Anchieta e a Ponta das Toninhas e um objeto inusitado veio em meio aos camarões. Enquanto fazia a escolha do lance ele encontrou uma pedra muito diferente, com formato ovalado, perfeitamente simétrica, pesada e bem polida. 

O João Batista então a guardou no barco e vez em quando a usava para amolar suas facas a bordo.

Certa vez, durante uma das puxadas para manutenção do Arcanjo Miguel (nome do barco), eu o estava ajudando com a pintura e lhe perguntei sobre aquela pedra de amolar, como devia ser antiga por estar tão gasta pelo uso (ela realmente se assemelha a uma pedra de Carborudum).


Foi então que ele me respondeu: "Não Alemão.... isso aí não é Carborundum não.... isso aí eu achei no arrasto de camarão". Eu já respondi admirado: "Não é uma pedra de amolar"??! E logo fui observar a pedra melhor e vi realmente que ela possuía "camadas" e "veios" como os de uma pedra qualquer.

Empolgado com a minha curiosidade e espanto ele falou: "Pode levar pra você Alemão".

Desde então tenho essa pedra curiosa guardada. Esses dias eu a encontrei numa das minhas gavetas e tive um lampejo, quase um delírio... E se for um artefato lítico?! Uma ferramenta confeccionada pelos sambaquieiros que habitaram a região de Ubatuba há cerca de 1650 anos atrás, com permanência contínua naquelas paragens pelo período de mais ou menos 900 a 1000 anos?!

Dezenas de estudos científicos identificaram na região diversas oficinas líticas nas praias e ilhas da região, Ilha do Mar Virado, Ilha Anchieta, Tenório, Picinguaba, Ilha das Couves.

Quem sabe esse povo antigo não estaria em uma travessia costeira a bordo de uma de suas canoas e uma refrega de Sudoeste tenha virado a embarcação no meio da viagem?! Ou quem sabe uma batalha entre "tribos" rivais e o artefato tenha sido perdido durante a disputa?! 

Impactado por essa hipótese absurda, consultei informalmente uma pesquisadora que trabalhou em alguns desses estudos e ela me disse com muita cautela que "parece sim um artefato lítico", mas como ela foi achada no fundo do mar, a pedra está "descontextualizada" e embora os gumes pareçam ter sido feitos intencionalmente pelo homem apenas uma análise mais profunda e científica poderia concluir algo. Disse-me também que em nenhuma escavação da região, das quais participou, ela encontrou algum objeto fusiforme do mesmo tamanho, já menores, entre 3 e 4 centímetros, sim, ela já havia encontrado.

Deixo aqui algumas fotos do "objeto", ainda com alguns respingos de tinta do Arcanjo Miguel.





segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Pirataria Privada na Ilha Anchieta! O butim é grande!

De Parque Estadual para Parque Temático. 

O Golpe está aí! Só não vê quem não quer.

Reforma tudo com dinheiro público, pra entregar de mão beijada pra "iniciativa" privada.

Ainda bem que algum funcionário com escrúpulos e fígado deixou bem à mostra os "itens" que nem de perto dizem respeito à Contenção.



Quer entender todo o "rolê" do projeto de privatização da Ilha Anchieta? 

Então veja aqui: 

https://canoadepau.blogspot.com/2016/05/exploracao-turistica-da-ilha-anchieta.html

https://canoadepau.blogspot.com/2013/03/gestao-costeira-quem-perde-e-quem-ganha.html 

https://canoadepau.blogspot.com/2013/09/o-infeliz-destino-de-nossos-parques.html 


quarta-feira, 27 de março de 2019

A PESCA DE MARCAÇÃO EM UBATUBA - SP

"A 12a edição da coletânea do PROCAM, que consta de 16 artigos elaborados por alunos de Mestrado e Doutorado, apresenta-se como um conjunto de textos que caracterizam as múltiplas reflexões que compõem o quadro de pesquisas desenvolvidas nas suas diversas linhas de pesquisa dentro do arcabouço da Ciência Ambiental. A complexidade dos eventos associados à problemática ambiental impõe a necessidade de diálogo entre ciência, gestores e sociedade, em virtude da emergência de fenômenos que representam ameaças globais, em um cenário que Ulrich Beck (2010) define como sociedade de risco. Neste sentido, coloca-se a necessidade de aprofundar o debate de temas que têm, nos diferentes tipos de incerteza, a possibilidade de multiplicar conhecimentos e diálogos e construir um olhar mais apropriado para lidar com estas questões prementes."
"Nesta publicação, destaca-se mais uma vez, a preocupação do PROCAM de apresentar resultados de pesquisa desde uma perspectiva interdisciplinar. No conjunto de artigos aqui apresentados, enfatizase a importância dos processos sociais que determinam as formas de apropriação da natureza e suas transformações, através da participação social na gestão dos recursos ambientais em suas múltiplas manifestações, seja em políticas públicas, assim como nas práticas dos diversos atores sociais."

"No artigo “A pesca de marcação nos mares da Enseada do Flamengo, Ubatuba, São Paulo”, de Peter Santos Németh e Antonio Carlos Sant’ana Diegues, abordam-se as técnicas e conhecimentos relativos à pesca de marcação nos territórios marítimos tradicionais utilizados pela comunidade de pescadores artesanais da Praia da Enseada, na Enseada do Flamengo em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Concluiu-se que a atual regulação pesqueira, federal ou estadual, é feita “de cima para baixo”, ignorando deliberadamente as peculiaridades locais e os processos e mecanismos pelos quais os pescadores estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços marítimos, atropelando as regras tradicionais baseadas no direito consuetudinário, e afetando sua liberdade e autonomia."

Fonte: Caminhos do conhecimento em interdisciplinaridade e meio ambiente / Pedro Roberto Jacobi / Paulo Antonio de Almeida Sinisgalli (organizadores) – São Paulo: IEE-USP e PROCAM-USP, 2018. 1ª Edição. 419 páginas.  ISBN 978-85-86923-55-5


quarta-feira, 9 de maio de 2018

CAIÇARA – A luta do Velho Pescador

CAIÇARA – A luta do Velho Pescador - (tirado de uma postagem da internet)

A Cultura Caiçara originou-se da miscigenação Cultural do Branco Colonizador, Índio e do Negro escravo nas terras hora colonizadas pelos Europeus, em nossa região, particularmente, pelos Portugueses, Franceses e algumas famílias Inglesas. Uma cultura ímpar, que ao longo de várias décadas de história de povoamento do nosso litoral se adaptou em um convívio harmonioso e cúmplice com a Mata, nascentes que brotam de olhos d’água da exuberante Mata Atlântica, com o Mar que é o sentido maior de suas vidas, onde tira dele o alimento, a lida com as mudanças do clima e observa-se as horas, dias e anos de uma vida costurada junto as redes de pesca.
Ser caiçara, é respeitar o tempo da natureza, é observar o desabrochar das flores, a mudança súbita do tempo e suas estações. É ter a sabedoria de caminhar em consonância com o desenrolar da Mãe Natureza e ter a certeza de que ela dita o tempo de plantar, colher, podar e tirar de sua criação o alimento que irá manter viva a esperança de um Povo que aprendeu a viver entre a Serra e o Mar observando de um modo único a vida e sua passagem.
Dentre as atividades de convívio com a natureza, o Caiçara desenvolveu a técnica da pesca, aprendida com os Índios, que em redes, varas, linhas e outros métodos que não estão em livros, há centenas de anos ele faz perpetuar uma herança que alimentou o corpo e a alma e aos poucos vai se apagando e ficando cada dia mais saudosista e certamente já aparecem em livros para dizer que “um dia em um lance de rede o caiçara do Itaguá matou alguns milhares de tainha”.
Para o Homem do Mar, preparar seus apetrechos de pesca é um ritual de sabedoria e zelo e de profundo respeito à criação e às forças da natureza.
O Homem do Mar é conhecedor das mudanças do tempo, da época da desova, da melhor corda para se costurar sua rede, das correntes que vem de leste ou de sul, mas sobremaneira ele reconhece que o Mar é bondoso e maior que suas necessidades e por ele o Pescador tem profunda admiração e respeito.
Seu Joel. Foto de internet
Há 67 anos, um caiçara nascido em Trindade, comunidade que faz divisa com Ubatuba, pertencente ao Estado do Rio de Janeiro, aprendeu desde menino às técnicas de pesca com seu pai e ao longo dos dias que viriam tornou-se um pescador e dedicou sua vida ao Mar, dele alimentou suas necessidades, de sua esposa e de 4 filhos.
Joel Teixeira há 43 anos dedica sua vida de pescador em um cerco de pesca localizado na Praia do Sul da Ilha Anchieta, hoje com esse nome, mas para os antigos pescadores de Ubatuba sempre será a Ilha dos Porcos.
Meu Deus, como é bonito de se ver um homem com simplicidade, garra e força, dedicar a maior parte de sua vida ao ofício da pesca. Para aqueles que o conhecem, jovens e idosos pescadores, o “Seu” Joel faz isso com prazer, sabedoria, amor e muito respeito pela Mãe Natureza.
Um homem que não teve condições de estudo em sua mocidade, tempos idos e difíceis de se viver em um litoral afastado e esquecido entre a mata e o mar. Mas tais dificuldades nunca fizeram um caiçara se esmorecer frente suas dificuldades, ao contrário, sempre agradeceu a Deus por sua saúde e mais um dia de vida, que para uma pessoa simples é a maior riqueza que um homem pode ter.
Por falar em juventude, aos 23 anos o “Seu” Joel inicia então sua dura jornada de deixar no continente sua família e se lançar ao mar, onde no cerco da Praia do Sul diariamente la ele estava consertando uma rede, limpando a praia, recebendo poucos visitantes que por lá passavam e cúmplice na manutenção da riqueza ambiental do lugar.
O tempo é Rei e assim rege nossos dias. Passaram-se os anos de pesca do “Seu” Joel e 7 anos depois, em 1977, foi criado o Parque Estadual da Serra do Mar e a Ilha Anchieta torna-se Unidade de Conservação.
Com a criação da Unidade, Leis foram impostas para o uso da área que passa a ser do Governo do Estado de São Paulo, mas que não vieram interferir no trabalho do Homem do Mar, onde as Leis encontraram no simples pescador um apoio às suas pretensões de preservação ambiental e o convívio harmonioso com as tradições caiçaras, nesse caso, o cerco de Pesca Artesanal. E aí a vida continuou a passar entre o mar, a mata e agora juntamente com as Leis.

É certo e inquestionável a necessidade de Preservação Ambiental dos Ecossistemas que compõe o Bioma Mata Atlântica, sendo ele o possuidor da maior biodiversidade do Planeta e que aparece entre os 5 mais ameaçados de desaparecerem.
Nesse diapasão, as comunidades ao longo do litoral Paulista vêm se adequando e reaprendendo a viver e conviver com o meio ambiente e as Leis criadas para a defesa dessa complexa e rica forma de vida.
Temos visto que não foi uma simples tarefa ao longo desses 36 anos de tombamento da Serra do Mar, mas é observado que o povo caiçara tem se esforçado e muitas vezes, com imposições desiguais, tem aceitado a reaprender um novo modo de vida frente à natureza e sua cultura de convívio Homem - Natureza trazida a muitas décadas de história.
Hoje, as grandes discussões não só estão em torno da preservação ambiental, mas sobremaneira na preservação do cidadão, de sua cultura, de sua vida, da sua espiritualidade e principalmente em sua dignidade de vida.
Assim, há que se observar que muito tem se avançado em uma legislação ambiental, mas pouco tem se feito pelas comunidades inseridas em Unidades de Conservação, especificamente voltemos à vida do “Seu” Joel.
De 2012 para cá, uma onda de conversas tomou conta da vida do velho Pescador, hoje com seus cabelos brancos e muitas incertezas de sua permanência no cerco da Praia do Sul, culminando com uma notificação da Fundação Florestal datada de 7 de janeiro desse ano, onde pede ao Velho Pescador que cesse em 5 dias suas atividades pesqueiras.
Triste, sentido e humilhado em sua vida dedicada ao mar e que hoje figura como um infrator, pessoa rejeitada em seu espaço de trabalho e porque não dizer marginalizado em seu ofício e dedicação integral a tudo que aprendeu na vida que foi a pesca.
Começa então a ser “costurada” uma nova história ao Homem do Mar. De posse dessa intimação para desocupar o cerco e retirar da água seus apetrechos, o tempo para, o chão se abre e o que era belo passa a ser nebuloso e sem sentido.
Buscando junto aos amigos uma explicação do que de fato começa a se escrever em sua vida, o velho pescador conseguiu na justiça uma liminar para que continuasse a pescar até que fosse julgada em caráter definitivo sua permanência no cerco, e que o Estado ou a Nação explicasse a ele e a população o porquê do fechamento de mais um cerco nas águas de Ubatuba e o fim de décadas de trabalho e lida com o mar de um Pescador.
No dia 31 do mesmo mês a Justiça de Ubatuba defere o pedido do “Seu” Joel e lhe garante o direito de continuar a pescar, devolvendo ao Pescador novamente o prazer do seu trabalho e o sustento de sua família e companheiros de pesca.
Mas infelizmente certos homens públicos perdem a noção e o poder de seus cargos, e no dia 21 de fevereiro, um servidor do IBAMA retira da água as cordas do cerco do Velho Pescador e como justificativa ainda diz que o Juiz de Direito da cidade era incompetente para determinar ordem em área Federal.  Meu Deus e agora?!
E os dias vão se passando, quase 6 meses e o “Seu” Joel não pode pescar, inclusive muito do seu investimento retirado pelo IBAMA, sabe-se lá onde estão guardados nesse momento.
Aí, as Leis que vieram para caminhar juntamente com as comunidades tradicionais, hoje assombram muito dos verdadeiros donos das terras entre a Serra e o Mar que é o Caiçara.
“Um dia lá em 2007, em uma reunião do Conselho que resolve as coisas na Ilha Anchieta, coloquei meu dedo em um documento que deram o nome de Termo de Compromisso... disseram pra mim que os advogados da Fundação Florestal estavam cientes e que concordavam com o documento, que vinha escrito que eu permaneceria no Sul, onde ali eu fazia a única coisa que eu aprendi na vida que era pescar... disseram que eu seria responsável em cuidar da Praia do Sul, isso eu sempre fiz mesmo e que eu iria participar do turismo sustentável do Parque, que era uma das funções dele...”, comenta o Pescador de suas lembranças frescas de reuniões, leis, conversas, promessas, sabe lá o que mais dizer e principalmente acreditar.
Hoje o “Seu” Joel ainda não pode pescar e a cada dia que passa vê que a possibilidade de retornar ao seu cerco da Praia do Sul da Ilha Anchieta vai ficando mais distante.
O que pensar, o que fazer já nessa idade da vida a não ser pescar? Perguntas sem respostas, burocratas impacientes, mal educados e até grosseiros se esquivam de sentarem em uma mesa coesa, responsável e definitivamente resolver a vida do Homem do mar.
Não, não mesmo, pois o que mais importa no momento é discutir se as águas que circulam a Ilha dos Porcos é de responsabilidade do Estado ou da Nação. O mais importante agora é se “discutir” a elaboração do Plano de Manejo da APA Marinha do Litoral Norte.
Esse sim é um documento que merece atenção, reuniões de horas a fio, gastos de dinheiro público com lanches, alimentação, transporte, contratação de profissionais e tantas outras necessidades que aparecem como urgentes de serem resolvidas.
Pois é “Seu” Joel, esse é o Progresso que atropela a vida e a cultura de um povo, onde assim como o Senhor, tantos outros cercos que existiam em nossa costa foram ao longo dos anos desaparecendo e ficaram na história e memória dos bravos caiçaras pescadores.
Mais tenha fé, pois essa os homens das leis não terão o Poder de tirá-la do Senhor e quem sabe qualquer hora dessas eles precisem do Senhor novamente para limpar a Praia do Sul, protegê-la de caçadores, pois eles nunca tiveram esse trabalho e preocupação com o lugar.
O que resta agora é aguardar a definição da lei, dizendo sim ou não a permanência de um legítimo pescador artesanal em seu trabalho com o cerco.
Tomara que eles tenham a sensibilidade de olhar dentro dos olhos do Velho Pescador e entender o que aquilo significa para ele, ou ao menos o respeito de olhar sua história de vida e ter a certeza que foi responsável em apagar da história dos Homens do Mar páginas que começaram a ser escrita a mais de 300 anos.
                        Marcos Roberto
                     Caiçara e Jornalista

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A Biblioteca Municipal Ateneu Ubatubense já tem.

Uma das formas de retribuir toda a generosidade do povo caiçara ubatubano em comigo compartilhar seu valiosos conhecimentos foi deixar um exemplar original da dissertação por mim elaborada disponível para consulta na Biblioteca Municipal de Ubatuba. Quem quiser é só passar lá e pesquisar: SITE DA BIBLIOTECA


RESUMO

NÉMETH, Peter Santos. A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta: a interdição dos territórios pesqueiros ancestrais e a reprodução sociocultural local. 2016. 248 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental) – Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental – Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.


O presente estudo analisa os saberes e técnicas patrimoniais utilizadas pela população dos pescadores caiçaras que atuam na região da Ilha Anchieta e Enseada do Flamengo, em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Este corpo cumulativo de habilidades especiais, transmitidas oralmente, compõe o conhecimento tradicional pesqueiro local, patrimônio imaterial sobre o qual fundamentam sua reprodução sociocultural e o manejo de seus pesqueiros[1] tradicionais. Abordamos através de pesquisa qualitativa não dirigida, as relações entre a apropriação social do ambiente marinho e os conflitos decorrentes do embate entre essa noção ancestral de propriedade por parte dos pescadores artesanais locais frente às questões legais do gerenciamento territorial desses pesqueiros pelos órgãos oficiais, utilizando uma abordagem etnográfica em nosso trabalho de campo, seguindo preceitos etnocientíficos, aspectos da etno-oceanografia e da socioantropologia marítima. Hoje, a disputa pelo domínio sobre esses recursos pesqueiros comuns (seja por órgãos governamentais conservacionistas ou de fomento à pesca, seja pela pressão política da pesca capitalista de escala industrial e da pesca esportiva amadora) cria frágeis mecanismos de regulação do acesso a esses pesqueiros tradicionais e aos recursos que neles ocorrem, quase sempre excluindo o pequeno pescador artesanal do processo de tomada de decisão e governança. Concluímos que esta regulação pesqueira, federal ou estadual, feita “de cima para baixo” ignorando deliberadamente as peculiaridades locais e os processos e mecanismos pelos quais os pescadores estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços marítimos, confirma a hipótese de que este sistemático des-respeito atropela as regras tradicionais baseadas no direito consuetudinário e põe em risco a característica fundamental que rege e sustenta todo o universo sociocultural e simbólico dessas populações tradicionais locais: a sua liberdade e autonomia, ou seja, a capacidade de governarem a si próprios. 


Palavras-chave: conhecimento tradicional, territórios pesqueiros, apropriação social do ambiente marinho, direito consuetudinário caiçara.



[1] Além das palavras estrangeiras, utilizar-se-á também o itálico para destacar as expressões especiais do vocabulário técnico tradicional caiçara local. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CONVITE DEFESA: A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta.

Prezados amigos, convido todos que tiverem interesse em assistir a defesa da dissertação de mestrado cujo resumo segue abaixo. Será dia 15 de setembro próximo, as 10 horas no NUPAUB - USP.
Comissão Julgadora:
Prof. Dr. Antonio Carlos Sant'Ana Diegues, NUPAUB/USP, Orientador e Presidente da Comissão; 
Prof. Dr. Alexander Turra, IO/USP;
Profa. Dra. Cristiana Simão Seixas, UNICAMP;
Profa. Dra. Sueli Angelo Furlan, PROCAM/IEE/USP.

RESUMO
NÉMETH, Peter Santos. A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta: a interdição dos territórios pesqueiros ancestrais e a reprodução sociocultural local. 2016. 243 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental) – Programa dePós-Graduação em Ciência Ambiental – Instituto de Energia e Ambiente daUniversidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

 O presente estudo busca analisar os saberes e “técnicas patrimoniais” (DIEGUES, 2008: p.63) utilizadas pela população dos pescadores caiçaras que atuam na região da Ilha Anchieta e Enseada do Flamengo, em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Este corpo cumulativo de habilidades especiais, transmitidas oralmente, compõem o conhecimento tradicional pesqueiro local, patrimônio imaterial sobre o qual fundamentam sua reprodução sociocultural e o manejo de seus pesqueiros[1] tradicionais. Serão abordadas as relações entre a “apropriação social do ambiente marinho” (GEISTDOERFER, 1974; 1982; CORDELL, 1989; 2000; DIEGUES, 2004a) e os conflitos decorrentes do embate entre essa noção ancestral de propriedade por parte dos pescadores artesanais locais e as questões legais do gerenciamento territorial desses pesqueiros pelos órgãos oficiais. Hoje, a disputa pelo domínio sobre esses recursos pesqueiros comuns (seja por órgãos governamentais conservacionistas ou de fomento à pesca, seja pela pressão política da pesca capitalista de escala industrial e da pesca esportiva amadora) cria frágeis mecanismos de regulação do acesso a esses “pesqueiros” (CORDELL, 1974; 1989; GEISTDOERFER, 1982; NIETSCHMANN, 1989) e aos recursos que neles ocorrem, quase sempre excluindo o pequeno pescador artesanal do processo de tomada de decisão e governança. Essa regulação pesqueira, federal ou estadual, feita “de cima para baixo” (LEIVA, 2014: p.138) ignorando deliberadamente as peculiaridades locais e “os processos e mecanismos pelos quais os grupos estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços interessantes” (MALDONADO, 1994: p.35). Este sistemático des-respeito atropela e põe em risco a característica fundamental que rege e sustenta todo o universo sociocultural e simbólico dessas populações tradicionais locais: a sua liberdade e autonomia (CUNHA, 2000: p.108, RAMALHO, 2007: p.36, BRANDÃO, 2015: p.75), ou seja, a capacidade de governarem a si próprios. 

Palavras-chave: conhecimento tradicional, territórios pesqueiros, apropriação social do ambiente marinho, direito consuetudinário caiçara.




[1] Além das palavras estrangeiras, utilizar-se-á também o itálico para destacar as expressões especiais do vocabulário técnico tradicional caiçara local. 

CLIQUE AQUI PARA ACESSAR O TEXTO COMPLETO

Se esqueci de algum nome nos agradecimentos me perdoe pois são mais de 10 anos de amizades para agradecer e eu posso ter me esquecido de alguém durante este longo percurso, obrigado a você também.

Agradecimentos:
Agradeço às minhas famílias, os Both Németh, os Carvalho Santos, os Casalderrey Prochaska. Minha querida Lilian e meu filho Rafael, sempre o porto seguro durante os tempos de mar revolto, amo vocês.
Minha gratidão e reverência a todos os “fogos” caiçaras de norte a sul de Ubatuba, que me adotaram como a um filho, iniciando-me nos segredos da arte pesqueira tradicional.  Em especial à Turma da Enseada, os dos Santos, os Giraud, os Góis, os Graça, os de Oliveira e os de Jesus e aos amigos bravos remadores ubatubanos da AARCCA, rema!
Agradeço em especial ao Prof. Diegues pela imensa generosidade em abrir as portas da academia para um simples “pescador” e também ao Luiz Bargmann Netto, primeiro apoiador do meu trabalho como pesquisador.
Obrigado aos pesquisadores locais, José Ronaldo dos Santos, Julio César Mendes, Mário Ricardo de Oliveira e Élvio de Oliveira Damásio: os “três mosqueteiros” da resistência caiçara ubatubana. Peço bênçãos em nome do Divino Espírito Santo, obrigado Foliões!
Ao povo paulista pela manutenção do NUPAUB/PROCAM/IEE/USP; aos colegas, funcionários e professores que incentivaram a integração de conhecimentos: Sueli Furlan, Adrian Ribaric, Gustavo Moura, Luiz Beduschi, Sílvia Zanirato, Pedro Jacobi, Paulo Sinisgalli, Eduardo Caldas, Alexander Turra, Maria Gasalla, Claudia Santos, Ivan Martins, Caiuá Peres, Henrique Kefalás, Antonio Afonso, Samuel Yang, muito obrigado.
Um imenso obrigado ao MAPA-Ubatuba, Ana Maria Paschoal da Cruz e Paulo Vasco e Fundação Florestal, Lucila Pinsard Vianna e Priscila Saviolo Moreira.
Agradeço aos companheiros dos vários fóruns de discussão dos quais participei no litoral norte: APE, MAPEC, AMESP, Z-10, CMDRP, PEIA, APA Marinha do L.N., PMU, SEAP/MPA, TAMAR, e especialmente aos amigos pesquisadores do Instituto de Pesca de Ubatuba, Sérgio Ostini (in memoriam), Élvio Damásio, Helcio Marques, Valéria Gelli, Ricardo Pereira, Marcelo Alves, Roberto Seckendorff, Venâncio de Azevedo, Laura de Miranda, Marcus Carneiro e Eduardo Sanches. Vocês do “Pesca” são valorosos semeadores de mares e de mentes.
Muito obrigado ao povo brasileiro pela bolsa CAPES de auxílio à pesquisa.













FOTOS DA DEFESA: Prof. Adrian Ribaric.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

QUE TAL SER PROIBIDO DE IR À PRAIA DE FORA?

Que tal ser proibido de ter acesso à Praia de Fora, Praia do Tapiá, Praia do Codóis e também ser proibido de pescar em todos os pesqueiros tradicinais da Ponta do Espia? Estão vendendo os pesqueiros: Praia do Tapiá, Costão Quebrado, Cafarnaum, Praia de Fora, Praia do Codóis, Ponta do Meio, Itapeva, Ponta do espia, Saco do Soldado, Pedrs do Cerco, Saco do Espia, Pedra do Arpoador, Saco da Piteira, Saco Grande, Poço Fundo, Cara Pro Mato, Porto Velho, Porto do Antônio Inácio, Pedra da Cadeira, Porto da Idália, Pedra do Morcego, Figueirinha, Porto da Cruz, Os Cafés, Pedra Rachada, Pedra da Laje, fora os do largo.

Atualizado em 30/01/17: ENTREVISTA COM ADRIANA MATTOSO aqui: http://www.informarubatuba.com/fundacao-florestal-adriana-mattoso

Aqui: 1- http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=34976
2- http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=31708

Aqui: http://canoadepau.blogspot.com.br/2013/10/os-perigos-das-trilhas-de-ubatuba.html

Aqui: http://coisasdecaicara.blogspot.com.br/2013/10/dia-de-andar.html

Aqui: 1- http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br/2014/01/trilhas-e-praias-da-ponta-da-espia.html

2- https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TrilhasEPraiasNaPontaDaEspiaUbatubaSPDez13

Aqui: 1- http://canoadepau.blogspot.com.br/2013/05/cetesb-sim-sim-sim.html
2- http://canoadepau.blogspot.com.br/2013/09/o-infeliz-destino-de-nossos-parques.html

Aqui: http://www.informarubatuba.com/#!gerco-mapa-consenso-ubatuba-conselho/c17mp

Aqui: https://www.facebook.com/AARCCA/posts/1763301877248195

Aqui: http://www.informarubatuba.com/grupo-setorial-mapa-zoneamento-ubatuba

Aqui: https://vejasp.abril.com.br/cidades/predios-dominam-praia-grande-em-ubatuba/

Estão privatizando os espaços públicos, bens comuns de uso do povo que foram "preservados" à custa de muita injustiça socioambiental para com o povo Caiçara.

"O 'meio ambiente' foi bom sabe pra quem? Pros... pros, cara...  que vieram pra explorá Ubatuba, assim, Caraguatatuba, todo o litoral, é os grileiro. Então isso foi bom. Então o 'meio ambiente' ele foi bom, pelos (para os) grileiros que apareceram. Mas pela classe que sempre respeitaram o 'meio ambiente', eles prejudicaram. Que é os pescador... é os antigo... é o roceiro, é o cara que sempre criou o filho com farinha e palmito... entendeu?" 
(Depoimento de pescador Caiçara, sexagenário, local da Ponta do Espia, anotação de campo em julho de 2016)

Foto: Rafael Santiago
Foto: Rafael Santiago


sábado, 7 de maio de 2016

MESTRE ANTONIO PERES da Praia do Lázaro.

Pesquisando já há um bom tempo sobre a Ilha Anchieta, encontrei alguns depoimentos interessantes sobre a Ilha, levantados junto aos pescadores locais em 1974, que integram os relatórios FUMEST para o Plano de Exploração Turística da Ilha Anchieta .
Entre estes depoimentos está o do Sr. Antonio Peres, Mestre pescador da Praia do Lázaro e filho de um espanhol, antigo morador da Ilha Anchieta. Resolvi então reproduzir este valioso depoimento quase desconhecido e também juntar outro que já conhecia feito por Marcos Malta Migliano por volta de 1993.
Também o Seu Peres foi imortalizado pelo ex-Titã Nando Reis, na letra da música Pré Sal: 
Desbarrancar das margens parte o lázaro zinho 
Fitas demarcavam rubras tardes de volley 
O centenário perez caminhava sozinho 
Strombus pugilis de róseos lábios 
Bem banhados pela espuma da areia 
Subir num jacaré no cedro e olhar fortaleza 
Sumiu a ilha do mar virado e junto as certezas 
Ácido dourado a pedra me lagarteia 
Na rede o picaré estrelas do mar no céu 
Desponta a dalva de oliveira
Assim pretendo reunir em um só lugar estas informações tão importantes sobre a história da Ilha Anchieta, narradas por este grande Mestre caiçara que ainda tem um depoimento gravado pela FUNDART, dado ao saudoso Ney Martins em 1996.

Por volta de 1974, o Sr. Peres foi entrevistado pela equipe do Professor José Witter e deu o seguinte depoimento que transcrevo a seguir.

Senhor Peres.
Antigo pescador. Hoje tem um restaurante, na Praia do Lázaro (tem uma série de hotéis - Cr$90,00 casal com café da manhã, a praia é linda).
Não acredita em assombração nem viu nada. Aconselhou a falar com Manoel Lopes que mora no Lázaro e nasceu na ilha, Conta que antes do presídio moravam na ilha 150 famílias. A pessoa interessada em instalar um presídio na ilha entretanto, informou ao governo que só havia uma pessoa. O governo então desapropriou. 
O pai de Manoel Lopes foi reclamar do governo que deu uma indenização aos pescadores. No tempo dos pescadores a ilha era toda plantada. Tinha café, banana e laranja que ainda podem ser encontrados. No meio da mata também, no lado de cima há pedaços de casas de pescadores. A ilha era o melhor lugar de pescaria de Ubatuba. Peres trabalhou muito com rede lá, mesmo no tempo do presídio. Nunca houve proibição para os pescadores lançarem redes na ilha. Tinham porém que dar 30% ou 40% para a alimentação dos presos. 
Antes é que havia fartura de peixes. Qualquer criança com um rolo de cipó arrastado na praia pegava 20 ou 30 pescadinhas. Hoje com a maior rede não se pega meia dúzia.
Tainhas, de julho a agosto pegava-se de 5.000 a 10.000 por dia. No Saco da Ribeira não se contava o que pulava no ar. Este (ano) o Sr. Peres não viu uma tainha. Elas se criam na lagoa dos Patos e são mortas lá. As que se criam, os barcos grandes pescam fora (em alto mar). De corvina, antes se tirava 20 toneladas na rede, hoje não se pega 20 kgs. A pesca de arrastão (de porta e de parelha) mata os peixes. Para 1 tonelada que se aproveita, joga-se fora 5.
No tempo em que o Sr. Peres era pescador, não havia lá geladeira. O peixe era salgado e vendido seco ao sol. 
O governo devia fiscalizar o estrago dos peixes. a fiscalização que existe não funciona. Os fiscais de caça e pesca nem tem uma canoa.

Abaixo a reprodução  integral do texto disponível em: http://www.litoralvirtual.com.br/canoeiro/peres.htm.

História de um pescador
Marcos Malta Migliano
Eu particularmente tive muitos mestres e deles guardo grandes recordações. Sou-lhes profundamente grato pelo pouco que sei. Um deles, Antonio Peres, conheci em 1963, em Ubatuba. Juntamente com Lothar Bamberg, ele me ensinou muitas coisas sobre pesca e mar.

"Seu Peres" nasceu na Praia do Lázaro, em Ubatuba, e é um mito, pois até esta data ninguém sabia informar sua idade. O conheço há mais de 30 anos, durante os quais, seu físico pouco se modificou.
Eu era um moleque e ouvia fascinado as histórias que "Seu Peres" contava sobre suas andanças como pescador. Hoje ele é um próspero comerciante, dono do Hotel Canoeiro e do Restaurante do Peres, que por sinal, são muito bons na Praia do Lázaro.
Na semana santa deste ano fui a Ubatuba e aproveitei para passar pela praia do Lázaro e rever os amigos. Tive e idéia de entrevistar "Seu Peres". Afinal, se aprendi tanto com esse homem, porque não dividir isto com os amigos pescadores. Vamos lá!

"Seu Peres", em que ano o senhor nasceu e onde exatamente?

Nasci aqui no Lázaro em 11 de novembro de 1912. Meu pai nasceu na Ilha Anchieta e era descendente de espanhóis. Minha mãe era negra e nasceu no sertão do Rio Escuro.

Isto explica porque o senhor, embora tenha pele escura, possui traços delicados. Seu avô, espanhol, provavelmente era descendente de algum comerciante ou mesmo pirata... Mas, continuando, como era a vida no Lázaro naquela época?

A vida não era fácil. Pra você imaginar, fósforo era uma coisa rara. Quando tinha, era vendido por unidade. A gente acendia o fogo com laranjeira, em uma vala no chão cercada de três pedras (tacuruba) e, à noite, cobríamos com cinza para não apagar. A isto chamávamos de mãe do fogo. Quando ela apagava pegávamos um tição emprestado do vizinho. Daqui à cidade eram 4 horas de caminhada pela mata. Quando morria alguém, colocávamos o corpo em uma rede e transportávamos até a cidade pela mata. E naquela época havia inúmeros animais selvagens pela mata, onde abundavam onças.

E a pesca, "Seu Peres"?

Quando eu era menino, ninguém pescava por aqui, pois não tinha como conservar o peixe. Nós trocávamos ovos, pinga, pimenta e banana por querosene, sal e sabão. Tanto é que com 15 anos fui para Santos trabalhar num sítio de bananas. Havia um barco chamado "Santense" que, de 8 em 8 dias, fazia ligação com Ubatuba. Eu voltava pra cá a cada 2 ou 3 meses para deixar um dinheiro para a família. Em 1943, por causa da guerra, a exportação de bananas fracassou e a procura por peixe aumentou. Então voltei e comecei a trabalhar com minha primeira canoa, feita de timbaúba. O peixe salgado tinha muito valor na época. Foi ai que comecei a pescar. A gente usava espinhel, mas não existia o náilon. As linhas eram verdadeiras cordas de algodão e para que não apodrecesse, a gente fazia um caldo de arueira e aplicava nas cordas, isso dava uma impermeabilização. A linha "madre" tinha mais de um dedo de espessura, dai saia os "estropos" com os anzóis.

Onde o senhor soltava os espinhéis?

Aqui na frente mesmo, pegávamos inúmeros cações, alguns chegavam a pesar 250 quilos. Às vezes soltávamos no canal do ilhote do sul da Ilha Anchieta. Ali existiam cações enormes. Atrás do Mar Virado, cruz credo! Era soltar o espinhel e perder. Os cações desgraçavam com tudo e, quando sobrava alguma coisa do espinhel encontrávamos cações de 70 quilos cortados pela metade. Nos meses de maio a junho, pescávamos tainha. Pra isso utilizávamos dois "espias".

O que eram "espias"?

À noite saíam duas canoas e ficavam observando as tainhas se aproximarem da praia. Quando elas apareciam, eles davam um sinal e os demais pescadores que pernoitavam na praia, punham logo outras duas canoas com a rede e cercavam o cardume recolhendo-o à praia. Numa daquelas noites, um bando de cações se aproximou e um deles mordeu o fundo da canoa de um dos espias, que começou a fazer água. Ele só se salvou porque o companheiro encostou logo a outra canoa e ele mudou de embarcação. Depois comecei a pescar sardinha na traineira de Pedro Leandro (pescador muito conhecido que faleceu com mais de 90 anos. Com ele tive o prazer de uma vez pescar garoupas). Quando saíamos em busca de sardinha, toda vez que recolhíamos a rede, os cações arrodeavam a traineira e nós lançávamos na água verdadeiras cordas munidas de anzol de 20 cm, com um reforço soldado na curva do anzol para que ele não abrisse, fazíamos um cacho de umas 15 sardinhas e era só soltar na água que o bicho ferrava, depois segurávamos a corda e mais ou menos 8 homens. Pegávamos cações desta maneira de 350 quilos.

Com esta quantidade de tubarões o senhor deve ter visto muitos acidentes.

Não. Nunca vi ninguém mordido ou morto por cação.

Mas como nunca houve nenhum acidente, com essa quantidade de cações grandes, se hoje em dia, com menos peixes temos notícias de vários ataques de tubarão?

Muito simples: os caiçaras da minha geração não sabiam nadar. Nuca entravam na água, nem na praia e por isso mesmo só saíam com tempo muito firme. Hoje em dia o pessoal pula no mar em qualquer altura só para tomar um banho. Isso nunca acontecia naquele tempo.

Fora o cação, qual foi o maior peixe pescado pelo senhor na linhada?

Foi um mero de 150 quilos fisgado aqui mesmo na ponta do Lázaro. Demorei umas 3 horas para tirar e ele arrastou a canoa por mais de 500 metros. Eu perdi um maior na ponta da Enseada. Devia ter uns 300 quilos. O mero é danado: quando percebe que está ferrado, sai como um louco. Se a gente folga um pouco ele fica quase parado no fundo, vai nadando muito devagar.

Depois destas características descritas pelo senhor, aliadas a lembrança de um mero que perdi em Natal, conclui que o peixe - batizado por mim de "coisa" - que perdi na Barra do Pujuca, na Bahia, devia ser um mero de mais de 100 quilos. Mas voltando as suas lembranças, o senhor não gostava muito de pescar de linha?

Eu gostava sim. Muitas vezes ia à noite à Ilha Anchieta e nas Palmas pescar garoupa. Naquela época pegava grandes bitelos. Usava como isca bonito ou sardinha.

Agora o senhor vai me revelar um segredo: durante mais de 20 anos em que faço pescarias por aqui, o senhor sempre acertou o tempo. Lembro-me que eu levantava às 5 horas da manhã para ver como estava o mar e já o encontrava na praia. Então me dizia: "Hoje tudo bem, pode ir". Às vezes, me falava: "Hoje o mar vai virar". Todas as vezes que não ouvi seus conselhos me arrependi. Como o senhor acertava?

("Seu Peres" dá um sorriso amarelo e começa a contar)
Como não sabíamos nadar e nossas embarcações eram meio primitivas, não podíamos correr nenhum risco, por isso observávamos bem os sinais do tempo. Quando as estrelas estão brilhando demais no céu, é sinal que vai "noroestar" (vento forte a noroeste). Quando no nascer do sol ou no por do sol estiver muito vermelho o tempo vai virar. Antes de nascer o sol, se as folhas das árvores tiverem bastante orvalho o tempo será firme. Se elas estiverem secas o tempo vira. Outra prática infalível é observar o Pico do Corcovado (em Ubatuba): se estiver bem limpo, o tempo normalmente é bom; se estiver encoberto, vai chover.

Quando começou a acabar os peixes por aqui?

Depois de 1970 o peixe foi desaparecendo. Em primeiro lugar, acho que foi por causa do excesso de arrasto. Por mais de 15 anos arrastarem dia e noite aqui na baía do Lázaro, matando peixe que vinha reproduzir ou crescer. Depois pelo desrespeito ao defenso na pesca da sardinha. A sardinha é o pasto do mar, se não tiver sardinha os peixes vão procurar alimento em outro lugar. Agora pararam de arrastar porque não tem mais nada. É possível que o peixe volte. Uma coisa que voltou foram as baleias. Durante muitos anos elas vinham aqui na praia do Lázaro. Depois ficaram mais de 20 anos sem dar as caras. Agora, todo ano tem uma visitinha. Não na quantidade que havia 40 anos atrás, mas estão voltando. As tartarugas também estão aparecendo em maior número. Acho que é devido ao Projeto Tamar.

E o senhor ainda pesca?

Profissionalmente e esportivamente. Ainda tenho meu cerco na Anchieta, inclusive no ano passado, entrou uma tintureira de 250 quilos. E as vezes eu saio para apanhar um espada ou uma garoupa na Ponta da Cruz.

Agora revele-nos um último segredo: o que faz para estar assim em plena forma?

("O velho Peres dá uma risadinha, levanta-se, vai buscar uma cerveja gelada e um camarão no bafo. Ao voltar, me diz:)
Conte um pouco das pescarias que você tem feito por ai, em outras terras...

Embora ele dissimulasse bem, eu não me perdi. Quando deu uma folga, chamei o Edinho, um de seus sete filhos, que toma conta dos negócios do pai na Praia do Lázaro, juntamente com os irmãos Carlinhos e Josué, e pedi que me contasse a formula do velho para continuar assim, do mesmo jeito de quando o conheci, há 30 anos. Ele também não fala, mas eu acabei descobrindo: "Seu Peres" não come frituras; peixe, só ensopado; e salada quase a semana toda; carne vermelha no máximo uma vez por semana; bebida, muito pouco; levanta muito cedo; caminha uns 5 km de manhã e outros 5 km à tarde, ai ele entra um pouco na água do mar e nada muito... Só, mar alimentação sadia, caminhadas, enfim, uma perfeita harmonia com a natureza, o que resulta em muita paz. Assim nem dá para perceber o tempo passando. É por isso que ele nunca vai envelhecer.     FIM.

Sobre a Praia do Lázaro, o pesquisador ubatubano, José Ronaldo dos Santos nos dá a seguinte informação em seu blog http://coisasdecaicara.blogspot.com.br: 
Vovó Eugênia, cuja vó viveu como escrava na Praia do Lázaro até quando veio a abolição em 1888, assim dizia
"Meu pai, João da Barra, era dono de um pedaço de terra na Praia do Lázaro, com duas medidas de dez braças de imbé, indo até o morro que vira para o Rio Escuro. Essa terra ainda tá lá, faz limite com a Tia Benedita, mãe do Antônio Peres. Tudo de frente pro mar, no jundu, comprado do padre João Manuel da Conceição. Era nesse chão que se sustentou João Faria, um coitado que aos sessenta anos já vivia numa cama por estar lázaro. Dessa doença vem o nome do lugar". 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ILHA ANCHIETA 110 ANOS ATRÁS

Durante os últimos dois dias me debrucei sobre os três contratos de compra e venda da Ilha dos Porcos, hoje ilha Anchieta, mergulhando exatos 110 anos no passado, tempo da expropriação forçada de 148 pessoas, proprietárias de edificações, terras, plantações, benfeitorias, canaviais, cafezais, pomares e pelo menos 35 coqueiros. Noventa e cinco (95) "vendas" foram concretizadas pelos 92 proprietários de 1 ex-escola do sexo feminino, 2 casas-armazém sendo uma de secos, molhados e fazendas (tecidos), 4 galpões, 2 galpões de canoas, 1 rancho de canoas, totalizando 116 edificações.
Cento e quarenta e cinco (145) pessoas adultas viviam em 7 localidades registradas, com exceção do sul da Ilha, onde proprietário algum foi citado nos contratos.
Muitos sobrenomes familiares pude identificar: Gil, Jardim, Oliveira, Graça, de Jesus, de Goes, Peres, Conceição, Cabral, Barbosa, Marcellino, Lopes, de Souza, dos Santos, entre outros.
Descobri que o marido de Idalina Graça, provavelmente foi expulso do Mato Dentro e confirmei a origem da família Gil, do Mestre Antenor dos Santos como sendo mesmo no Parcelzinho conforme o relato dele. No entanto seu provável avô Daniel Gil foi expulso da Prainha, a mais povoada com 30 edificações, dez vezes mais do que no Parcelzinho, que abrigava apenas uma viúva, um viúvo e uma solteira, cada qual em sua casa de sapé, cujos vestígios o Antenor já me mostrou.
Aproveito para reproduzir um pequeno trecho do livro Terra Tamoia de Idalina Graça onde podemos mesmo "sentir" a Praia da Enseada dos anos 1930.

CAPITULO I
A viagem
Foi ao cair de uma tarde de janeiro de 1930, que deixei para sempre a terra de Brás Cubas pela terra dos tamoios: UBATUBA. Havia uma razão para isso: — meu marido, natural da Ilha Anchieta, sentia profundas saudades de seu torrão e mal se dava na trepidante Santos, porque a sua índole não se casava com o vertiginoso movimento do grande porto paulista. Eu também, filha de Ilhabela, esse paradisíaco rincão do litoral norte, ansiava poder sentir novamente ao meu derredor a misteriosa beleza rústica, e com sabor primitivo das praias, das nossas praias, até o advento do turismo que se assenhoreou de tudo, trazendo o progresso característico da época que atualmente vivemos, mas retirando aquela paz que era própria dos caiçaras simples e sem problemas. Casada apenas há dois anos, vivia somente para o meu marido, que era o pequeno mundo onde me agitava. Carregando os nossos poucos haveres para o convés da lancha "Ubatuba-Santos", línico elo que ligava as duas cidades periodicamente, enfrentei a nova fase de minha existência, desafiando, naquela inesquecível viagem, o mar revolto, bramindo a sua raiva como se desejasse impedir minha chegada à terra que se tornaria meu novo lar. Albino, meu marido, fortemente gripado, mal saía do lugar que escolhera. Eu, em contrapartida, em todos os portos da orla litorânea onde a lancha aproava, descia, vasculhava os arredores com meu olhar, fixando tipos e coisas em minha memória. Pouco se me dava o oceano bravio. Meu coração exultava pelas novidades, pelo encantamento da viagem. Dois dias passaram até chegarmos, bordejando a ilha natal de meu marido, adentrando o boqueirão e encostando na Praia da Enseada, onde transcorreriam os meus primeiros tempos de "ubatubense". Nessa longínqua tarde em que ali desembarcamos, o sol tendia a se esconder entre os montes. Sua luminosidade já levemente rósea, tingia a superfície das ondas de tonalidades belíssimas, cheias de nuanças, enchendo meus olhos e minha alma. Chamou-me à realidade das cousas, a voz de meu marido, que, impaciente pela cansativa viagem, não compreendia o meu entusiasmo pela praia a que acabávamos de aportar: — Como é, Idalina? Você desembarca ou não? Suspirei ao pensar quão errado fora o destino em ter me feito nascer mulher. Como invejei os homens nesse dia! Estava longe de adivinhar que, desde aquele instante até o momento presente, em que escrevo estas reminiscências do passado, teria que assumir uma personalidade masculina. Naquela noite memorável, fizemos camaradagem com milhões de pernilongos, indesejáveis visitantes que só sabem agradar mordendo. Conformei-me, comparando-os aos homens, destinados, na terra, a ferir os seus semelhantes. Porém,, rio dia seguinte tudo esqueci ante o grandioso espetáculo do nascer do sol. Inundava a serra e o mar, e era a sua luz, tão grande a manifestação de Deus na Natureza, que chorei! Logo depois, Albino veio ao meu encontro e ficou consternado ao me ver chorando: — Você está arrependida? — Não, querido! Estou chorando de alegria... — Impossível — disse êle, enquanto me levantava da areia molhada. — Você gosta daqui de verdade? — Sim, Albino! Adoro a vida simples, sem artifícios, onde cada ser humano recebe aquilo que Deus determinou! Aqui o homem é senhor e rei em seu lar! Tudo isto eu lhe disse, apontando o majestoso cenário que ambos contemplávamos naquele instante: — Veja, Albino, os pescadores como riem e cantam ao estenderem suas redes! Ajoelhando-nos na areia úmida, oramos, pedindo ao Pai Todo Poderoso forças suficientes para ganharmos o nosso pão de cada dia, agradecendo ao mesmo tempo, a dádiva de luz e beleza, com a qual fomos presenteados pela Divina Misericórdia naquela manhã de 3 de janeiro de 1930.

CAPITULO II
Início da luta
Depois de instalados, fiz, com meticuloso cuidado, uma investigação pelos arredores de minha casinha. Como era simpática! Pequenina e branca, de janelas azuis, espiava a medo para o mar! Algumas árvores frutíferas completavam o encanto do meu novo lar. Dias depois. Albino abriu uma pequena venda. Ali se reuniam, quando não iam à pesca à noite, os caiçaras, bebendo um trago ou jogando truco; discutiam o tema de todos os dias: — o tempo, o peixe, o vento e, algumas vezes, política, o que me divertia muito. Era a Praia da Enseada, naquele tempo, isolada da cidade, mas, plena de beleza poética. Possuía umas vinte habitações ao todo, de construção pobre, mas, em compensação, ricas de luz e harmonia. Eram os seus habitantes gente simples de costumes sadios e precisos em suas ações. Em breve me fiz amiga de todos êles e, para facilitar a vida, troquei meus trajes femininos por outros, masculinos. Agora sim! — pensei — ia trabalhar, e, com o tempo, também possuiria minhas redes! Foi essa a época mais feliz da minha vida. Da manhã à noite eu lidava com peixes, aprendendo na convivência do homem litorâneo, usufruindo a vida e bem alicerçada na Fé.
Entre os moradores da pitoresca praia, havia um que se sobressaía aos demais pela agudeza de seu espírito, nunca faltando onde a ação exigisse sua presença. Esse pescador é, hoje em dia, homem de negócio na próspera Ubatuba. Já fazia seis meses que, felizes, morávamos no Retiro Azul, pois assim eu batizara o nosso lar. — Como adoro este nosso ranchinho! — dizia eu. — Meu e não seu... — respondia Albino com ar trocista. Você não pára em casa.. . Era uma grande verdade. Apenas despontava a madrugada e os primeiros raios de luz beijavam o mar, já ali me encontrava, extasiada. Despertava de meu encantamento, chamada à realidade da vida pela voz de Albino, reclamando o café da manhã. Êle não se conformava com tão "maus costumes" da minha parte. Ralhava: — Até parece que você casou com o mar e não comigo! — Mas, meu bem — retrucava eu, desapontada em ver os meus devaneios detestados por Albino — eu não tenho culpa de ser assim! Adoro o esplendor deste oceano e a sua imensidão! É um espetáculo que sempre se renova e age poderosamente em mim... Eram apenas rusgas conjugais, logo desfeitas. Hoje vivo da saudade delas e daqueles tempos já tão distantes.
No mês de julho a nossa praia animou-se. Em todos os lares notava-se desusado movimento: caiavam-se as paredes, lavava-se o chão e, o próprio pescador guardava a canoa no rústico galpão, antegozando o que lhe era muito caro: A "Folia do Divino". Estava na Ribeira, cantando na casa do João Glorioso, pescador conhecido, homem bom, de honestidade comprovada em todo o município de Ubatuba. Em nossa casa não havia espaço para receber a ''folia", pois a sala principal tinha sido transformada no negócio de Albino. No dia em que o Divino chegou à Praia da Enseada, fechamos a venda e ambos fomos assistir a festa, na casa de um parente de meu marido, o Gil. Desde a manhã que este não cansava de carregar comidas e bebidas mandadas vir expressamente da cidade, aos cuidados de João Vitório. Sinto-me emocionada ao recordar a expressão feliz que animava aqueles semblantes honestos e cheios de vida, na expectativa ansiosa de receber a Jesus em seus lares (quão santa e pura é a fé do homem do mar!). Lembro-me bem que eu mesma me senti comovida, quando a Bandeira do Divino apontou na estrada, na frente de um cortejo, carregada por uma bonita praiana. Avançava, as fitas esvoaçando ao sopro da viração, lentamente, pois muita gente detinha a jovem no caminho, fazendo-a baixar as fitas para serem beijadas. Muitas delas eram cortadas e enroladas para serem guardadas como amuletos. Esses costumes, quase totalmente desaparecidos, deixam agora somente recordações daqueles tempos, daquela gente simples e boa, que vivia longe dos homens e perto de Deus. Foi para mim, neófita nesses ritos, um espetáculo maravilhoso! Ver naquela gente metida em seus trajes domingueiros, com os olhos fisgados no grupo solene dos violeiros. .. Então, o mais moço deles, um guapo praiano, adiantou-se aos companheiros, inclinou a cabeça sobre a viola e com voz ampla e sonora modulou estes versos singelos:
"O Divino Espírito Santo nesta casa vai entrar;
Êle vos pede pousada e também o que almoçar"
Depois deste improviso foi que o simpático violeiro, acompanhado por todos, entrou nos pagos do Gil. A dona da casa, tendo recebido a Bandeira, carinhosamente levou-a para o interior, cobrindo-a com alva e rendada toalha. Em seguida, veio sentar-se a meu lado e perguntou-me: — É bonito, dona Idalina? — Não, Dita. O que estou vendo é mais do que bonito. É simplesmente maravilhoso! — Olhe, querida! Olhe para a expressão fisionômica destes homens! continuei — Parecem crianças recebendo um brinquedo ardentemente desejado! Por minha vez, senti como um nó na garganta, sem saber definir o porquê desse estado d'alma. Foi então que a voz jovem e bem timbrada do segundo violeiro, cantou os versos seguintes:
"Descansando em vossa casa,
Linda flor de mãe querida,
Pergunto a senhora dona
Onde está nossa comida."
E, depois bem almoçados:
"Espiai pro Espírito Santo,
Lindo colar no pescoço.
Deus ajude com saúde,
Quem nos deu tão bom almoço.
O Divino deu um "viva",
Em toda parte se ouviu.
Peço a Deus que abençoe,
Quem nossa mesa serviu."
Já à noitinha, depois de muita cantoria, vinha o fecho:
"Mais um "viva" se ouviu
Quando se escondia o sol.
Peço a Deus que me dê
Uma cama e um lençol."
Fazia-se tarde e Albino foi despedir-se dos donos da casa, enquanto eu, depois de uma longa volta em torno da casa, e também de levar alguns empurrões, consegui me aproximar do "folião", nome esse que, a meu ver não combina com as suas atribuições, tão a sério êle leva o desempenho do papel de violeiro-cantador. Quis sondar-lhe a alma para descobrir de onde vinha o encanto que emanava da sua poesia. O simpático praiano, ao saber do meu interesse, repetiu-me os versos que garatujei em uma folha de papel, com a promessa, da minha parte, de devolvé-lo no dia seguinte, a fim de que êle o guardasse. — Afinal, Idalina, para que você quer estes versos ? — perguntou Albino; e vendo que eu não respondia, continuou sorrindo: — Será que você pretende cantar folia? Não meu bem! Se Deus quiser, não há de ser preciso você fazer tanta força assim... Mesmo porque — juntou trocista — a escutar o seu canto, prefiro mil vezes o coaxar da rã do brejo... Não respondi. Cantarolando baixinho os versos que escutamos do moço violeiro, sentia ecoar no meu coração a singeleza das rimas, tão de acordo com o ambiente rústico e simples.
Enfim, chegamos à nossa casinha. Albino reassumiu seu posto no balcão, e eu, bem a contragosto, guardei os meus sonhos em uma caixinha para momentos mais apropriados. Ouvi, no decorrer da noite, o som das violas, acompanhando o canto do "folião".
O dia seguinte amanheceu lindo, com o sol amigo. Estávamos ainda no café da manhã, quando Dita entrou em casa correndo. Como era bonita a caiçarinha! Cabelos castanhos e crespos, olhos esverdeados tendendo para o azul. Eu sempre dizia, brincando com ela: — Menina, do quem você é namorada. Do mar ou do céu? E ela dizia: — Dos dois, dona Idalina. E foi a graciosa moça que, com algazarra juvenil, nem deixou o meu marido abrir o armazém, dizendo: — Não dará tempo, "seu" Albino. O folião vai cantar a despedida! Adiantando-nos em louca corrida, partimos as duas para a praia ensolarada, apesar dos veementes protestos de Albino, que vinha mais devagar. Antes de chegarmos esperei-o, e, já agora compenetrada do papel de senhora casada, parei, tomando fôlego. Em seguida abrimos caminho através dos nossos amigos. Assim posso chamá-los, pois na realidade, sem exceção, eram todos bons e carinhosos para nós. A "Folia" já estava de saída. Sorridente, o jovem cantor adiantou-se e gentilmente pediu licença a meu marido para oferecer-me os primeiros versos da despedida. Concedida a licença, o mesmo levantou a voz e cantou:
"Dizem que mulher de fora
 Jamais gosta do lugar
 Mas esta dona tem cara
 De quem aqui vai ficar.
 Mercê veja se acostuma
 E desde já vá criando,
 Pato, galinha e ganso,
 Que para o ano voltamos.
 A esmola que vós destes.
 Lá na Glória chegou:
 Os anjinhos receberam.
 Nossa Senhora guardou.
 O Divino foi prá Glória,
 Foi buscar a boa sorte
 Pra casa onde almoçou."
Vi-os partirem com saudade. Foram momentos felizes esses que vivi, nos primeiros dias da minha chegada à Enseada. Mais de trinta anos são passados. Porém, em minha alma, ainda mora a recordação viva da festa do Divino, que eu vira pela primeira vez. É o passado ainda perfeito, trinta e poucos anos depois, que fala nas páginas deste livro. É também uma homenagem aos meus amigos de então, que habitavam a Praia da Enseada. Uma vez por outra, tangida pela saudade, eu procurava recordar os versos, tão simples em seus dizeres e tão belos na voz de um filho daquelas praias.
Folia Do Divino na Enseada, foto: Cristina Prochaska - 2015.
Escritura de compra e venda da Ilha Anchieta, foto Peter Németh.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

CADERNO DE CAMPO - PRIMEIRAS LIÇÕES.

Essa é da série Cadernos de Campo.
Minha primeira aula de pesca tradicional, como o João Batista e o Marquinho a bordo do Arcanjo Miguel numa segunda-feira "de carnaval", 15 anos atrás. Que sorte ter anotado com tantos detalhes.
Local: Ilhote de Sul.
Isca: Lula e cocoroca pescadas no local.
Equipamento: Garatéia de espada e linhada de mão.
H2O: Água ao sul.
Hora: Entardecer até a noitinha.

O segredo para um diário de campo é usar o lápis (ou caneta com tinta à prova d'água) e a liberdade, ou seja, observar e anotar não só aspectos relevantes ao objeto de estudo, mas também os que possam vir a ter alguma relevância algum dia, ou ainda os que realmente são irrelevantes, mas que por algum motivo chamam a atenção do pesquisador. É interessante notar como a anotação de situações simples e aparentemente irrelevantes, passam a ser casos ilustrativos de observações, às vezes sistemáticas, realizadas ao longo do estudo. Os diários, sem dúvida, possibilitam o retorno mental ao campo, exercendo por pequenos detalhes o estímulo à memória, quase como se realizássemos outra viagem. São formas de reviver as pesquisas de campo, não só em seus aspectos humanos, mas também em muitos outros, tais como os biológicos e ecológicos. Outra característica que resguarda estes conhecimentos é a persistência. Sem ela nenhum trabalho de campo teria continuidade. Bastaria uma noite mal dormida, um tempo ruim, uma resposta lacônica de um pesquisado ou algumas picadas de mosquito e toda a seqüência do trabalho estaria comprometida. Os diários contam os detalhes da relação entre o pesquisador(a) e a comunidade, seja nas diferenças ou ainda nas expectativas criadas entre um e outro. São ensinamentos sobre as interações entre diferentes indivíduos e culturas, sobre suas semelhanças e sobre suas perspectivas. Estar e viver num mesmo país mas em contextos diferentes, tanto ambientais quanto econômicos e culturais, proporciona aprendizados recíprocos, que só ocorrem através da integração da comunidade e do pesquisador. (CAMARGO e BEGOSSI: 2006: p.12-13)

Camargo, E.; Begossi, A. (2006) Os diários de campo da Ilha dos Búzios. São Paulo: Ed. Hucitec.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

OS ÚLTIMOS MESTRES CAIÇARAS

Em todos esses anos em que compartilhei saberes com as comunidades Caiçaras por onde passei, algo que me pareceu mais evidente em quase todos esses lugares foi a descontinuidade da transmissão da cultura Caiçara entre gerações. É óbvio que a cultura não é algo estático, ela vai incorporando elementos através do tempo e se modificando. No entanto, principalmente nas comunidades mais próximas do centro urbano, o grau de influência de elementos culturais alienígenas (música, televisão, internet, modo de falar) são tão absurdamente gritantes a ponto de não ser mais possível reconhecer um neto de Caiçara pelo seu sotaque ou linguajar característico.
Acredito ser o modo de falar Caiçara uma das características mais marcantes desta cultura praiana, e é justamente este aspecto o mais ameaçado. Hoje expressões vindas de fora como "meu", "véio", "tá ligado" domina o linguajar dos jovens Caiçaras.
Outro conhecimento muito importante que está sumindo é aquele referente aos pesqueiros.
Pra quem não sabe, cada pedra de costeira tem um nome próprio que designa aquele local específico onde é bom de pescar. É como se fosse um endereço completo, que através do nome, mentalmente o pescador localiza o lugar, o tipo de peixe que lá existe e qual o equipamento de pesca ideal a ser usado.
Esse sistema de marcação ocorre em toda a costeira do litoral, e é través dele que os pescadores organizam suas pescarias para que uma rede não atrapalhe a do outro, são as regras do respeito.
Durante minhas pesquisas identifiquei dezenas de nomes, principalmente na região da Praia da Enseada, que é onde mais pesquei. Mas em todas as costeiras de todas as comunidades esse sistema antigo existe, ainda que restrito a alguns poucos Mestres Caiçaras.
Seu Dito Pú, na Picinguaba, me ensinando alguns pesqueiros. 

Por exemplo se eu falar em "Cana do Elpídio" ou "Furado", o Seu Dito Pú lá da picinguaba, vai saber onde fica; se falar em "Pedra do Cabrito" o Seu Gino da Barra-Seca me dirá onde é; se perguntar da "Mesa Pobre" e da "Piteira", o Antenor da Enseada ou o Tião Giraud vão saber me explicar que o primeiro é na Ilha Anchieta e o segundo fica na Enseada. E assim será em cada comunidade Caiçara.
Junto com cada pesqueiro desse, também existem dezenas de histórias referentes a pescarias bem ou mal sucedidas, peixes enormes que escaparam, "causos" de assombração, que geralmente são lembrados e recontados quando os pescadores visitam esses locais. É muito importante portanto preservar a manutenção desse método de transmissão cultural, garantindo o acesso desses pescadores a esses territórios pesqueiros ancestrais, pois é através deles que se garante a transmissão sociocultural e simbólica da Cultura Caiçara local. Infelizmente restam poucos Mestres Caiçaras para nos transmitir esse saber antigo, e menos interesse ainda dos mais jovens em aprender.
Mestre Antenor dos Santos, na "Itapeva". Meu maior professor, ensinando a mais um aprendiz seus segredos. A sua bença Antenor!  
    

domingo, 25 de novembro de 2012

ENSEADA DO FLAMENGO - ENSEADA DOS TUBARÕES

Mergulhando a fundo nos documentos referentes a região da Praia da Enseada e Ilha Anchieta, encontrei vários registros de terras datados da segunda metade do século 19.
Estas escrituras de terras denominam a localidade como "Enseada dos Tubarões".

Estes documentos podem comprovar que as antigas "histórias de pescador" que narram encontros titânicos com enormes cações na região da atual Enseada do Flamengo e Ilha Anchieta eram 100% verdadeiras. Relatos de canoas abocanhadas, pescadores desaparecidos e também de presos "vigiados" e impedidos de escapar à nado do presídio da Ilha Anchieta pela grande quantidade de tubarões no canal do Boqueirão, podem refletir nada mais que a realidade.
Estes encontros eram tão frequentes que até existiam técnicas especiais para escapar de um ataque das temidas tintureiras, anequins ou galhas pretas, espécies mais agressivas.
Estas técnicas incluíam a cor da pintura do fundo da canoa; o ouvido atento ao "choro de bebê" carcterístico de um ataque eminente, após o qual todos se deitavam em absoluto silêncio no fundo da canoa; e a técnica de abandonar o banco da canoa juntamente com os restos de isca e sair remando muito silenciosamente.

Neste mesmo período, por volta de 1856, relatos de navegadores ingleses já utilizavam dupla denominação para nossa Enseada, um dos quais traduzo: " Mais abaixo para o oeste está a Ilha dos Porcos entre a qual e o continente encontra-se um confortável ancoradouro chamado Baía dos Flamengos, de outro modo chamada Shark's Bay."

No entanto outro livro de 1820 chamado "Memorias Historicas do Rio de Janeiro" registra: "Defronte da ilha (Anchieta) está a Enseiada dos Tubaroens, boa, limpa e capaz de navios grandes".

Uma coicidência, é o fato de que o nome antigo da cidade de Ubatuba era Iperuig, que significa em tupi: água dos tubarões (iperu=tubarão, y=água/rio).
Abaixo uma foto da Praia da Enseada em 1950, mostra como podem ter sido um dia estas águas qualhadas de tubarões.
foto: Família Prochaska.
ATUALIZAÇÃO EM 4 DE MARÇO DE 2019:
No ano de 2015, colhendo relatos dos pescadores locais para o meu mestrado entrevistei o Mestre Tião Lourenço pouco tempo antes dele falecer e registrei este maravilhoso recorte do Tempo Antigo
Nos contam os caiçaras da Praia da Enseada que, de primeiro, no tempo dos antigos, ainda existiam grandes peixes capazes de “comer gente”:
Olha, eu ainda consegui vê muito cação ali né... Naquele tempo... que nem, pra gente tomá banho, precisava o pai da gente ir olhá a gente tomá banho né, por causa de cação ou mero... [...] As vez a gente ia espalhá cana lá no morro (do Porto Velho), a gente via o cação passando assim, com a água clara assim (faz gesto), você via ele assim rente à costeira... andando (nadando)... botava até a galha pra fora né... Aquele anequim do branco então... aquele cardume assim, atrás do outro assim, 4, 5 que você via né... Esse anequim azul passava, as vez a turma largava a rede, rasgava tudo a rede da turma... Então o pessoal tinha até medo né, de saí de canoa, saía com medo porque, é... Que nem a tintureira (tipo de cação) memo, a tintureira tinha cada uma (grande porte) que você via passando aí... E ela (a tintureira) ficava “de pé” debaixo da canoa gemendo... Ah ela geme... ela faz hummmm, hummmm... Daí o cara ficava quietinho assim... pra remá assim... quietinho, quietinho pra podê chegá no porto. (OLIVEIRA FILHO, 2015, comunicação pessoal)