João Batista, o "Ico" é filho do João Paru e da Dona Antônia. Nascido e criado na costeira do Morro do Espia no cantinho leste da Praia da Enseada em Ubatuba. Na Ponta do Espia o pai dele tinha roça e ele cresceu cuidando da roça e pescando com o pai e os irmãos.
João Batista, o Ico (12) 9 9151- 6633. Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada.
Aliás a Turma do Paru sempre trabalhou muito forte junta.
Hoje o Ico também trabalha na sua fazenda marinha cultivando mexilhões Perna perna tambémconhecido como marisco de pedra.
Ele é o maior produtor da Praia da Enseada e cultiva artesanalmente com a ajuda da esposa que também ajuda nas vendas na pequena peixaria que montaram em casa.
São 5 produtores na Enseada e os cultivos ficam bem longe da areia da praia, na costeira do Morro do Espia, garantindo mais qualidade aos mariscos.
Depois de recolher as "cordas de marisco" ele pacientemente debulha e lava as conchas uma por uma até que fiquem prontas para irem pra a panela.
O Ico aprendeu a trabalhar com cultivo de marisco desde os anos 1980 quando a Enseada possuía uma grande fazenda marinha conduzida pelo Dino Garnier que chegou a produzir 150 toneladas de mexilhões por ano.
Aliás a Enseada tem uma tradição em cultivo de mexilhão desde o ano de 1968, quando o Sr. Enrique Casalderrey e o Sr. Roberto Prochaska fizeram a primeira balsa de cultivo de mexilhões, inspirada nas famosas bateas galegas de Villa Garcia de Arosa, na Espanha, terra natal do Sr. Enrique cujo pai presidiu a associação de produtores de mexilhão local. Mas isso é tema para outra história que estou documentando para uma publicação futura.
Enrique Casalderrey e (provavelmente) a primeira balsa do Brasil. Foto: Roberto Prochaska.
Sr, Roberto Prochaska com a balsa produzindo na Ilha Anchieta. Foto Roberto Prochaska
Batea de Villa Garcia de Arosa. Foto: Arquivo pessoal de Enrique Casalderrey.
Produtores de Villa Garcia de Arosa, Galicia, Espanha: Foto: Arquivo pessoal de Enrique Casalderrey
Pra quem quiser comprar mexilhões de cultivo artesanal pode ligar para o João no telefone: (12) 9 9151- 6633 e encomendar mariscos vivos, direto do produtor. Os mais frescos possível, pois são colhidos e vendidos no mesmo dia.
Essas fotos foi ele mesmo quem tirou dia 21 de janeiro de 2019 durante uma manhã de trabalho:
Não é de hoje que os pequenos pescadores artesanais, aqueles que pescam em canoas a remo seja com linhada de mão ou tresmalhos, sofrem com a pressão exercida pelos detentores de poder econômico.
Primeiro foram as grandes empresas de pesca que gradativamente foram devastando os recursos costeiros em benefício de seus proprietários, fenômeno conhecido como "depleção serial de estoques". Assim, acabaram com a sardinha, com o cação, com as vieiras zic-zac (aquela da casquinha de siri), com o pargo, e mais recentemente com o polvo, com a corvina e com a tainha, que sempre foi um recurso de importância sociocultural para os pescadores de canoa.
Com todo este declínio, surgiu 15 anos atrás uma alternativa para estes pescadores tradicionais, a maricultura artesanal de mexilhões Perna perna. Esta atividade genuinamente sustentável garantiu uma outra alternativa de renda para as comunidades sem degradar o ambiente marinho, pelo contrário, os cultivos passaram a ser berçários de vida marinha das mais diferentes e variadas espécies.
Hoje outros tipos de ameaça surgem no horizonte sob o rótulo de sustentáveis, mas que na verdade são altamente impactantes e prejudiciais ao ambiente marinho pois necessitam de alimentação através do uso de ração. É o caso das fazendas de engorda de peixes marinhos carnívoros. Nesse tipo de fazenda marinha, 80% do custo de produção vem da ração para alimentar os alevinos, e por sua vez esta ração é feita com pequenos peixes sem valor comercial provenientes da pesca de arrasto. Agora em julho, estive em Ubatuba e alguns pescadores locais me alertaram que já existem comerciantes comprando dos arrastões de porta TUDO que eles conseguirem arrastar. Só é retirado o lixo e as folhas, o resto, ou seja, os peixinhos miúdos, os camarõezinhos, são comprados por estes atravessadores.
Não posso dizer com certeza o destino desse material, apenas suspeito que o interesse se deve apenas ao valor proteico dessa massa de organismos marinhos compostas por pescados "sem valor comercial".
Me preocupa demais a recente instalação no Litoral Norte de São Paulo de grandes fazendas de psicultura marinha de espécies carnívoras de baixas taxas de conversão para as condições locais. Na minha opinião, estas fazendas vão demandar enormes quantidades de ração feitas com os pequenos peixes locais e podem criar um impacto sem precedentes no que restou de vida marinha na região. Seria o aniquilamento total, o golpe de misericórdia, a etapa final da já citada "depleção serial de estoques" que iniciou com os grandes exemplares como o mero, o cação e vai exterminar com os peixinhos miúdos. Estes peixinhos miúdos, chamados pelos pescadores tradicionais de "comedio" são a base da cadeia trófica e atraem os peixes maiores para perto da costa permitindo que os pequenos pescadores consigam capturá-los em suas canoas a remo. O fundo do mar constantemente revolvido e raspado torna-se um deserto de vida, assim como uma trilha na mata permanece sem vegetação de tanto caminhar-se sobre ela, desse modo vimos nas últimas décadas declinar a captura de espécies comerciais pela pequena pesca.
Sem os peixes naturais do local, extinguem-se os pescadores tradicionais e surge o mercado para os peixes carnívoros de cultivo intensivo que visam apenas o cego lucro que vai concentrar-se na mão de poucos proprietários capitalistas as custas de mais e mais degradação ambiental.
Outro fator preocupante é que qualquer cultivo intensivo de peixes em grande escala é extremamente favorável ao aparecimento de doenças que não ocorrem na natureza e que podem se espalhar para os peixes selvagens.
Enfim, estou extremamente preocupado com o destino da maricultura sustentável, que é o caso do cultivo de moluscos filtradores que não necessitam de ração, como os mexilhões, as vieiras, as ostras e também de plantas como as algas. A pressão econômica e política será gigantesca em favor dos grandes empreendimentos que se apropriaram da palavra sustentável, palavra que perdeu seu real significado e tornou-se uma ferramenta a mais de marketing para a exploração capitalista destruidora da natureza e das populações que sempre viveram em comunhão com o ambiente natural em perfeita simbiose.