terça-feira, 28 de janeiro de 2014

MARISCADA

E na Praia da Enseada, os cultivos marinhos artesanais de mexilhão estão movimentando pouco a pouco a economia dos pescadores locais.
foto: Peter S. Németh
A diferença está no cuidado que os produtores têm na escolha e manipulação dos mariscos.
O mexilhão é um alimento especial. Uma mariscada por mais simples que tenha sido preparada (apenas cozida em água doce) é um prato delicioso.
É claro que, sempre que possível, um fiozinho de azeite, bastante salsinha picada, e uma cebola batidinha, dão um toque a mais nessa delícia.
Quando o panelão chega fumegante à mesa, não há quem resista. Os mais apressadinhos queimam os dedos, a língua, mas mesmo assim continuam a comer. Os mais cautelosos esperam um bocadinho e escolhem com cuidado o macho ou a fêmea pra comer. Aí começam as brincadeiras: "Qual é mais gostoso o macho ou a fêmea?", "Quero ver descobrir a diferença de olho fechado!", e por aí vai.
O mais interessante é que na verdade o que se come no mexilhão são suas ovas. Sim, aquilo que no macho é esbranquiçado e na fêmea é alaranjado, são as gônadas cheias de ovas. E essas ovas são riquíssimas em glicogênio. Por causa disso o apelido de "Viagra natural" que o mexilhão tem.
Outra curiosidade é que devido ao estresse que o marisco sofre, seja por ondas fortes, raios e trovões muito próximos, mudança brusca de temperatura ou salinidade da água, eles desovam todos juntos. Então o marisco fica "magro" como diz o Caiçara, ou seja suas gônadas ficam vazias e ao cozinhar ele fica miúdo.
A Mariscada é uma experiência gastronômica diferenciada que agrega a família. Quem dera mais pessoas apreciassem essa delícia, deixando de lado o preconceito e ao menos provando essa iguaria tipica Caiçara.
foto: Peter S. Németh


domingo, 26 de janeiro de 2014

O QUINHÃO - A REPARTIÇÃO DOS PEIXES

A divisão em partes, ou quinhão, é uma instituição Caiçara tradicionalíssima.
Em 1947, Carlos Borges Schmidt escreveu em Alguns Aspectos da Pesca no Litoral Paulista:
"Recolhido e amontoado o peixe no enxuto. arrastada a rede em sêco antes que se cuide de outra coisa, tem lugar a repartição. Os sócios do trabalho receberão agora, cada um a sua paga. Do peixe todo amontoado, retira-se o terço. este pertence ao dono da rede. (...) Os dois terços restantes pertencem aos camaradas, aos ajudantes e ao espia. Os primeiros têm direito a um quinhão, os ajudantes a meio quinhão e por fim, o espia a pagamento dobrado: dois quinhões. À responsabilidade maior, ao trabalho mais prolongado ( O espia persegue o cardume durante noite e dia até que ele fique ao alcance das redes. Nota minha.), à capacidade profissional mais desenvolvida - a paga justa e merecida. Formam, os que trabalharam, um círculo ao redor do peixe amontoado e que vai ser repartido. Nada de cálculos matemáticos: a repartição é mecânica. ( Nesse caso, a pesca da tainha, trata-se de apenas uma qualidade de peixe pescado. Nota minha.) O redeiro vai distribuí-lo, peixe por peixe, de um em um, ou em maior número de cada vez, tal seja a proporção da colheita."  

Gioconda Mussolini por volta de 1950 também aborda o tema em Ensaios de Antropologia Indígena e Caiçara, sobre a pesca da tainha:
Para iniciar-se a divisão, trata-se primeiro de separar o terço. (...) Do monte maior sairá o "quinhão" dos que trabalharam, quinhão variável segundo o vulto da pescaria e o número de participantes. Para isso, se não há muito peixe, a tarefa é fácil: dispõe-se os camaradas em círculo ao redor e aos seus pés vai sendo lançado, um por um, até perfazer a roda toda, (...)  
No caso do vídeo acima, a pesca efetuada foi a do cerco flutuante, e as várias espécies diferentes que foram capturadas são divididas entre os quatro camaradas. Assim, o pescador mais antigo divide o peixe levando em conta sofisticadas graduações de valor relativas a qualidade do peixe, estado físico e equivalência. Por exemplo uma anchovinha vale menos que uma cavala "podre" (diz-se de podre, um peixe com a guelra esbranquiçada), e esse valor menor é compensado por um vermelho grande.
foto: Peter Santos Németh - Praia da Enseada
Já os galos, que são apenas dois, vão para os donos do cerco flutuante, e a miuçalha e os peixes roídos podem ser doados.
O quinhão é uma legítima instituição Caiçara que perdura até os dias de hoje, levando-nos a uma reflexão profunda sobre o valor e a organização social do trabalho em casos onde o dinheiro pode ser dispensado.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

UBATUBA: EX-TÂNCIA BALNEÁRIA

Esse verão de 2014 poderá ser lembrado no futuro de duas formas distintas:
2014 - O verão em que Ubatuba se deixou afundar de vez em merda humana; ou,
2014 - O verão em que Ubatuba iniciou a retomada de sua principal riqueza, o mar.
Até quando esperar para tomar as atitudes tão necessárias?
A situação beira a calamidade pública, e os danos aos banhistas desavisados dão enormes prejuízos ao sistema público de saúde.
Os impactos à fauna marinha também são extremamente danosos tanto aos ecossistemas costeiros quanto aos pescadores que vivem dele.
Ubatuba, que ostenta o título de Estância Balneária, depende basicamente da BALNEABILIDADE  de suas praias para atrair o turismo que é seu principal vetor econômico.
Hoje, com a facilidade de acesso das redes sociais, pipocam em todo canto denúncias de esgotos a céu aberto por toda as praias e bairros. Falando em português claro: merda pura escorrendo pelas ruas e prais em direção ao mar.
Esse vídeo postado acima, em apenas 48 horas atingiu duas mil visualizações. Esse fato talvez reflita a indignação da sociedade local e usuários das praias de Ubatuba com a falta de cuidado com o saneamento litorâneo e a farsa propalada aos quatro ventos em campanhas publicitárias mentirosas das empresas de coleta e tratamento de esgoto. Chega de mentiras, as imagens da internet refletem apenas a pura verdade!
Denúncia Praia do Matarazzo
Denúncia Córrego Água Branca
Denúncia Enseada
Denúncia Lázaro
Denúncia Rua Santa Cruz
Denúncia Rio Acaraú
Notícia esgoto Surfcam
Notícia esgoto G1
Notícia esgoto O Vale
Um conjunto de fatores contribui para o agravamento dessa situação:
1- A verticalização irresponsável e irregular que avança pelas Toninhas, Enseada, Lázaro e Saco da Ribeira;
2- Uma rede coletora que atende menos de 10% da área total de Ubatuba, não só da cidade, toda Ubatuba;
3- Emissários submarinos defasados, que operam irregulares a mais de 30 anos, com a conivência dos órgãos ambientais de fiscalização;
4- Residências que despejam água de chuva na rede de coleta de esgoto;
5- Falta de vontade política em um investimento sério em saneamento;
6- Propaganda mentirosa e enganosa dos órgãos de tratamento de esgoto, que por serem empresas de capital público-privado, visam apenas o lucro a qualquer custo para seus acionistas.
CHEGA! CHEGA! CHEGA!
Ou tomamos atitudes de mudança imediata ou nosso futuro será afundarmos na merda até o pescoço!
foto: JCM

domingo, 12 de janeiro de 2014

A CANOA CAIÇARA, O PESCADOR E O TURISTA.

Que pescaria linda a do Ascendino!
Com seu tresmalho de costeira, largado no lugar e horário certo, ele matou santola, piragica, cação leitoinha e até lagosta. 

Pescaria boa assim é sorte grande pro Caiçara, ainda mais em plena temporada, época em que a Canoa puxada no "lagamar" atrai o turista que nem o bonito "ardido" atrai a garoupa.
A turistada sempre começa com a pergunta clássica: "Que peixe é esse?", depois: "Olha filho o peixinho." Aí é hora do pescador "pescar" o turista, respondendo: "Esse é o cação leitoinha, muito gostoso frito." "A piragica tem um gosto mais forte mas dá um caldo que é uma beleza, um viagra natural." E assim vai, fala daqui, ensina dali até que dá o preço e o turista pergunta: "O senhor limpa?", pronto fisgou: "Limpo sim, deixo prontinho pra fritar."



Eu vendi muito peixe na praia, em cima de um banco de Canoa, igual a essa do Ascendino.
Foi um tempo muito bacana da minha vida, vivi e sobrevivi do mar, senti a alegria gloriosa de depender apenas do meu conhecimento, da minha rede e da minha Canoa, movidos pela vontade e pela força do meu remo. Vender meu peixe na beira da praia e com esse dinheiro comprar minhas coisinhas, ser livre e autônomo.
Escolher ainda com o raiar do dia o peixe que ia fritar e comer com farinha e café bem doce no meu desejum, e assim começar o dia cheio de energia do peixe "batendo a boca" mais fresco que pode existir.
Eu sempre digo que se alguém quer encontrar peixe fresco de verdade tem que conhecer a história do peixe: quem pescou, onde, como, então quando for comer o peixe toda essa história vai junto, alimentando não só o corpo mas também o espírito que fica um pouco mais enriquecido de saber.
Da próxima vez que for a uma praia procure bem cedinho uma Canoa Caiçara puxada na beira do mar, ali tem muito a se aprender.

fotos: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, dezembro de 2013.


sábado, 11 de janeiro de 2014

JOSÉ RONALDO E AS COISAS DE CAIÇARA

Dois dias antes do Natal de 2013 finalmente conheci pessoalmente o José Ronaldo dos Santos.
Esse grande Caiçara ubatubano, historiador, cronista, mestre, artista, é um dos expoentes entre os poucos guardiões da cultura tradicional local.  
José Ronaldo reúne essas cronicas repletas de elementos do universo cultural Caiçara em seu blog Coisas de Caiçara, um verdadeiro tesouro pra quem pesquisa o tema.
Sua arte também transborda em escultura, artesanato e xilogravuras que retratam temas do cotidiano Caiçara e suas lendas.


Outra raridade vista foi o exemplar original do Léxico do Falar Caiçara do Ubatumirim.
 Na parede de sua varanda telhas coloniais verdadeiras, daquelas feitas nas coxas dos escravos, ganham relevos e cores retratando o cotidiano local. Bainhas de palmeira, as totoas, ganham recortes, se transformando em rostos e pássaros, e papel reutilizado se transforma em balaiozinhos tradicionais.


No quintal uma parede inteira com orquídeas e pelo chão coentro de folha larga, arnica e outros remédios, um típico quintal Caiçara que me lembrou o quintal da minha avó Helena, que também colecionava orquídeas e ervas.
Foi uma manhã agradabilíssima, muito proveitosa, e ser convidado para um cafezinho foi uma honra para esse "turista" aqui, aprendiz de Caiçara.
Terminei a visita presenteando meu anfitrião com um exemplar do Glossário Caiçara de Ubatuba, livreto esse, minha tentativa simples e mal feita de registrar um pedacinho dessa maravilhosa Cultura Caiçara.
Peço desculpas ao José Ronaldo pelos vários erros que o livretinho deve conter, estou ávido por correções, a primeira delas seria incluir nos agradecimentos: José Ronaldo dos Santos, Julio César Mendes, Mário Gato e tantos outros valorosos Caiçaras que só vim a conhecer recentemente. 
Zé Ronaldo, muito obrigado, e continue firme no seu resgate das Coisas de Caiçara.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

3a Corrida de Canoas "Amigo Pescador" Projeto Tamar

Muito já ouvi sobre as corridas de Canoas Caiçaras acontecidas na década de 1960 na Praia da Enseada em Ubatuba.
Me contaram que o "circuito" saía defronte ao Porto do Eduardinho, dava a volta na Lage Grande e voltava, coisa de um par de quilômetros só para canoas de pescador legítimas.
Fim de semana passado aconteceu na Enseada de Ubatuba uma bela reedição desses tempos áureos das Corridas de Canoas.
Promovida pelo Tamar, a Corrida de Canoas Amigo Pescador reeditou a categoria 4 Remos num circuito pra lá de profissional, com 9 Km de extensão.
A prova que esses percursos longos são muito valorizados pelos pescadores locais foi a participação de Mestres Caiçaras como o Seu Gino (70 anos!), Elias e Dionísio mostrando que quando a distância aumenta vale mais a experiência do que a força.
Saindo dos Ranchos do Itaguá, passando pelo Cais do Magalhães, depois uma reta do Caisão até a marisqueira do Seu Gino e voltando aos ranchos, coisa pra Pescador com "H" maiúsculo!

Seu Gino na Proa, seguido pelo neto Helbert, o primo Nelsinho e o filho Nélio na popa.

Valeu rapaziada! parabéns!

Todas as fotos são de Fernando Alvarenga e Fabio Haguihara do Projeto Tamar, facebook álbum de Henrique Becker.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A FUNDART de Ubatuba amplia o acervo sobre a Canoa Caiçara.

fonte: Fundart - http://fundart.com.br/contribua-com-campanha-pelo-registro-da-canoa-caicara/

Contribua com a Campanha pelo Registro da Canoa Caiçara

A Canoa Caiçara, bem cultural imaterial brasileiro, em processo de registro no IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, conta com a colaboração da população no inventário oficial.

O requerimento de registro da Canoa Caiçara como bem cultural imaterial brasileiro foi encaminhado para o IPHAN em 2012, pela Associação de Pescadores da Enseada de Ubatuba. Em abril de 2013, o Conselho Consultivo do IPHAN iniciou uma campanha junto aos órgãos competentes pelos processos e práticas culturais referentes à Canoa Caiçara dentro de seu território cultural.

A Campanha que localizará, identificará e mapeará semelhanças e técnicas construtivas dos Mestres Canoeiros com o objetivo de preparar o processo de registro em todo o litoral sul fluminense, paulista e norte paranaense, agora conta com você que possui imagens ou textos antigos que possam colaborar com o documento oficial.

A FundArt reuniu toda a sua documentação – fotos e registros oficiais na cidade de Ubatuba, inclusive o “Livro de Ouro” da Canoa Maria Comprida em sua viagem a Santos em 1973 para compor o inventário.

Interessados em colaborar poderão entregar uma cópia do material até o dia 13 de dezembro, próxima sexta-feira, na seda FundArt – Praça Nóbrega, 54 – Centro, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Telefone: (12) 3833-7000.

foto: Élvio Damásio - Ubatumirim