Este verão tem sido muito intenso em Ubatuba, o calor está beirando o insuportável, a Praia da Enseada esteve lotada como há pelo menos uns 10 anos não vejo e o mar é (ou seria) uma ótima opção para relaxar e refrescar. Seria...
Como já denunciei várias vezes aqui (2018/01/deu-merda-no-emissario-da-enseada) nada continua sendo feito com o esgoto da Enseada, absolutamente nada.
Pior do que isso, é que mesmo denunciando, avisando pessoalmente os banhistas in loco, este verão o pior aconteceu. Parentes e conhecidos da praia que possuem residência próximas ao vazamento adquiriram infecções de pele que evoluíram gravemente. Completando essa situação, a procura por atendimento médico em Ubatuba é um verdadeiro caos. Atravessar a Praia Grande, dependendo do horário, pode levar até 2 horas, e conseguir ser atendido na Santa Casa pode demorar outras 2. Os Postinhos da Maranduba e Saco da Ribeira ajudam, mas os diagnósticos de um para outro variaram de picada de mosquito agravada por areia e mar sujo, catapora e impetigo. Foi receitado de pomada a antibiótico.
Peço desculpas se as fotos a seguir são chocantes, mas a situação pede que a verdade nua e crua seja mostrada. São fotos de um adulto e duas crianças, uma de 3 anos e outra de 9 que se banharam no mar próximo ao emissário da Praia da Enseada em Ubatuba.
Não é de hoje que o emissário submarino da Praia da Enseada em Ubatuba opera por meio de gambiarras. Faça uma visita e veja as marcas de cloro derramado nas paredes. Desde o ano de 2014 eu já faço denúncias neste blog: Leia aqui
Construído e implementado em 1985 pela Associação de moradores locais e repassado para a SABESP operar, a princípio ele supriu a demanda de esgoto local. Com o aumento exponencial de residências e prédios nessa praia nos últimos 15 anos, o emissário hoje não suporta mais a quantidade de esgoto gerada.
Para piorar esta situação, a manutenção durante estes 35 anos de operação resume-se a algumas pinturas, trocas de tampas de aço e milhares e milhares de litros de cloro puro despejados no mar.
Mangueiras comuns presas com arames hoje substituem a tubulação original e volta e meia escapam causando o derramamento de cloro puro diretamente na areia da praia e na passagem de pedestres podendo causar acidentes e queimaduras nos transeuntes.
Vazamento registrado em 21 de dezembro de 2004, logo após a única grande reforma realizada.
Vazamento em 29 de dezembro de 2015. 11 anos somente de tinta.
Na verdade o emissário apenas "varre" pra debaixo d`água o esgoto junto com cerca de 200 litros de cloro por dia. (Não sei o que é pior para o ambiente o cloro ou a merda). Aí você pode pensar: -"Pelo menos o esgoto é despejado bem longe da praia"... Sabe de nada inocente!!! O esgoto é lançado a míseros 130 metros da linha da areia (foto ponto 1). Ou seja, qualquer ventinho sul, ou mesmo um dia de pouca correnteza, fazem com que a merda encalhe na área dos banhistas.
Nesta temporada de 2017-2018, também descobri mergulhando que o cano está furado bem perto da areia, a apenas 50 metros da praia apareceu um furo que lança o esgoto muito mais perto ainda e que dá pra ser visto de longe (foto ponto 2).
Também acredito que a SABESP tem conhecimento deste vazamento pois em 09 de janeiro último uma equipe de pesquisa apareceu logo cedo na praia e passou todo o dia a bordo de um enorme barco fazendo medições sobre a tubulação do emissário.
Não seria obrigação da empresa de saneamento alertar os banhistas e a CETESB sobre este vazamento tão perto da areia? Não caberia multa da CETESB sobre a SABESP por esta negligência?
Desenho técnico de especialista recomenda um mínimo de 300 metros de Zona de Proteção da influência do esgoto da "Pluma". Na Enseada tem apenas 130 metros dos Difusores, ou seja, nadamos dentro da Zona de Mistura (merda com cloro).
Equipe fazendo vistoria encomendada pela SABESP .
Uma solução seria aumentar em no mínimo 750 metros a tubulação em direção Oeste, para o centro da Enseada do Flamengo.
Outra solução seria terminar definitivamente o projeto da ETE do Perequê Mirim e desativar o emissário.
Mas o que importa para os acionistas da SABESP é mesmo o lucro, que aliás bate recordes todos os anos.
ATUALIZAÇÃO EM Janeiro de 2019: O vazamento continua na alta temporada
Esse mês de julho passei quase inteiro na Praia da Enseada em Ubatuba, revendo meus amigos e Mestres Caiçaras. Não foram somente "férias", na verdade foi minha pesquisa de campo para o projeto de mestrado em ciência ambiental pelo PROCAM/NUPAUB/USP.
Nesses 20 e tantos dias remei alguns kilômetros, recolhi algumas centenas de metros de tresmalhos, conversei outras tantas horas sob a sombra da nossa velha amendoeira e registrei mais de 700 fotografias e vídeos.
Morando fora da Enseada por mais de três anos, constatei algumas mudanças positivas e outras negativas. Entre as negativas estão a verticalização desenfreada (e ilegal?) de alguns empreendimentos imobiliários que sistematicamente vêm avançando ano a ano da Praia Grande, pelas Toninhas e agora Enseada e Saco da Ribeira, tudo isso numa região em que o saneamento é perto de zero e o único emissário submarino da Enseada é irregular e obsoleto. Na verdade o emissário apenas "varre" pra debaixo d`água o esgoto junto com cerca de 200 litros de cloro por dia. (Não sei o que é pior para o ambiente o cloro ou a merda). Outro problema são as garagens náuticas, vulgas marinas, que à revelia da lei municipal, ampliam suas instalações tirando o sossego de praias destinadas aos banhistas com seus tratores circulando ou estacionados na areia o dia todo, desvalorizando nosso veranismo.
Mas nem tudo são más notícias, em meio aos ruídos de tratores e jet-skis, do cheiro de cloro, merda e óleo, alguns pequenos milagres estão ocorrendo.
Embora a pesca artesanal continue decaindo, as fazendas marinhas dos pescadores estão garantindo uma renda extra com a produção crescente de mexilhões (mariscos) e algas de forma 100% sustentável. Esse ano que passou toda a produção foi vendida, e para o ano que vem já estão "plantando" uma nova safra.
Além de garantir a renda em tempos de vacas magras, os cultivos estão prestando um importante serviço ambiental pois são verdadeiras fábricas de organismos marinhos, que entre os mariscos e algas alimentam-se, crescem e se reproduzem, dali se espalhando por toda a região e repovoando as costeiras com espécies nobres como lagostas, polvos, robalos, garoupas e até meros.
Foram vários os relatos de garoupas voltando a ser capturadas nos antigos pesqueiros que por anos ficaram sem produzir nada. Garoupas de 3, 4 e até 6 kilos foram pescadas.
Mas os próprios pescadores locais alertam para o "perigo" da temporada, quando aqueles "caçadores-sub de aquário" vêm em massa matando tudo que se move em nossa costeira, que é protegida pelo GERCO sendo proibido o arrasto e a caça-sub.
Só nos resta a esperança de que os órgãos ambientais e de fiscalização façam cumprir a lei que protege nossos recursos para o uso preferencial dos pescadores tradicionais. Mas na prática, até hoje, nenhuma ação preventiva já foi observada tendo como alvo a caça-sub, somente os pescadores artesanais é que são sistematicamente fiscalizados. Arpões, arbaletes e fisgas são livremente comercializados para qualquer um que possa pagar, sem a exigência de licença de pesca, idade mínima ou qualquer tipo de restrição. Assim, ano a ano uma verdadeira matança ocorre em nossa costeira impedindo sua regeneração.
Esse verão de 2014 poderá ser lembrado no futuro de duas formas distintas:
2014 - O verão em que Ubatuba se deixou afundar de vez em merda humana; ou,
2014 - O verão em que Ubatuba iniciou a retomada de sua principal riqueza, o mar.
Até quando esperar para tomar as atitudes tão necessárias?
A situação beira a calamidade pública, e os danos aos banhistas desavisados dão enormes prejuízos ao sistema público de saúde.
Os impactos à fauna marinha também são extremamente danosos tanto aos ecossistemas costeiros quanto aos pescadores que vivem dele.
Ubatuba, que ostenta o título de Estância Balneária, depende basicamente da BALNEABILIDADE de suas praias para atrair o turismo que é seu principal vetor econômico.
Hoje, com a facilidade de acesso das redes sociais, pipocam em todo canto denúncias de esgotos a céu aberto por toda as praias e bairros. Falando em português claro: merda pura escorrendo pelas ruas e prais em direção ao mar.
Esse vídeo postado acima, em apenas 48 horas atingiu duas mil visualizações. Esse fato talvez reflita a indignação da sociedade local e usuários das praias de Ubatuba com a falta de cuidado com o saneamento litorâneo e a farsa propalada aos quatro ventos em campanhas publicitárias mentirosas das empresas de coleta e tratamento de esgoto. Chega de mentiras, as imagens da internet refletem apenas a pura verdade! Denúncia Praia do Matarazzo Denúncia Córrego Água Branca Denúncia Enseada Denúncia Lázaro Denúncia Rua Santa Cruz Denúncia Rio Acaraú Notícia esgoto Surfcam Notícia esgoto G1 Notícia esgoto O Vale
Um conjunto de fatores contribui para o agravamento dessa situação:
1- A verticalização irresponsável e irregular que avança pelas Toninhas, Enseada, Lázaro e Saco da Ribeira;
2- Uma rede coletora que atende menos de 10% da área total de Ubatuba, não só da cidade, toda Ubatuba;
3- Emissários submarinos defasados, que operam irregulares a mais de 30 anos, com a conivência dos órgãos ambientais de fiscalização;
4- Residências que despejam água de chuva na rede de coleta de esgoto;
5- Falta de vontade política em um investimento sério em saneamento;
6- Propaganda mentirosa e enganosa dos órgãos de tratamento de esgoto, que por serem empresas de capital público-privado, visam apenas o lucro a qualquer custo para seus acionistas.
CHEGA! CHEGA! CHEGA!
Ou tomamos atitudes de mudança imediata ou nosso futuro será afundarmos na merda até o pescoço!