sexta-feira, 20 de novembro de 2015

TRADIÇÕES, TEMPOS e LUGAR

ENQUANTO UMA TRADIÇÃO VAI SE PERDENDO,
OUTRA TRADIÇÃO SE PODE COMPRAR, E,
POUCO A POUCO, VAI OCUPANDO O LUGAR.

Tradições e Tempos sobrepostos na Praia da Enseada. Foto: Peter S. Németh 2014.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"CAPA", a canoa reciclada.

No ano de 2004, mais ou menos, o Mestre Antenor comprou uma canoa de "Seo" Neves, lá do Flamengo. Ela veio toda envelopada com fibra de vidro. Aquilo num prestava, enchia de água entre a madeira e a fibra, a madeira num secava nunca, a canoa era um peso só e a madeira já tava pijuca (fofa de podre). Arrancamos a capa de fibra dos dois lados, reformamos a canoa e ele a vendeu, (o resto de resina mal curada que sobrou na madeira colava no pé, isso enchia o saco). 
A capa ficou jogada lá em casa, o mato comendo ela devagarinho. Vez por outra eu puxava, cortava a grama e deixava ela lá de novo. Quando sobrava um materialzinho de resina e manta eu ia colando os pedaços dela e largava de novo. Anos e anos depois, ela ficou "em pé", já tinha cara de canoa, faltava o espírito. Planejei fazer umas garras, quilhas, cavernas, bordos, sobreproa, sobrepopa e reforçar tudo com mais manta e resina... mas nunca realizei. 
Um dia o Paulinho pediu e eu dei a "Capa" pra ele. Meses mais tarde ele fez um rolo com o Dito Grande, que levou a Capa pra casa dele e foi colocando "pedaço". Aquilo tudo que eu havia imaginado ele fez em madeira, quilha, caverna, bordadura. Faltou a manta e a resina, que custa caro. Novo rolo feito com o Paulinho, que contratou "um cara lá da cidade que mexe cum fibra de vidro". 10 anos de aventuras depois, terminaram a canoa, mas sabe como é né... pode até parecer muito bom mas: Canoa de fibra de vidro, JAMAIS! 
Canoa de fibra pinica o pé e a bunda; se bater numa pedra, racha e afunda; se lascar corta como faca a pele; se entrar água afunda; e o pior de tudo, impede que uma Tradição seja transmitida. Uma canoa não é uma árvore que morreu e sim uma árvore que foi promovida para uma Nova Vida.
Mas esse espírito mágico não está presente numa canoa de fibra, ela é só a capa, sem conteúdo algum, é um arremedo superficial, uma cópia macabra que retrata a decadência da cultura local. Uma saudade daquilo que jamais, e muito provavelmente, pelo menos na Enseada, jamais será novamente.
Parece que agora o Ascendino comprou a Capa. Canoa de sorte, ela ganhou um dono caiçara de raiz. Só que ele também, assim como outros caiçaras, já foi expulso da beira da praia e não tem mais Rancho de Canoa no jundú da praia. Agora a sua canoa fica guardada no tempo, sujeita à chuva e sol... talvez então não tenha sido tão ruim eu ter salvo a Capa, há males que vêm para o bem... 

Ascendino e a sua canoa "CAPA", na Praia da Enseada. Foto: Cristina Prochaska, 2014.
Mestre Antenor reformando a Canoa depois de tirar a CAPA. Foto: Peter Nemeth março de 2004.

A canoa pronta pra pintar. Foto: Peter Nemeth março de 2004.

Dito e Marquinhos conferindo o serviço. Foto: Peter Nemeth março de 2004.


domingo, 15 de novembro de 2015

RDS: um pouco da história recente.


"Desde 1989, a equipe do Nupaub (Núcleo de Apoio à pesquisa de populações humanas e áreas úmidas) da Universidade de São Paulo esteve envolvida em pesquisas sobre a situação das comunidades tradicionais, moradoras das unidades de conservação de proteção integral. Algumas comunidades, como as caiçaras do litoral Sudeste brasileiro, estavam ( e ainda estão) sofrendo o impacto da criação dessas áreas protegidas sobre seu modo de vida. Naquele momento, a única categoria que possibilitava a permanência dessas comunidades e o respeito ao seu modo de vida tradicional era a Reserva Extrativista conseguida com a luta dos seringueiros da Amazônia. Nesse sentido, o Nupaub iniciou o contato em 1992, com a comunidade do Mandira, no município de Cananeia-litoral de São Paulo para encontrar caminhos para a melhoria de seu modo de vida, mantendo os recursos naturais de que dependiam para sua sobrevivência, em particular da extração da ostra de mangue e do pescado. Durante dois anos essa equipe trabalhou sobretudo no apoio à organização da comunidade, resultando na constituição de uma associação dos moradores e na ideia da proposta de uma reserva extrativista.Os estudos e apoio técnicofinanceiro necessários ao estabelecimento dessa reserva foram realizados pela equipe do Nupaub para a implantação de estruturas de manejo onde as ostras não eram retiradas do mangue, com o corte de raízes mas transplantadas, ainda pequenas para as novas estruturas colocadas no meio do estuário. A solicitação da Reserva foi feita ao CNPT, ( Conselho Nacional de Populações Tradicionais,) do Ibama, em 1994-1995" (DIEGUES, 2015).

LEIA AQUI O ARTIGO COMPLETO DO PROF. DIEGUES

Chico Mandira e seu sobrinho Adriano. Foto: Joey L. - Lavazza Calendar 2016 - From father to son,
ASSISTA AQUI no Youtube.




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

OS FALSOS NOMES DA ILHA ANCHIETA

O costume moderno de "copiar e colar" levou à graves erros quanto aos antigos nomes da Ilha Anchieta, que de tanto serem automaticamente repetidos, estão se tornando falsas "verdades".

Encontramos na literatura diversos nomes atribuídos à Ilha Anchieta através dos tempos: Ilha dos Porcos (OVIEDO,1510; ALBERNAZ,1631), Tapera de Cunhambebe (SÃO PAULO, 1921; GUILLAUMON, 1989), Tapíra (SAINT-ADOLPHE, 1845; GUILLAUMON, 1989), Pó-Quâ (ALMEIDA, 1902) e Ilha Anchieta (Decreto de 17 de março de 1934).
No entanto é nosso dever alertar que algumas dessas denominações historiográficas referentes à Ilha Anchieta devem ser descartadas e rejeitadas, pois embora amplamente divulgadas e replicadas por diversos autores sem o devido cuidado de checagem das fontes originais, ou referem-se à outra localidade geográfica, ou são fantasiosas.
Convém antes explicarmos terem existido duas localidades homônimas denominadas “Ubatuba” (Ubativa, Uwattibi, Humbatiba) entre o litoral de Bertioga e o do Rio de Janeiro.  Esta duplicidade causa ainda hoje enganos e contradições recorrentes em diversos textos sobre essa região.

Quanto aos falsos nomes da Ilha Anchieta, o primeiro deles, e o mais erroneamente replicado é a denominação Tapera de Cunhambebe. Esse nome refere-se à atual Ilha Cunhambebe localizada em Angra dos Reis, próxima à Ilha da Gipóia, no Estado do Rio de Janeiro.
A confusão vem de um documento datado de dezembro de 1610,  onde encontramos o registro de uma sesmaria em Angra dos Reis. O documento cita que o peticionário não tendo terras para fazer mantimentos:

[...] pedia lhe desse uma ilha que está defronte Ubativa chamada Tapera de Cunhambebe que terá de terra toda ella obra de meia legua pouco mais ou menos para nella fazer mantimentos ..................... ilha e terra está em Angra dos Reis e ilha de Jepo..ya e assim mais avante da dita ilha na ponta de terra firme [...]” (SÃO PAULO, 1921)

Também o nome Pó-Quâ, significando “pontuda”, foi uma tentativa do Dr. João Mendes de Almeida (1902) que procurou “adivinhar” a origem do nome original da ilha, Porcos, como sendo a possível corrugação dos vocábulos tupis  pó e quâ. Basta uma breve leitura do prefácio de seu Diccionario Geographico para descobrirmos que o autor forçou a procura “de uma origem observavel e verificavel, quer na geographia da localidade, quer nos elementos da estructura grammatical do vocabulo tupi” (ALMEIDA, 1902). E também que:

Elle teve em vista as regras do methodo experimental, entre as quaes há uma que previne o observador quanto o espírito de systema; mas isto não quer dizer que deixe de ser observada a razão da existencia e a forma primitiva dos nomes portuguezes. Quasi todos os nomes portuguezes, dados não officialmente aos logares, observada a sua razão de existência e a sua forma primitiva, foram nomes tupis hoje alterados por corrupção em consequência ou da dificuldade da pronuncia da palavra tupi, ou da semelhança com a palavra portugueza no som, no ruído ou na ressonancia (ALMEIDA, 1902).
 
Nesse caso, o nome original e mais antigo registrado da Ilha Anchieta é ibérico, Puercos, portanto a tese fantasiosa de Almeida (1902) que o nome Porcos, seria uma corrupção do tupi Pó-Quâ, cai por terra.

Recorrendo portanto à fontes mais confiáveis e antigas, encontramos em Oviedo (Islario general de 1539-1600) comentando Alonso de Santa-Cruz, a justificativa do nome Isla de los Puercos, já bem difundido entre os navegadores europeus entre os séculos 16 e 17, “por nela haverem muitos porcos selvagens” .
Também encontramos o relato de uma professora primária, que viveu na Ilha Anchieta entre 1945 e 1948, onde é feita uma referência curiosa ao motivo da denominação Ilha dos Porcos:

Quando menina, estudava geografia de São Paulo e a Ilha dos Porcos me chamou a atenção, por causa do nome estranho. Mal sabia eu, que anos e anos se passariam e o meu primeiro emprego como professora seria justamente na antiga Ilha dos Porcos, hoje denominada Ilha Anchieta. Porcos! Por que se chamava assim essa famosa Ilha? Porque havia porcos catetos em grande quantidade vivendo nela. Não porcos domésticos, mas catetos, porcos selvagens, magníficos e perigosos. O cateto é chamado porco-do-mato brasileiro, mas não é da família do porco, porque só tem três dedos nas patas de trás. O que caracteriza esse animal é o colar de grossos pelos brancos, que rodeia seu pescoço. Em 1947 o último cateto da Ilha Anchieta foi abatido e eu tive o privilégio de comer um pedacinho de sua saborosa carne (DAS NEVES, 2012).

Também é notório nos relatos dos antigos navegadores a necessidade de constante reabastecimento das embarcações com víveres, principalmente água e alimentos. Por esse motivo muitas ilhas foram estrategicamente assinaladas com o nome “dos Porcos” nas primitivas cartas náuticas, diários de bordo e nos Roteiros ou Livros de Rotear, como locais propícios escolhidos para essa finalidade específica. Fato é, o nome Ilha dos Porcos ser recorrente em várias rotas costeiras do litoral brasileiro e americano, somente no território de Ubatuba são duas as ilhas com esta denominação, sendo uma a Grande (hoje Anchieta) e outra a Pequena (na Enseada do Ubatumirim).
E por último, Tapíra, registrado por Saint-Adolphe em 1845, nome que provavelmente seja o único que possa ter alguma ligação com uma denominação Tupi, embora o autor não revele as fontes consultadas impossibilitando uma checagem mais aprofundada.

Esperamos com esse breve estudo, contribuir para o fim dos recorrentes erros de denominação historiográfica da Ilha Anchieta, cegamente repetidos sem a devida checagem histórica, à ponto da fantasia se transformar em ralidade pela repetição mecânica de um engano grosseiro.
ESTE ESTUDO É UM TRECHO DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DEFENDIDA EM SETEMBRO DE 2016.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ILHA ANCHIETA 110 ANOS ATRÁS

Durante os últimos dois dias me debrucei sobre os três contratos de compra e venda da Ilha dos Porcos, hoje ilha Anchieta, mergulhando exatos 110 anos no passado, tempo da expropriação forçada de 148 pessoas, proprietárias de edificações, terras, plantações, benfeitorias, canaviais, cafezais, pomares e pelo menos 35 coqueiros. Noventa e cinco (95) "vendas" foram concretizadas pelos 92 proprietários de 1 ex-escola do sexo feminino, 2 casas-armazém sendo uma de secos, molhados e fazendas (tecidos), 4 galpões, 2 galpões de canoas, 1 rancho de canoas, totalizando 116 edificações.
Cento e quarenta e cinco (145) pessoas adultas viviam em 7 localidades registradas, com exceção do sul da Ilha, onde proprietário algum foi citado nos contratos.
Muitos sobrenomes familiares pude identificar: Gil, Jardim, Oliveira, Graça, de Jesus, de Goes, Peres, Conceição, Cabral, Barbosa, Marcellino, Lopes, de Souza, dos Santos, entre outros.
Descobri que o marido de Idalina Graça, provavelmente foi expulso do Mato Dentro e confirmei a origem da família Gil, do Mestre Antenor dos Santos como sendo mesmo no Parcelzinho conforme o relato dele. No entanto seu provável avô Daniel Gil foi expulso da Prainha, a mais povoada com 30 edificações, dez vezes mais do que no Parcelzinho, que abrigava apenas uma viúva, um viúvo e uma solteira, cada qual em sua casa de sapé, cujos vestígios o Antenor já me mostrou.
Aproveito para reproduzir um pequeno trecho do livro Terra Tamoia de Idalina Graça onde podemos mesmo "sentir" a Praia da Enseada dos anos 1930.

CAPITULO I
A viagem
Foi ao cair de uma tarde de janeiro de 1930, que deixei para sempre a terra de Brás Cubas pela terra dos tamoios: UBATUBA. Havia uma razão para isso: — meu marido, natural da Ilha Anchieta, sentia profundas saudades de seu torrão e mal se dava na trepidante Santos, porque a sua índole não se casava com o vertiginoso movimento do grande porto paulista. Eu também, filha de Ilhabela, esse paradisíaco rincão do litoral norte, ansiava poder sentir novamente ao meu derredor a misteriosa beleza rústica, e com sabor primitivo das praias, das nossas praias, até o advento do turismo que se assenhoreou de tudo, trazendo o progresso característico da época que atualmente vivemos, mas retirando aquela paz que era própria dos caiçaras simples e sem problemas. Casada apenas há dois anos, vivia somente para o meu marido, que era o pequeno mundo onde me agitava. Carregando os nossos poucos haveres para o convés da lancha "Ubatuba-Santos", línico elo que ligava as duas cidades periodicamente, enfrentei a nova fase de minha existência, desafiando, naquela inesquecível viagem, o mar revolto, bramindo a sua raiva como se desejasse impedir minha chegada à terra que se tornaria meu novo lar. Albino, meu marido, fortemente gripado, mal saía do lugar que escolhera. Eu, em contrapartida, em todos os portos da orla litorânea onde a lancha aproava, descia, vasculhava os arredores com meu olhar, fixando tipos e coisas em minha memória. Pouco se me dava o oceano bravio. Meu coração exultava pelas novidades, pelo encantamento da viagem. Dois dias passaram até chegarmos, bordejando a ilha natal de meu marido, adentrando o boqueirão e encostando na Praia da Enseada, onde transcorreriam os meus primeiros tempos de "ubatubense". Nessa longínqua tarde em que ali desembarcamos, o sol tendia a se esconder entre os montes. Sua luminosidade já levemente rósea, tingia a superfície das ondas de tonalidades belíssimas, cheias de nuanças, enchendo meus olhos e minha alma. Chamou-me à realidade das cousas, a voz de meu marido, que, impaciente pela cansativa viagem, não compreendia o meu entusiasmo pela praia a que acabávamos de aportar: — Como é, Idalina? Você desembarca ou não? Suspirei ao pensar quão errado fora o destino em ter me feito nascer mulher. Como invejei os homens nesse dia! Estava longe de adivinhar que, desde aquele instante até o momento presente, em que escrevo estas reminiscências do passado, teria que assumir uma personalidade masculina. Naquela noite memorável, fizemos camaradagem com milhões de pernilongos, indesejáveis visitantes que só sabem agradar mordendo. Conformei-me, comparando-os aos homens, destinados, na terra, a ferir os seus semelhantes. Porém,, rio dia seguinte tudo esqueci ante o grandioso espetáculo do nascer do sol. Inundava a serra e o mar, e era a sua luz, tão grande a manifestação de Deus na Natureza, que chorei! Logo depois, Albino veio ao meu encontro e ficou consternado ao me ver chorando: — Você está arrependida? — Não, querido! Estou chorando de alegria... — Impossível — disse êle, enquanto me levantava da areia molhada. — Você gosta daqui de verdade? — Sim, Albino! Adoro a vida simples, sem artifícios, onde cada ser humano recebe aquilo que Deus determinou! Aqui o homem é senhor e rei em seu lar! Tudo isto eu lhe disse, apontando o majestoso cenário que ambos contemplávamos naquele instante: — Veja, Albino, os pescadores como riem e cantam ao estenderem suas redes! Ajoelhando-nos na areia úmida, oramos, pedindo ao Pai Todo Poderoso forças suficientes para ganharmos o nosso pão de cada dia, agradecendo ao mesmo tempo, a dádiva de luz e beleza, com a qual fomos presenteados pela Divina Misericórdia naquela manhã de 3 de janeiro de 1930.

CAPITULO II
Início da luta
Depois de instalados, fiz, com meticuloso cuidado, uma investigação pelos arredores de minha casinha. Como era simpática! Pequenina e branca, de janelas azuis, espiava a medo para o mar! Algumas árvores frutíferas completavam o encanto do meu novo lar. Dias depois. Albino abriu uma pequena venda. Ali se reuniam, quando não iam à pesca à noite, os caiçaras, bebendo um trago ou jogando truco; discutiam o tema de todos os dias: — o tempo, o peixe, o vento e, algumas vezes, política, o que me divertia muito. Era a Praia da Enseada, naquele tempo, isolada da cidade, mas, plena de beleza poética. Possuía umas vinte habitações ao todo, de construção pobre, mas, em compensação, ricas de luz e harmonia. Eram os seus habitantes gente simples de costumes sadios e precisos em suas ações. Em breve me fiz amiga de todos êles e, para facilitar a vida, troquei meus trajes femininos por outros, masculinos. Agora sim! — pensei — ia trabalhar, e, com o tempo, também possuiria minhas redes! Foi essa a época mais feliz da minha vida. Da manhã à noite eu lidava com peixes, aprendendo na convivência do homem litorâneo, usufruindo a vida e bem alicerçada na Fé.
Entre os moradores da pitoresca praia, havia um que se sobressaía aos demais pela agudeza de seu espírito, nunca faltando onde a ação exigisse sua presença. Esse pescador é, hoje em dia, homem de negócio na próspera Ubatuba. Já fazia seis meses que, felizes, morávamos no Retiro Azul, pois assim eu batizara o nosso lar. — Como adoro este nosso ranchinho! — dizia eu. — Meu e não seu... — respondia Albino com ar trocista. Você não pára em casa.. . Era uma grande verdade. Apenas despontava a madrugada e os primeiros raios de luz beijavam o mar, já ali me encontrava, extasiada. Despertava de meu encantamento, chamada à realidade da vida pela voz de Albino, reclamando o café da manhã. Êle não se conformava com tão "maus costumes" da minha parte. Ralhava: — Até parece que você casou com o mar e não comigo! — Mas, meu bem — retrucava eu, desapontada em ver os meus devaneios detestados por Albino — eu não tenho culpa de ser assim! Adoro o esplendor deste oceano e a sua imensidão! É um espetáculo que sempre se renova e age poderosamente em mim... Eram apenas rusgas conjugais, logo desfeitas. Hoje vivo da saudade delas e daqueles tempos já tão distantes.
No mês de julho a nossa praia animou-se. Em todos os lares notava-se desusado movimento: caiavam-se as paredes, lavava-se o chão e, o próprio pescador guardava a canoa no rústico galpão, antegozando o que lhe era muito caro: A "Folia do Divino". Estava na Ribeira, cantando na casa do João Glorioso, pescador conhecido, homem bom, de honestidade comprovada em todo o município de Ubatuba. Em nossa casa não havia espaço para receber a ''folia", pois a sala principal tinha sido transformada no negócio de Albino. No dia em que o Divino chegou à Praia da Enseada, fechamos a venda e ambos fomos assistir a festa, na casa de um parente de meu marido, o Gil. Desde a manhã que este não cansava de carregar comidas e bebidas mandadas vir expressamente da cidade, aos cuidados de João Vitório. Sinto-me emocionada ao recordar a expressão feliz que animava aqueles semblantes honestos e cheios de vida, na expectativa ansiosa de receber a Jesus em seus lares (quão santa e pura é a fé do homem do mar!). Lembro-me bem que eu mesma me senti comovida, quando a Bandeira do Divino apontou na estrada, na frente de um cortejo, carregada por uma bonita praiana. Avançava, as fitas esvoaçando ao sopro da viração, lentamente, pois muita gente detinha a jovem no caminho, fazendo-a baixar as fitas para serem beijadas. Muitas delas eram cortadas e enroladas para serem guardadas como amuletos. Esses costumes, quase totalmente desaparecidos, deixam agora somente recordações daqueles tempos, daquela gente simples e boa, que vivia longe dos homens e perto de Deus. Foi para mim, neófita nesses ritos, um espetáculo maravilhoso! Ver naquela gente metida em seus trajes domingueiros, com os olhos fisgados no grupo solene dos violeiros. .. Então, o mais moço deles, um guapo praiano, adiantou-se aos companheiros, inclinou a cabeça sobre a viola e com voz ampla e sonora modulou estes versos singelos:
"O Divino Espírito Santo nesta casa vai entrar;
Êle vos pede pousada e também o que almoçar"
Depois deste improviso foi que o simpático violeiro, acompanhado por todos, entrou nos pagos do Gil. A dona da casa, tendo recebido a Bandeira, carinhosamente levou-a para o interior, cobrindo-a com alva e rendada toalha. Em seguida, veio sentar-se a meu lado e perguntou-me: — É bonito, dona Idalina? — Não, Dita. O que estou vendo é mais do que bonito. É simplesmente maravilhoso! — Olhe, querida! Olhe para a expressão fisionômica destes homens! continuei — Parecem crianças recebendo um brinquedo ardentemente desejado! Por minha vez, senti como um nó na garganta, sem saber definir o porquê desse estado d'alma. Foi então que a voz jovem e bem timbrada do segundo violeiro, cantou os versos seguintes:
"Descansando em vossa casa,
Linda flor de mãe querida,
Pergunto a senhora dona
Onde está nossa comida."
E, depois bem almoçados:
"Espiai pro Espírito Santo,
Lindo colar no pescoço.
Deus ajude com saúde,
Quem nos deu tão bom almoço.
O Divino deu um "viva",
Em toda parte se ouviu.
Peço a Deus que abençoe,
Quem nossa mesa serviu."
Já à noitinha, depois de muita cantoria, vinha o fecho:
"Mais um "viva" se ouviu
Quando se escondia o sol.
Peço a Deus que me dê
Uma cama e um lençol."
Fazia-se tarde e Albino foi despedir-se dos donos da casa, enquanto eu, depois de uma longa volta em torno da casa, e também de levar alguns empurrões, consegui me aproximar do "folião", nome esse que, a meu ver não combina com as suas atribuições, tão a sério êle leva o desempenho do papel de violeiro-cantador. Quis sondar-lhe a alma para descobrir de onde vinha o encanto que emanava da sua poesia. O simpático praiano, ao saber do meu interesse, repetiu-me os versos que garatujei em uma folha de papel, com a promessa, da minha parte, de devolvé-lo no dia seguinte, a fim de que êle o guardasse. — Afinal, Idalina, para que você quer estes versos ? — perguntou Albino; e vendo que eu não respondia, continuou sorrindo: — Será que você pretende cantar folia? Não meu bem! Se Deus quiser, não há de ser preciso você fazer tanta força assim... Mesmo porque — juntou trocista — a escutar o seu canto, prefiro mil vezes o coaxar da rã do brejo... Não respondi. Cantarolando baixinho os versos que escutamos do moço violeiro, sentia ecoar no meu coração a singeleza das rimas, tão de acordo com o ambiente rústico e simples.
Enfim, chegamos à nossa casinha. Albino reassumiu seu posto no balcão, e eu, bem a contragosto, guardei os meus sonhos em uma caixinha para momentos mais apropriados. Ouvi, no decorrer da noite, o som das violas, acompanhando o canto do "folião".
O dia seguinte amanheceu lindo, com o sol amigo. Estávamos ainda no café da manhã, quando Dita entrou em casa correndo. Como era bonita a caiçarinha! Cabelos castanhos e crespos, olhos esverdeados tendendo para o azul. Eu sempre dizia, brincando com ela: — Menina, do quem você é namorada. Do mar ou do céu? E ela dizia: — Dos dois, dona Idalina. E foi a graciosa moça que, com algazarra juvenil, nem deixou o meu marido abrir o armazém, dizendo: — Não dará tempo, "seu" Albino. O folião vai cantar a despedida! Adiantando-nos em louca corrida, partimos as duas para a praia ensolarada, apesar dos veementes protestos de Albino, que vinha mais devagar. Antes de chegarmos esperei-o, e, já agora compenetrada do papel de senhora casada, parei, tomando fôlego. Em seguida abrimos caminho através dos nossos amigos. Assim posso chamá-los, pois na realidade, sem exceção, eram todos bons e carinhosos para nós. A "Folia" já estava de saída. Sorridente, o jovem cantor adiantou-se e gentilmente pediu licença a meu marido para oferecer-me os primeiros versos da despedida. Concedida a licença, o mesmo levantou a voz e cantou:
"Dizem que mulher de fora
 Jamais gosta do lugar
 Mas esta dona tem cara
 De quem aqui vai ficar.
 Mercê veja se acostuma
 E desde já vá criando,
 Pato, galinha e ganso,
 Que para o ano voltamos.
 A esmola que vós destes.
 Lá na Glória chegou:
 Os anjinhos receberam.
 Nossa Senhora guardou.
 O Divino foi prá Glória,
 Foi buscar a boa sorte
 Pra casa onde almoçou."
Vi-os partirem com saudade. Foram momentos felizes esses que vivi, nos primeiros dias da minha chegada à Enseada. Mais de trinta anos são passados. Porém, em minha alma, ainda mora a recordação viva da festa do Divino, que eu vira pela primeira vez. É o passado ainda perfeito, trinta e poucos anos depois, que fala nas páginas deste livro. É também uma homenagem aos meus amigos de então, que habitavam a Praia da Enseada. Uma vez por outra, tangida pela saudade, eu procurava recordar os versos, tão simples em seus dizeres e tão belos na voz de um filho daquelas praias.
Folia Do Divino na Enseada, foto: Cristina Prochaska - 2015.
Escritura de compra e venda da Ilha Anchieta, foto Peter Németh.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

O papel da Socioantropologia Marítima.

Essa disciplina do NUPAUB/PROCAM/USP será ministrada agora no segundo semestre de 2015 pelos professores: Dr. Antonio Carlos Sant'ana Diegues e Dr. Adrian Ribaric.

Objetivos: O curso pretende apresentar uma visão interdisciplinar no estudo do mar, incluindo a contribuição das ciências sociais para a análise das relações entre sociedades e ambientes marinhos.

Justificativa: O mar, até recentemente foi considerado o espaço exclusivo de estudo das ciências naturais. Com o aumento das atividades marítimas, seja pela pesca, pelo transporte e pelo turismo, o mar começou a ser objeto de estudo de diversas disciplinas das ciências humanas, entre as quais a história, a antropologia e a sociologia. Nos últimos anos, no Brasil, a socioantropologia marítima tem contribuído para o aprofundamento dos estudos que relacionam as sociedades e o mar.

Período: 2º semestre de 2015 – Concentrada: 05 a 16 de outubro. Créditos: 04.

Horário: 19 às 22:30. Vagas: 20 alunos de pós-graduação e 10 alunos especiais.

Local: NUPAUB, Rua do Anfiteatro 181, Colméias, Favo 6.

Fone: (11) 3091-3307(11) 3091-3307

Acesse a ementa, CLIQUE AQUÍ.

E a valiosa bibliografia que será utilizada já está disponível, CLIQUE AQUÍ.


Prof. Diegues, foto: Peter Santos Németh