terça-feira, 11 de setembro de 2012

O MODO DE FALAR CAIÇARA

Em 2010 pubiquei um pequeno dicionário com cerca de 1.400 palavras que compilei junto às comunidades caiçaras do Litoral Norte de São Paulo, principalmente as de Ubatuba. Junto com o dicionário foi feito um DVD com o o passo a passo da construção de uma Canoa Caiçara.
Chamei-o de Glossário Caiçara de Ubatuba. Seguem abaixo alguns trechos.


“A peculiaridade do falar caiçara não está só assentada na originalidade dos seus termos, mas, sobretudo, no gestual, na entonação da voz que acompanha o seu falar, na sua postura, nas nuanças do olhar.
O caiçara não apenas fala, ele fala e, ao mesmo tempo, representa.
O seu falar obedece a um ritual elaborado e desempenhado nos mínimos detalhes.
As palavras, quase sempre, são proferidas, ora escandindo na primeira sílaba, ora escandindo na última, produzindo variações sui generis na entonação da fala.
O falar do caiçara é um falar cantado, melódico e harmonioso, em sintonia com a natureza, fazendo contraponto com o marulho das ondas e a musicalidade do sussurro da brisa, numa suave canção de ninar...” (Enciclopédia Caiçara Volume II - Falares Caiçaras - Antonio Carlos Diegues e Paulo Fortes Filho).

NOTA
Esta pequena compilação surgiu, em sua maior parte, da convivência diária com a comunidade de pescadores tradicionais da Praia da Enseada em Ubatuba, litoral norte de São Paulo.

Este glossário nem de longe abrange ou pretende alcançar a totalidade do universo de expressões e palavras usadas no falar característico do povo Caiçara.

É apenas o resultado de curtos 7 anos de convivência íntima com alguns dos últimos guardiões da antiga tradição Caiçara local, tradição que hoje se detecta tão somente por este falar característico recheado de arcaísmos, palavras e expressões forjadas no linguajar ibérico e tupi, que a nova geração já não usa mais.   

É a tentativa de justamente preservar ao menos alguns ecos do “tempo antigo”, ainda que muito já se tenha perdido, a fim de registrar, preservar e recompor este modo de vida ancestral, perfeitamente independente em sua incomparável ligação simbiótica com o mar e a exuberante natureza do nosso litoral.

Arrelá!              Peter, o Alemão.   Praia da Enseada - Outono 2007
CAIÇARA
“Atingimos a caiçara, uma fortificação semelhante a uma cerca de jardim, feita de estacas grossas e longas posicionadas em torno do conjunto de cabanas. É usada pra evitar os ataques dos inimigos”.

(Trecho de: “A verdadeira história dos selvagens, nus e selvagens devoradores de homens, 1548 – 1555”; de Hans Staden, 1557;  tradução Pedro Süssekind, livro 1). Ilustração Vernhagen: não está publicada no Glossário.

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A  
À bem dizer – expressão usada para deixar uma opinião bem clara, significando, melhor dizendo, na verdade, realmente; “À bem dizer, a culpa foi minha”. 

A estrela mudou de lugar – diz-se de estrela-cadente.

À garné – de qualquer jeito, espalhado; “Não tem onde por; põe à garné”.

À la sueste – tipo de vento constante que sopra de sueste quase sempre trazendo chuva fina constante.  

A maré torrô – diz-se de maré muito seca.

À rodo – expressão que significa muita quantidade, “Deu espada à rodo”.

À rola – diz-se do barco deixado à deriva, ao sabor da maré; “Pescamos à rola”; também significa muita quantidade; “Tem corvina à rola.”

À sobrepau – modo de se assar a tainha, direto na brasa sobre galhos de goiabeira verdes ou talos de folha de bananeira, o mesmo que moquém.

Às canha – ao contrário, com a mão canhota.

Abestalhado - diz-se da pessoa que não se integra ao grupo, pessoa ruim, um besta.

Abotoar a rede – ato de se prender uma rede a outra ou uma rede ao rodo de cerco, através do botão de rede.

Abracar – o mesmo que abarcar, abranger, incluir; “Se abraquemo com aquilo tudo!”.       

Abricó – pequeno fruto do abricoeiro, bem redondo e amarelo, usado como ceva para caçar pacas.

Abricoeiro - árvore de médio porte muito comum no litoral, cujos ramos com folhas nas festas de junho são lançados numa fogueira produzindo sonoros estalos.

Abrir água – expressão que significa sair, afastar-se, ir embora; “O cação sumiu, então a tainha abriu água”.

Aceiro – a faixa de terra limpa de mato, feita para impedir que a frente de fogo avance.

Acoitar – o mesmo que hospedar, receber visita.

Acostar – o mesmo que encalhar na praia.

Acostumar com a rede – diz-se do cardume que, no cerco à tróia, se acostuma com o tamanho e posição da rede e não vai na malha; “Tem que bater a pedra logo se não o peixe acostuma com a rede, fica rodando e não malha”. 

Adonde – o mesmo que onde.

Adormentar – o mesmo que colocar um bordado numa canoa; “Coloquei um dormentozinho na canoa“.

Adufe – instrumento musical, o mesmo que pandeiro.

Adular – o mesmo que fazer carinho; “Tá adulando”.

Afeiçoar – talhar ou esculpir algo até o formato desejado, “Afeiçoei a madeira”.

Afichar – apertar, prender; “Tem que apertar bem se não, não aficha o nó”.

Afogar – o mesmo que encher d’água; “A canoa já tava afogando”.

Água leste – correnteza do mar que corre rumo ao leste, também “águas a leste”.

Água sul – correnteza do mar que corre rumo ao sul, também “águas ao sul”.

Aguagem grossa - mudança da cor e textura da superfície d’água ao tremer pela agitação de um cardume de peixe, indica o local e o tamanho do cardume; “Olha a aguagem grossa que vai lá”.

Agulha de palombá – agulha grande de ferro, meio arcada, usada para fechar o saco de lona em que se transportava o peixe seco. 

2 comentários:

  1. ola, gostaria de adquirir o glossario caicara, como faço?
    Grata
    Preta

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    1. Olá Preta. Pode solicitar pelo email: bambuluz@yahoo.com.br Obrigado pelo contato.

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