quinta-feira, 15 de novembro de 2018

"O PULEIRO"


O PULEIRO

SÓ LEMBRA QUE TEM O POBRE,
NA OCASIÃO DA ELEIÇÃO,
DEPOIS QUE TÁ NO PULEIRO,
NÃO LEMBRA QUEM TÁ NO CHÃO.

Quadrinha transmitida por Nelson de Góis na véspera da eleição de 2018. O blá blá do político continua o mesmo década após década.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Fandango da Força Verde

Mestre Aorelio Domingues traduz com maestria a injustiça sofrida por Caiçaras de todo o litoral.

Conhecidas por "Florestal", "Força Verde" ou simplesmente "Meio Ambiente" essa força policial fiscalizatória trata os Caiçaras como bandidos.

Transcrevo um trecho da minha dissertação que foca nesta situação específica:

4.7.1. O conflito com o “meio ambiente”  
O pescador caiçara tradicional, não difere, nem percebe distinção, entre a própria vida e o ambiente natural em que ele está inserido, e do qual sobrevive.
Para o caiçara, o conceito de “meio ambiente”, possui significado totalmente distinto da concepção urbano-industrial. 
O “meio ambiente”, para ele, significa: a polícia florestal e as leis ambientais (MANSANO, 2004: p. 208; DIEGUES, 2008: p.67) que restringem suas atividades tradicionais.  É muito comum ouvir entre os caiçaras, expressões como: “O meio ambiente prendeu”, “O meio ambiente proibiu”, “O pessoal do meio ambiente”. 

"O profundo respeito e admiração pela natureza dos moradores da Barra do Ararapira não os fazem conservacionistas, pois a palavra é uma invenção nossa e que surge da nossa maneira dicotômica de perceber a natureza separada da humanidade. “Conservar” jamais seria uma palavra usada por eles, pois os mesmos não veem uma natureza possível de ser conservada, já que para eles não é algo estável, parada no tempo, imutável. Como se conserva algo que muda constantemente?" (RAINHO, 2015: p.140, grifo da autora)                                                 
 
Esta “névoa” que envolve o conceito local de “meio ambiente”, causa uma grande confusão quando o caiçara precisa expressar suas ideias sobre “manejo” ou “conservação ambiental”. O conceito de “conservação da natureza”, envolve práticas tradicionais tão arraigadas ao próprio modo de vida local, que os pescadores precisando explicá-las formalmente, confundem-se, contradizem-se, constrangem-se com a necessidade de dominar palavras, para explicar algo tão óbvio do ponto de vista tradicional prático.
 
"Aquele dia da reunião (Oficina do PEIA: SÃO PAULO, 2008a) mostrando... lembra... A placa que tinha (na Ilha Anchieta)... Mostrô o (nome suprimido) caçando né... lata de skol... Aí eu falei pra ela (gestora): -Isso aí a Sra. mostra né? Isso aí, coisa ruim, a Sra. mostra... Mas a Sra. num mostra que lá na Ilha tem aqueles pé de amendoeira, que faz sombra na frente do presídio, quem plantô foi pescador! Aquilo num nasceu lá não, a Sra. viu? Foi gente que levou... amendoeira, bananeira, coco da Bahia... Quem plantô? Né? Pescador... Pescador num faz o que ela tava mostrando... [...] Hoje a Ilha, Alemão... o que vem de saco de latinha quando desce lá (no píer do Saco da Ribeira), meu Deus do céu... Enche o cais só de saco preto cheio de latinha de cerveja... E a mulher (gestora do PEIA) filma os pescadô né? Que é os pescadô que (estraga)... Viu o monte de lata e garrafa (mostrados na Praia do Sul pela gestora, ao lado do rancho dos pescadores, para justificar a retirada do rancho daquela praia)? É... Mas o que descarrega (de lixo de turista) ninguém filmou, aquele monte de saco preto que só vê barulho, 10, 12 saco, mas assim ó (mostra 1 metro acima do solo) que vem de lá... Isso ninguém filma... É muito (injustiça)... sabe..." (DOS SANTOS, 2014, comunicação pessoal) 

Se a pressão da formalidade provoca distorção na comunicação, no entanto, suas considerações baseadas na observação empírica do uso da natureza no dia-a-dia da faina pesqueira, são cristalinos quando apontam quem realmente lucra com o “meio ambiente”. 

"O meio ambiente foi bom sabe pra quem? Pros... pros, cara...  que vieram pra explorá Ubatuba, assim, Caraguatatuba, todo o litoral, é os grileiro. Então isso foi bom. Então o meio ambiente ele foi bom, pelos (para os) grileiros que apareceram. Mas pela classe que sempre respeitaram o meio ambiente, eles prejudicaram. Que é os pescador... é os antigo... é o roceiro, é o cara que sempre criou o filho com farinha e palmito... entendeu?" (DE GÓIS, 2016, comunicação pessoal)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro Walter Alves de Lima - Vila Nova - Iguape


PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 02 em 27 de julho de 2018
MESTRE CANOEIRO:
Walter Alves de Lima, BAIRRO DE VILA NOVA, IGUAPE, SP
IDADE: 71 ANOS
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues
Vila Nova - Iguape. Fonte: http://www.artesol.org.br/novo/conteudos/visualizar/Iguape-SP1
                1.Walter Alves de Lima nasceu em Prelado-Juréia, Iguape em 1947 (71 anos). Para ele, a construção de canoa caiçara é uma arte transmitida de pai para filho. Seu pai já construía canoas grandes para o transporte de arroz. O irmão e seu filho também fazem canoa. Ele começou a ajudar pai quando era criança, com 7 anos. Até os 12 anos seu pai explicava para ele as técnicas da construção mas com 12 anos ajudava o pai sem pedir explicações pois já tinha aprendido e trabalhava só.
                2.As madeiras mais usadas eram o guanandi, a timbuva e o cedro, esta mais rara na região.     
                3. A escolha da árvore era fundamental dependendo do tamanho e da largura da canoa que se quer construir e da disponibilidade de tronco suficiente para o que se quer. Um critério importante para a escolha da arvore era sua posição ao sol (nascente ou poente).
                4.Processo de construção: o básico era o processo de mutirão pelo qual parentes e conhecidos ajudavam a derrubar e depois transportar o tronco para o rancho onde era feito o acabamento.
                O inicio era o desbaste da madeira na parte inferior da canoa que se encontrava virada para cima. Aí se empregavam três linhas de proa à popa e faziam as patilhas (popa e proa).
                Depois desviravam o tronco para fazer a parte de dentro, usando inicialmente machado para desbastar a madeira e depois o enxó e plaina para acabamento. No bojo de cima usavam duas linhas. Mas, segundo Walter Lima, o “importante é o mestre ter as linhas nos olhos e isso só se consegue com a experiência”.
                Para acertar espessura fazem-se três furos no fundo da canoa.
5.Uso de v ela. Quando criança ele ainda viu o uso de vela na canoa caiçara. Seu uso foi desaparecendo com o uso do motor de popa e depois motor de centro.
6.Outros mestres canoeiros do lugar: Adelson, seu primo e Odilo Mendonça.
7.Uso da canoa: além do uso na pesca e transporte de mercadoria e pessoas a canoa era usada no transporte dos integrantes dos grupos do Reisado, no período do Natal e do Divino, na Festa do Espírito Santo. Seu Walter ainda toca rabeca na festa de Reis e seu filho Ordilei constrói rabecas e ensina a construí-las na Ilha Comprida.   

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Escama "estratégica" da Tainha

Uma das crenças mais difundidas a respeito da tainha é que ela seria um peixe abençoado por ter a imagem de Nossa Senhora estampada em suas escamas.
Fora esta crença popular a escama da tainha ainda tem uma função "estratégica" entre o rol de artimanhas dos pescadores.
Um dos principais fatores que garante o sucesso de uma pescaria tradicional é o "segredo" com respeito ao local onde está o cardume de Tainhas. Geralmente este cardume é chamado de "o peixe" e saber onde "o peixe" está, onde "o peixe dorme" e qual a quantidade do peixe é fundamental para o sucesso da pescaria.
Então durante a Época da Tainha, é comum os pescadores utilizarem as mais diversas estratégias para garantir o "segredo" sobre "o peixe". Então é muito comum entre os pescadores de uma localidade, mentir, enganar, despistar sobre o resultado de uma pescaria a fim de não revelar o "segredo" para os outros pescadores.
É aí que as escamas da tainha são utilizadas para cumprir esta função estratégica.
Muitas vezes quando o pescador quer dar a impressão de que matou muita tainha na noite anterior (mesmo tendo matado 2 ou 3), ele limpa as tainhas e junta as escamas e o sangue delas para espalha-los ao redor da canoa, por cima da rede e na proa da canoa, passando assim a impressão de que matou muitas tainhas.
Já com o intuito contrário, se ele matou muita tainha e quer esconder o sucesso da pescaria para que seus "concorrentes" não se dirijam para o pesqueiro utilizado na noite anterior, ele limpa todas as escamas de dentro da canoa, ou que tenham caído no chão, e lava todo o sangue de tainha que esteja na rede ou na proa da canoa.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro João Francisco - Mamanguá.

PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 01 em 5 de maio 2018
MESTRE CANOEIRO:
JOÃO FRANCISCO DO NASCIMENTO, BAIRRO DO BAIXIO, MAMANGUÁ, PARATY
IDADE: 60 ANOS, CASADO
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA E PESCADOR
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues

Inicio da atividade de construtor de canoas com cerca de 20-25 anos, observando o Mestre Leonel, seu primo do Bairro do Cruzeiro em Mamanguá. “Só via ele trabalhá na canoa, mas não perguntava nada.” Depois começou a trabalhar na profissão com o irmão mais velho, seu Acácio, que já sabia fazer a canoa. A primeira canoa foi feita com “timbuíva” com 50-60 cm. de boca.
As madeiras mais usadas eram as de timbuíva, ingá ( a mais usada,  pesada) caquera,  canafístula, jequitibá (para canoas maiores, com motor), guapuruvú ( madeira leve, dura menos que as outras).

Ferramentas usadas: machado, enxó, plaina, arco de pua

Processo de produção:
1.Escolha da  árvore no mato.
2.Derrubada da arvore e desgalhamento, preparo do tronco para a retirada da mata e transporte até o rancho onde se continua o feitio da canoa. O transporte é feito com a ajuda de vizinhos e parentes através do mutirão
3.Nivelamento da parte superior do tronco com machado
4.Colocação da linha de centro, fixada na proa e na popa. Coloca também duas linhas laterais, uma de cada lado, retirando a casca.
5.Prepara o “bergado” ou a “subida“ da proa e da popa.
7.Vira o tronco de bruço e cavuca o miolo do tronco
8.Para medir a espessura faz três buracos no fundo dianteiro, traseiro e meio.
9.O acabamento é feito com enxó e plaina.

Destino da canoa: quase sempre para uso próprio mas pode ser vendida se houver comprador.
Mudanças na profissão.
No Saco do Mamanguá as canoas eram feitas por ele, seu irmão Acácio, seu Tonico do Fundo do Saco, o Ditinho do Baixio. Só o seu João continua, mas somente faz alguma reforma de canoa pois é aposentado e já não tem forças para o trabalho mais pesado de retirada do tronco da mata.

A partir da implantação do “ parque” (Reserva Ecológica da Juatinga) em 1992, a atividade ficou mais difícil pela proibição da  derrubada das árvores pelo órgão gestor(hoje Eneia). “A gente tirava alguma madeira pra canoa, mas ia assustado”. Só era permitido usar árvores caídas ou derrubadas pelo vento, pela idade, mas em geral a madeira já vinha com defeito, partes podres, etc. Até então a maioria das embarcações eram canoas a remo usadas na pesca, canoas bordadas com motor de centro para transporte, baleeiras compradas do sul, barcos a motor de centro e algumas poucas lanchas de alumínio, depois de fibra para transporte de turistas. O modo de vida já estava mudando, o pessoal trabalhando na construção civil e no transporte de veranistas/turistas. A lavoura foi desaparecendo junto com as casas de farinha, sobrando hoje somente uma ou duas. A pesca, apesar de ter diminuído, garante ainda a mistura na comida das famílias e alguma venda para restaurantes locais e visitantes. As mulheres também passaram a  pescar o siri com  as “fisgas” na praia ou com os “covos”, transportados em canoas e deixadas com isca para serem retirados na manhã seguinte. As mulheres também retiram a carne do siri que é vendida a restaurantes, assim como vendem ostras e mexilhões retirados das pedras das “costeiras” e vôngole retirados também pelas mulheres na maré baixa.

Futuro dos mestres e da canoa caiçara: Para seu João a canoa caiçara do Mamanguá tende a desaparecer pois os jovens não se interessam pela profissão e usam cada vez mais as lanchas de alumínio com motores maiores e mais rápidos no transporte de turistas. Alguns desses turistas, no entanto, preferem alugar os barcos de madeira com motor de centro, mais vagarosos mas que permitem apreciar a paisagem durante a viagem.
Pescador do Mamanguá em sua canoa. Foto: Paulo Nogara.


sábado, 12 de maio de 2018

Agrício Barbosa - Mestre Canoeiro Caiçara

LUTO. Mestre Agrício Barbosa, o maior expoente da Canoa Caiçara do litoral norte de SP nos deixa. 
Em cada Canoa, em cada linha, em cada aprendiz fica o legado de sua arte e sabedoria
Mestre Agricio o senhor continua em nós. (fotos: Peter Santos Németh, julho de 2010)

A enxó não diz nada
Sem o seu olhar certeiro
Que Deus lhe dê um bom lugar
Mestre Agrício canoeiro. (Fandango Bacurau)






quinta-feira, 10 de maio de 2018

For the Caiçaras, environmental laws in Brazil at odds with tradition

Top-down policies to protect the Atlantic Forest are threatening the existence of the Caiçaras, a traditional community that extends over coastal Brazil.
BY IGNACIO AMIGO ON 25 APRIL 2018
Mongabay Series: Endangered Environmentalists, Global Forests.
Link original: https://news.mongabay.com/2018/04/for-the-caicaras-environmental-laws-in-brazil-at-odds-with-tradition/

  1. The origin of the Caiçaras trace back to the early mixture of indigenous tribes, European settlers and African slaves in Brazil.
  2. For the last 300 years the Caiçaras subsisted on fishing and farming in one of the best conserved stretches of Atlantic Forest.
  3. Confined between the Atlantic Ocean and the Serra do Mar mountain range, Caiçaras lived in relative isolation until the 1970s, when the creation of the BR-101 road opened the doors to mass tourism.
  4. In just the last few decades, real estate speculation and the enforcement of strict environmental laws have threatened the Caiçara’s traditional way of life.
  5. UBATUBA, Brazil – A strip of land in southeast Brazil that straddles the space between the mountain range of Serra do Mar and the Atlantic Ocean  is arguably one of the most beautiful places in the country. Covered by exuberant Atlantic Forest, the area is also a hotspot for biodiversity. To demonstrate it, locals often leave small pieces of papaya or watermelon in plates hanging from trees. It doesn’t take long before colorful birds show up. About half of all bird types in Brazil are found in the Atlantic Forest, accounting for almost 900 species.

Parallel to the coast and the mountain range, , the BR-101 roadway leaves magnificent beaches on one side and thick, dense vegetation on the other. In this scenario of sea and forest, an early mix of European settlers, Africans slaves and indigenous people gave place to a population known as the Caiçaras, who until recently lived here in relative isolation, subsisting on fishing and farming. Things started to change in the 1970’s with the opening of the BR-101, which paved the way for the arrival of mass tourism and real estate speculators.

During the early days, many Caiçaras were expelled from their lands or forced to sell them on the cheap.

Since then, the human impact on the region has rapidly increased, and in the last decades new regulations have been created to protect the region’s impressive biodiversity. However, the creation of these new protected areas did not take into account the particularities of the people who lived there.

Juninho Caiçara, a member of the Traditional Communities Forum and Caiçara activist, illustrates this with an example involving the traditional itinerant agriculture that was practiced in the region. In this type of agriculture, a plot of land is planted for a few years and when the soil is exhausted the farmer moves into another area, leaving the plot to restore its natural vegetation. However, according to environmental regulations, native vegetation cannot be cleared.

“The only way to keep the land for agriculture is by keeping it clear,” says Juninho. “But if you do that, the soil doesn’t recover. It’s an anti-ecological law!”

Juninho stresses that this kind of agriculture is very similar to agroforestry, with different types of plants, roots and trees in the same plot. “If you see it at a distance you may think is just another patch of forest,” he explained.

A similar problem affects the construction of the Caiçara traditional canoes, which they use on their fishing expeditions. Their unique design evolved from the original Tupinambá canoe as it incorporated elements from European cultures. The canoes and the way they are crafted are in the process of being certified as part of the Intangible Cultural Heritage of Brazilian culture. However, getting the wood needed to build the canoes is becoming increasingly harder.

“When we build a canoe, we use an old tree whose offspring are under the canopy, waiting to see the light and become what the old tree was,” explains Juninho. “These are trees that have completed their life cycle, that have fed many animals, that have fertilized the soil. Sometimes they are about to die and sometimes they are already dead.”
The rebec (called “rabeca” in Portuguese) is a musical instrument used in the Caiçara traditional music. Courtesy personal collection of Mario Gato and Ana Carolina Barbosa.
Juninho learned how to build canoes from his father and grandfather, and he is now passing on that knowledge to his son. Access to the tradition for the next generation is shaky, though.

But according to many Caiçaras, getting permission to use the wood, even if the tree has fallen by natural means, is a bureaucratic nightmare.

Top-down policies
Alpina Begossi is a researcher from the University of Campinas who has been studying Caiçara populations for more than 30 years. Begossi says that top-down policies and authoritarian decisions are to blame for the current predicament.

“There is not a real management, there is no zoning,” Begossi said. “The only thing we have are prohibitions,” Begossi said.

Some of these restrictions and regulations that affect the planting of cassava (Manihot esculenta), a plant whose tuber is a staple in Brazilian diet. Research has shown that the Caiçara management is responsible for the development of about 50 different cassava strains. This diversity is a safeguard for farmers, as it provides them with different breeds to choose to face changing environmental conditions.

“When an environmental agency comes, and without a word simply prohibits planting cassava, it is not only impacting the food of a low-income population, it is also affecting [the region’s] biological diversity,” says Begossi.
The traditional Caiçara canoe is in the process of becoming part of the Intangible Cultural Heritage of Brazilian culture. But building the canoes is becoming increasingly difficult due to bureaucratic setbacks to obtain the wood. Courtesy personal collection of Mario Gato and Ana Carolina Barbosa.
Many believe that traditional knowledge is being overlooked by the environmental agencies, despite the fact that these populations have been living in the region for centuries.

“This land contains what is left of the Atlantic Forest. If we didn’t know how to manage it, it wouldn’t be there,” reasons Juninho. “This is where the colonization of Brazil started.”

By having their way of life hampered, Caiçaras feel their own cultural existence is being threatened. Mario Gato, director of the Caiçara Museum of Ubatuba, points out that many of the traditional words with which Caiçaras described their natural world are rapidly disappearing.

“Instead of ‘caraguatá’, we are now told we have to say ‘bromélia’ [bromeliad]. And instead of ‘pitosaci’ they say we have to say ‘libélula’ [dragonfly]. These are foreign words to us,” Gato says.

Words such as these – some of Tupi origin, others with roots in Africa or Europe – reflect the mixed origin of the Caiçaras and their traditions. In fact, adopting and adapting elements from other cultures is one of their most salient features. For example, the Caiçara traditional music, called fandango, takes its name – and probably its origin – from a Spanish and Portuguese dance, but has evolved into something different and unique.

Other traditions at risk
Joel Teixeira had been fishing in the vicinity of Anchieta Island for more than 40 years, when suddenly one day he was told he could not do it anymore. That same week, Teixeira appealed to the courts and a judge ruled in his favor, giving him permission to continue his activity. The judge considered that, since Teixeira was an artisanal fisherman who relied on fishing for his subsistence, the prohibition could cause him “losses difficult to repair.” Despite this, just a few days later, Teixeira’s fishing gear was seized and he now faces charges for fishing in an environmentally protected area.

Teixeira’s story was related by Betum, another fisherman from the region who also runs a bar in the beautiful beach of Prumirim, 12 miles (20 km) from the center of Ubatuba, in the state of São Paulo.

“If they keep this way, in 20 years there won’t be anything left from our tradition,” Betum said.

The equipment used by Teixeira and other fishermen to catch their fish is a trap called ‘floating fence’, which was introduced in the region a century ago by Japanese immigrants.

In the last years, Gato and other Caiçaras have strengthened their ties to protect what is left of their tradition, and they regularly organize events to promote the Caiçara culture. Through organizations such as the Traditional Communities Forum, they are expanding their presence in the political arena, and increasing their agency in the negotiations of the issues that concern them.

Success stories
Is it possible to protect the environment while allowing local communities to prosper? Juninho Caiçara certainly thinks so. In fact, he argues that one cannot exist without the other.

“There is no environmental protection if there is not a socio-environmental approach,” Juninho says. “Traditional communities, with their ancestral practices, are a guarantee of environmental conservation.”
Ocean and forests extend over all the Caiçara land along the southeast coast of Brazil. Photo by Ignacio Amigo/Mongabay.
Begossi also believes that Caiçara populations could play an important role in the preservation of the region’s biodiversity. She has previously suggested that artisanal fishermen – such as Teixeira and Betum – could have exclusive rights for fishing in some places in exchange for tasks such as monitoring fish stocks. The fishermen could also receive payments for ecosystem services as a compensation for not fishing during specific periods.

But things don’t need to be created from scratch and there are already some success examples of peaceful and fruitful coexistence of traditional population in protected areas in Brazil. Begossi cites the Sustainable Development Reserve of Mamirauá, in the Amazon basin, were local populations, scientists and the government joined efforts to ensure that everyone’s best interests were considered in the creation of the reserve. According to her, a similar model could be followed in the Caiçara territory.

“What’s surprising is how remote places in the Amazon have ended up being much more successful in terms of conservation and community organization than the Caiçaras, who are between Rio and São Paulo,” Begossi said. “It’s unbelievable.”

The other side
Environmental regulations depend on different administrative spheres. We contacted by e-mail the Secretariat of Extractivism and Rural Sustainable Development from the Ministry of the Environment, but didn’t obtain a reply.

The department in charge of the protected areas of the State of São Paulo, the Forest Foundation, answered our queries by e-mail. They stressed that the environmental laws exist “to guarantee the protection of natural resources, such as drinking water, biodiversity, dynamic balance and the slope stability, among others.”

About the difficulties faced by the Caiçaras to find wood for their canoes, the Forest Foundation states that the government is “working on the creation of a new regulation to simplify the procedures to obtain woods for the specific purpose of building canoes.”

Regarding the shifting agriculture, they note that “there are different laws that affect the native vegetation and protected areas, and all of them include the possibility of use as well as restrictions. The resolution SMA 27/2010, for example, establishes procedures and simplifies the licensing.”

That same resolution also applies to the cassava plantations. In this regard, according to the agency, “There are no prohibitions, but regulations. Traditional communities can plant, as long as they fulfill the requirements of the SMA 27/2010.”

Finally, the Forest Foundation states that they support the use of floating fences for fishing, describing them as a “sustainable art of fishing.” According to the them, “there are dozens of fences in the North Coast, whose activity is regulated by the Forest Foundation through the Marine Environment Protection Area of the North Coast.”

However, the note states that in the specific case of Anchieta Island, a federal legislation prohibits all fishing in the area, except for scientific purposes. The restriction is related to the area’s status as a marine protected area .

Banner image: The traditional Caiçara canoe is in the process of becoming part of the Intangible Cultural Heritage of Brazilian culture. But building the canoes is becoming increasingly difficult due to bureaucratic setbacks to obtain the wood. Courtesy personal collection of Mario Gato and Ana Carolina Barbosa.

Ignacio Amigo is a freelance journalist based in São Paulo, Brazil. You can find him on Twitter at @IgnacioAmigoH.