terça-feira, 21 de agosto de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro Walter Alves de Lima - Vila Nova - Iguape


PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 02 em 27 de julho de 2018
MESTRE CANOEIRO:
Walter Alves de Lima, BAIRRO DE VILA NOVA, IGUAPE, SP
IDADE: 71 ANOS
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues
Vila Nova - Iguape. Fonte: http://www.artesol.org.br/novo/conteudos/visualizar/Iguape-SP1
                1.Walter Alves de Lima nasceu em Prelado-Juréia, Iguape em 1947 (71 anos). Para ele, a construção de canoa caiçara é uma arte transmitida de pai para filho. Seu pai já construía canoas grandes para o transporte de arroz. O irmão e seu filho também fazem canoa. Ele começou a ajudar pai quando era criança, com 7 anos. Até os 12 anos seu pai explicava para ele as técnicas da construção mas com 12 anos ajudava o pai sem pedir explicações pois já tinha aprendido e trabalhava só.
                2.As madeiras mais usadas eram o guanandi, a timbuva e o cedro, esta mais rara na região.     
                3. A escolha da árvore era fundamental dependendo do tamanho e da largura da canoa que se quer construir e da disponibilidade de tronco suficiente para o que se quer. Um critério importante para a escolha da arvore era sua posição ao sol (nascente ou poente).
                4.Processo de construção: o básico era o processo de mutirão pelo qual parentes e conhecidos ajudavam a derrubar e depois transportar o tronco para o rancho onde era feito o acabamento.
                O inicio era o desbaste da madeira na parte inferior da canoa que se encontrava virada para cima. Aí se empregavam três linhas de proa à popa e faziam as patilhas (popa e proa).
                Depois desviravam o tronco para fazer a parte de dentro, usando inicialmente machado para desbastar a madeira e depois o enxó e plaina para acabamento. No bojo de cima usavam duas linhas. Mas, segundo Walter Lima, o “importante é o mestre ter as linhas nos olhos e isso só se consegue com a experiência”.
                Para acertar espessura fazem-se três furos no fundo da canoa.
5.Uso de v ela. Quando criança ele ainda viu o uso de vela na canoa caiçara. Seu uso foi desaparecendo com o uso do motor de popa e depois motor de centro.
6.Outros mestres canoeiros do lugar: Adelson, seu primo e Odilo Mendonça.
7.Uso da canoa: além do uso na pesca e transporte de mercadoria e pessoas a canoa era usada no transporte dos integrantes dos grupos do Reisado, no período do Natal e do Divino, na Festa do Espírito Santo. Seu Walter ainda toca rabeca na festa de Reis e seu filho Ordilei constrói rabecas e ensina a construí-las na Ilha Comprida.   

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Escama "estratégica" da Tainha

Uma das crenças mais difundidas a respeito da tainha é que ela seria um peixe abençoado por ter a imagem de Nossa Senhora estampada em suas escamas.
Fora esta crença popular a escama da tainha ainda tem uma função "estratégica" entre o rol de artimanhas dos pescadores.
Um dos principais fatores que garante o sucesso de uma pescaria tradicional é o "segredo" com respeito ao local onde está o cardume de Tainhas. Geralmente este cardume é chamado de "o peixe" e saber onde "o peixe" está, onde "o peixe dorme" e qual a quantidade do peixe é fundamental para o sucesso da pescaria.
Então durante a Época da Tainha, é comum os pescadores utilizarem as mais diversas estratégias para garantir o "segredo" sobre "o peixe". Então é muito comum entre os pescadores de uma localidade, mentir, enganar, despistar sobre o resultado de uma pescaria a fim de não revelar o "segredo" para os outros pescadores.
É aí que as escamas da tainha são utilizadas para cumprir esta função estratégica.
Muitas vezes quando o pescador quer dar a impressão de que matou muita tainha na noite anterior (mesmo tendo matado 2 ou 3), ele limpa as tainhas e junta as escamas e o sangue delas para espalha-los ao redor da canoa, por cima da rede e na proa da canoa, passando assim a impressão de que matou muitas tainhas.
Já com o intuito contrário, se ele matou muita tainha e quer esconder o sucesso da pescaria para que seus "concorrentes" não se dirijam para o pesqueiro utilizado na noite anterior, ele limpa todas as escamas de dentro da canoa, ou que tenham caído no chão, e lava todo o sangue de tainha que esteja na rede ou na proa da canoa.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro João Francisco - Mamanguá.

PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 01 em 5 de maio 2018
MESTRE CANOEIRO:
JOÃO FRANCISCO DO NASCIMENTO, BAIRRO DO BAIXIO, MAMANGUÁ, PARATY
IDADE: 60 ANOS, CASADO
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA E PESCADOR
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues

Inicio da atividade de construtor de canoas com cerca de 20-25 anos, observando o Mestre Leonel, seu primo do Bairro do Cruzeiro em Mamanguá. “Só via ele trabalhá na canoa, mas não perguntava nada.” Depois começou a trabalhar na profissão com o irmão mais velho, seu Acácio, que já sabia fazer a canoa. A primeira canoa foi feita com “timbuíva” com 50-60 cm. de boca.
As madeiras mais usadas eram as de timbuíva, ingá ( a mais usada,  pesada) caquera,  canafístula, jequitibá (para canoas maiores, com motor), guapuruvú ( madeira leve, dura menos que as outras).

Ferramentas usadas: machado, enxó, plaina, arco de pua

Processo de produção:
1.Escolha da  árvore no mato.
2.Derrubada da arvore e desgalhamento, preparo do tronco para a retirada da mata e transporte até o rancho onde se continua o feitio da canoa. O transporte é feito com a ajuda de vizinhos e parentes através do mutirão
3.Nivelamento da parte superior do tronco com machado
4.Colocação da linha de centro, fixada na proa e na popa. Coloca também duas linhas laterais, uma de cada lado, retirando a casca.
5.Prepara o “bergado” ou a “subida“ da proa e da popa.
7.Vira o tronco de bruço e cavuca o miolo do tronco
8.Para medir a espessura faz três buracos no fundo dianteiro, traseiro e meio.
9.O acabamento é feito com enxó e plaina.

Destino da canoa: quase sempre para uso próprio mas pode ser vendida se houver comprador.
Mudanças na profissão.
No Saco do Mamanguá as canoas eram feitas por ele, seu irmão Acácio, seu Tonico do Fundo do Saco, o Ditinho do Baixio. Só o seu João continua, mas somente faz alguma reforma de canoa pois é aposentado e já não tem forças para o trabalho mais pesado de retirada do tronco da mata.

A partir da implantação do “ parque” (Reserva Ecológica da Juatinga) em 1992, a atividade ficou mais difícil pela proibição da  derrubada das árvores pelo órgão gestor(hoje Eneia). “A gente tirava alguma madeira pra canoa, mas ia assustado”. Só era permitido usar árvores caídas ou derrubadas pelo vento, pela idade, mas em geral a madeira já vinha com defeito, partes podres, etc. Até então a maioria das embarcações eram canoas a remo usadas na pesca, canoas bordadas com motor de centro para transporte, baleeiras compradas do sul, barcos a motor de centro e algumas poucas lanchas de alumínio, depois de fibra para transporte de turistas. O modo de vida já estava mudando, o pessoal trabalhando na construção civil e no transporte de veranistas/turistas. A lavoura foi desaparecendo junto com as casas de farinha, sobrando hoje somente uma ou duas. A pesca, apesar de ter diminuído, garante ainda a mistura na comida das famílias e alguma venda para restaurantes locais e visitantes. As mulheres também passaram a  pescar o siri com  as “fisgas” na praia ou com os “covos”, transportados em canoas e deixadas com isca para serem retirados na manhã seguinte. As mulheres também retiram a carne do siri que é vendida a restaurantes, assim como vendem ostras e mexilhões retirados das pedras das “costeiras” e vôngole retirados também pelas mulheres na maré baixa.

Futuro dos mestres e da canoa caiçara: Para seu João a canoa caiçara do Mamanguá tende a desaparecer pois os jovens não se interessam pela profissão e usam cada vez mais as lanchas de alumínio com motores maiores e mais rápidos no transporte de turistas. Alguns desses turistas, no entanto, preferem alugar os barcos de madeira com motor de centro, mais vagarosos mas que permitem apreciar a paisagem durante a viagem.
Pescador do Mamanguá em sua canoa. Foto: Paulo Nogara.


sábado, 12 de maio de 2018

Agrício Barbosa - Mestre Canoeiro Caiçara

LUTO. Mestre Agrício Barbosa, o maior expoente da Canoa Caiçara do litoral norte de SP nos deixa. 
Em cada Canoa, em cada linha, em cada aprendiz fica o legado de sua arte e sabedoria
Mestre Agricio o senhor continua em nós. (fotos: Peter Santos Németh, julho de 2010)

A enxó não diz nada
Sem o seu olhar certeiro
Que Deus lhe dê um bom lugar
Mestre Agrício canoeiro. (Fandango Bacurau)






quinta-feira, 10 de maio de 2018

For the Caiçaras, environmental laws in Brazil at odds with tradition

Top-down policies to protect the Atlantic Forest are threatening the existence of the Caiçaras, a traditional community that extends over coastal Brazil.
BY IGNACIO AMIGO ON 25 APRIL 2018
Mongabay Series: Endangered Environmentalists, Global Forests.
Link original: https://news.mongabay.com/2018/04/for-the-caicaras-environmental-laws-in-brazil-at-odds-with-tradition/

  1. The origin of the Caiçaras trace back to the early mixture of indigenous tribes, European settlers and African slaves in Brazil.
  2. For the last 300 years the Caiçaras subsisted on fishing and farming in one of the best conserved stretches of Atlantic Forest.
  3. Confined between the Atlantic Ocean and the Serra do Mar mountain range, Caiçaras lived in relative isolation until the 1970s, when the creation of the BR-101 road opened the doors to mass tourism.
  4. In just the last few decades, real estate speculation and the enforcement of strict environmental laws have threatened the Caiçara’s traditional way of life.
  5. UBATUBA, Brazil – A strip of land in southeast Brazil that straddles the space between the mountain range of Serra do Mar and the Atlantic Ocean  is arguably one of the most beautiful places in the country. Covered by exuberant Atlantic Forest, the area is also a hotspot for biodiversity. To demonstrate it, locals often leave small pieces of papaya or watermelon in plates hanging from trees. It doesn’t take long before colorful birds show up. About half of all bird types in Brazil are found in the Atlantic Forest, accounting for almost 900 species.

Parallel to the coast and the mountain range, , the BR-101 roadway leaves magnificent beaches on one side and thick, dense vegetation on the other. In this scenario of sea and forest, an early mix of European settlers, Africans slaves and indigenous people gave place to a population known as the Caiçaras, who until recently lived here in relative isolation, subsisting on fishing and farming. Things started to change in the 1970’s with the opening of the BR-101, which paved the way for the arrival of mass tourism and real estate speculators.

During the early days, many Caiçaras were expelled from their lands or forced to sell them on the cheap.

Since then, the human impact on the region has rapidly increased, and in the last decades new regulations have been created to protect the region’s impressive biodiversity. However, the creation of these new protected areas did not take into account the particularities of the people who lived there.

Juninho Caiçara, a member of the Traditional Communities Forum and Caiçara activist, illustrates this with an example involving the traditional itinerant agriculture that was practiced in the region. In this type of agriculture, a plot of land is planted for a few years and when the soil is exhausted the farmer moves into another area, leaving the plot to restore its natural vegetation. However, according to environmental regulations, native vegetation cannot be cleared.

“The only way to keep the land for agriculture is by keeping it clear,” says Juninho. “But if you do that, the soil doesn’t recover. It’s an anti-ecological law!”

Juninho stresses that this kind of agriculture is very similar to agroforestry, with different types of plants, roots and trees in the same plot. “If you see it at a distance you may think is just another patch of forest,” he explained.

A similar problem affects the construction of the Caiçara traditional canoes, which they use on their fishing expeditions. Their unique design evolved from the original Tupinambá canoe as it incorporated elements from European cultures. The canoes and the way they are crafted are in the process of being certified as part of the Intangible Cultural Heritage of Brazilian culture. However, getting the wood needed to build the canoes is becoming increasingly harder.

“When we build a canoe, we use an old tree whose offspring are under the canopy, waiting to see the light and become what the old tree was,” explains Juninho. “These are trees that have completed their life cycle, that have fed many animals, that have fertilized the soil. Sometimes they are about to die and sometimes they are already dead.”
The rebec (called “rabeca” in Portuguese) is a musical instrument used in the Caiçara traditional music. Courtesy personal collection of Mario Gato and Ana Carolina Barbosa.
Juninho learned how to build canoes from his father and grandfather, and he is now passing on that knowledge to his son. Access to the tradition for the next generation is shaky, though.

But according to many Caiçaras, getting permission to use the wood, even if the tree has fallen by natural means, is a bureaucratic nightmare.

Top-down policies
Alpina Begossi is a researcher from the University of Campinas who has been studying Caiçara populations for more than 30 years. Begossi says that top-down policies and authoritarian decisions are to blame for the current predicament.

“There is not a real management, there is no zoning,” Begossi said. “The only thing we have are prohibitions,” Begossi said.

Some of these restrictions and regulations that affect the planting of cassava (Manihot esculenta), a plant whose tuber is a staple in Brazilian diet. Research has shown that the Caiçara management is responsible for the development of about 50 different cassava strains. This diversity is a safeguard for farmers, as it provides them with different breeds to choose to face changing environmental conditions.

“When an environmental agency comes, and without a word simply prohibits planting cassava, it is not only impacting the food of a low-income population, it is also affecting [the region’s] biological diversity,” says Begossi.
The traditional Caiçara canoe is in the process of becoming part of the Intangible Cultural Heritage of Brazilian culture. But building the canoes is becoming increasingly difficult due to bureaucratic setbacks to obtain the wood. Courtesy personal collection of Mario Gato and Ana Carolina Barbosa.
Many believe that traditional knowledge is being overlooked by the environmental agencies, despite the fact that these populations have been living in the region for centuries.

“This land contains what is left of the Atlantic Forest. If we didn’t know how to manage it, it wouldn’t be there,” reasons Juninho. “This is where the colonization of Brazil started.”

By having their way of life hampered, Caiçaras feel their own cultural existence is being threatened. Mario Gato, director of the Caiçara Museum of Ubatuba, points out that many of the traditional words with which Caiçaras described their natural world are rapidly disappearing.

“Instead of ‘caraguatá’, we are now told we have to say ‘bromélia’ [bromeliad]. And instead of ‘pitosaci’ they say we have to say ‘libélula’ [dragonfly]. These are foreign words to us,” Gato says.

Words such as these – some of Tupi origin, others with roots in Africa or Europe – reflect the mixed origin of the Caiçaras and their traditions. In fact, adopting and adapting elements from other cultures is one of their most salient features. For example, the Caiçara traditional music, called fandango, takes its name – and probably its origin – from a Spanish and Portuguese dance, but has evolved into something different and unique.

Other traditions at risk
Joel Teixeira had been fishing in the vicinity of Anchieta Island for more than 40 years, when suddenly one day he was told he could not do it anymore. That same week, Teixeira appealed to the courts and a judge ruled in his favor, giving him permission to continue his activity. The judge considered that, since Teixeira was an artisanal fisherman who relied on fishing for his subsistence, the prohibition could cause him “losses difficult to repair.” Despite this, just a few days later, Teixeira’s fishing gear was seized and he now faces charges for fishing in an environmentally protected area.

Teixeira’s story was related by Betum, another fisherman from the region who also runs a bar in the beautiful beach of Prumirim, 12 miles (20 km) from the center of Ubatuba, in the state of São Paulo.

“If they keep this way, in 20 years there won’t be anything left from our tradition,” Betum said.

The equipment used by Teixeira and other fishermen to catch their fish is a trap called ‘floating fence’, which was introduced in the region a century ago by Japanese immigrants.

In the last years, Gato and other Caiçaras have strengthened their ties to protect what is left of their tradition, and they regularly organize events to promote the Caiçara culture. Through organizations such as the Traditional Communities Forum, they are expanding their presence in the political arena, and increasing their agency in the negotiations of the issues that concern them.

Success stories
Is it possible to protect the environment while allowing local communities to prosper? Juninho Caiçara certainly thinks so. In fact, he argues that one cannot exist without the other.

“There is no environmental protection if there is not a socio-environmental approach,” Juninho says. “Traditional communities, with their ancestral practices, are a guarantee of environmental conservation.”
Ocean and forests extend over all the Caiçara land along the southeast coast of Brazil. Photo by Ignacio Amigo/Mongabay.
Begossi also believes that Caiçara populations could play an important role in the preservation of the region’s biodiversity. She has previously suggested that artisanal fishermen – such as Teixeira and Betum – could have exclusive rights for fishing in some places in exchange for tasks such as monitoring fish stocks. The fishermen could also receive payments for ecosystem services as a compensation for not fishing during specific periods.

But things don’t need to be created from scratch and there are already some success examples of peaceful and fruitful coexistence of traditional population in protected areas in Brazil. Begossi cites the Sustainable Development Reserve of Mamirauá, in the Amazon basin, were local populations, scientists and the government joined efforts to ensure that everyone’s best interests were considered in the creation of the reserve. According to her, a similar model could be followed in the Caiçara territory.

“What’s surprising is how remote places in the Amazon have ended up being much more successful in terms of conservation and community organization than the Caiçaras, who are between Rio and São Paulo,” Begossi said. “It’s unbelievable.”

The other side
Environmental regulations depend on different administrative spheres. We contacted by e-mail the Secretariat of Extractivism and Rural Sustainable Development from the Ministry of the Environment, but didn’t obtain a reply.

The department in charge of the protected areas of the State of São Paulo, the Forest Foundation, answered our queries by e-mail. They stressed that the environmental laws exist “to guarantee the protection of natural resources, such as drinking water, biodiversity, dynamic balance and the slope stability, among others.”

About the difficulties faced by the Caiçaras to find wood for their canoes, the Forest Foundation states that the government is “working on the creation of a new regulation to simplify the procedures to obtain woods for the specific purpose of building canoes.”

Regarding the shifting agriculture, they note that “there are different laws that affect the native vegetation and protected areas, and all of them include the possibility of use as well as restrictions. The resolution SMA 27/2010, for example, establishes procedures and simplifies the licensing.”

That same resolution also applies to the cassava plantations. In this regard, according to the agency, “There are no prohibitions, but regulations. Traditional communities can plant, as long as they fulfill the requirements of the SMA 27/2010.”

Finally, the Forest Foundation states that they support the use of floating fences for fishing, describing them as a “sustainable art of fishing.” According to the them, “there are dozens of fences in the North Coast, whose activity is regulated by the Forest Foundation through the Marine Environment Protection Area of the North Coast.”

However, the note states that in the specific case of Anchieta Island, a federal legislation prohibits all fishing in the area, except for scientific purposes. The restriction is related to the area’s status as a marine protected area .

Banner image: The traditional Caiçara canoe is in the process of becoming part of the Intangible Cultural Heritage of Brazilian culture. But building the canoes is becoming increasingly difficult due to bureaucratic setbacks to obtain the wood. Courtesy personal collection of Mario Gato and Ana Carolina Barbosa.

Ignacio Amigo is a freelance journalist based in São Paulo, Brazil. You can find him on Twitter at @IgnacioAmigoH.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

CAIÇARA – A luta do Velho Pescador

CAIÇARA – A luta do Velho Pescador - (tirado de uma postagem da internet)

A Cultura Caiçara originou-se da miscigenação Cultural do Branco Colonizador, Índio e do Negro escravo nas terras hora colonizadas pelos Europeus, em nossa região, particularmente, pelos Portugueses, Franceses e algumas famílias Inglesas. Uma cultura ímpar, que ao longo de várias décadas de história de povoamento do nosso litoral se adaptou em um convívio harmonioso e cúmplice com a Mata, nascentes que brotam de olhos d’água da exuberante Mata Atlântica, com o Mar que é o sentido maior de suas vidas, onde tira dele o alimento, a lida com as mudanças do clima e observa-se as horas, dias e anos de uma vida costurada junto as redes de pesca.
Ser caiçara, é respeitar o tempo da natureza, é observar o desabrochar das flores, a mudança súbita do tempo e suas estações. É ter a sabedoria de caminhar em consonância com o desenrolar da Mãe Natureza e ter a certeza de que ela dita o tempo de plantar, colher, podar e tirar de sua criação o alimento que irá manter viva a esperança de um Povo que aprendeu a viver entre a Serra e o Mar observando de um modo único a vida e sua passagem.
Dentre as atividades de convívio com a natureza, o Caiçara desenvolveu a técnica da pesca, aprendida com os Índios, que em redes, varas, linhas e outros métodos que não estão em livros, há centenas de anos ele faz perpetuar uma herança que alimentou o corpo e a alma e aos poucos vai se apagando e ficando cada dia mais saudosista e certamente já aparecem em livros para dizer que “um dia em um lance de rede o caiçara do Itaguá matou alguns milhares de tainha”.
Para o Homem do Mar, preparar seus apetrechos de pesca é um ritual de sabedoria e zelo e de profundo respeito à criação e às forças da natureza.
O Homem do Mar é conhecedor das mudanças do tempo, da época da desova, da melhor corda para se costurar sua rede, das correntes que vem de leste ou de sul, mas sobremaneira ele reconhece que o Mar é bondoso e maior que suas necessidades e por ele o Pescador tem profunda admiração e respeito.
Seu Joel. Foto de internet
Há 67 anos, um caiçara nascido em Trindade, comunidade que faz divisa com Ubatuba, pertencente ao Estado do Rio de Janeiro, aprendeu desde menino às técnicas de pesca com seu pai e ao longo dos dias que viriam tornou-se um pescador e dedicou sua vida ao Mar, dele alimentou suas necessidades, de sua esposa e de 4 filhos.
Joel Teixeira há 43 anos dedica sua vida de pescador em um cerco de pesca localizado na Praia do Sul da Ilha Anchieta, hoje com esse nome, mas para os antigos pescadores de Ubatuba sempre será a Ilha dos Porcos.
Meu Deus, como é bonito de se ver um homem com simplicidade, garra e força, dedicar a maior parte de sua vida ao ofício da pesca. Para aqueles que o conhecem, jovens e idosos pescadores, o “Seu” Joel faz isso com prazer, sabedoria, amor e muito respeito pela Mãe Natureza.
Um homem que não teve condições de estudo em sua mocidade, tempos idos e difíceis de se viver em um litoral afastado e esquecido entre a mata e o mar. Mas tais dificuldades nunca fizeram um caiçara se esmorecer frente suas dificuldades, ao contrário, sempre agradeceu a Deus por sua saúde e mais um dia de vida, que para uma pessoa simples é a maior riqueza que um homem pode ter.
Por falar em juventude, aos 23 anos o “Seu” Joel inicia então sua dura jornada de deixar no continente sua família e se lançar ao mar, onde no cerco da Praia do Sul diariamente la ele estava consertando uma rede, limpando a praia, recebendo poucos visitantes que por lá passavam e cúmplice na manutenção da riqueza ambiental do lugar.
O tempo é Rei e assim rege nossos dias. Passaram-se os anos de pesca do “Seu” Joel e 7 anos depois, em 1977, foi criado o Parque Estadual da Serra do Mar e a Ilha Anchieta torna-se Unidade de Conservação.
Com a criação da Unidade, Leis foram impostas para o uso da área que passa a ser do Governo do Estado de São Paulo, mas que não vieram interferir no trabalho do Homem do Mar, onde as Leis encontraram no simples pescador um apoio às suas pretensões de preservação ambiental e o convívio harmonioso com as tradições caiçaras, nesse caso, o cerco de Pesca Artesanal. E aí a vida continuou a passar entre o mar, a mata e agora juntamente com as Leis.

É certo e inquestionável a necessidade de Preservação Ambiental dos Ecossistemas que compõe o Bioma Mata Atlântica, sendo ele o possuidor da maior biodiversidade do Planeta e que aparece entre os 5 mais ameaçados de desaparecerem.
Nesse diapasão, as comunidades ao longo do litoral Paulista vêm se adequando e reaprendendo a viver e conviver com o meio ambiente e as Leis criadas para a defesa dessa complexa e rica forma de vida.
Temos visto que não foi uma simples tarefa ao longo desses 36 anos de tombamento da Serra do Mar, mas é observado que o povo caiçara tem se esforçado e muitas vezes, com imposições desiguais, tem aceitado a reaprender um novo modo de vida frente à natureza e sua cultura de convívio Homem - Natureza trazida a muitas décadas de história.
Hoje, as grandes discussões não só estão em torno da preservação ambiental, mas sobremaneira na preservação do cidadão, de sua cultura, de sua vida, da sua espiritualidade e principalmente em sua dignidade de vida.
Assim, há que se observar que muito tem se avançado em uma legislação ambiental, mas pouco tem se feito pelas comunidades inseridas em Unidades de Conservação, especificamente voltemos à vida do “Seu” Joel.
De 2012 para cá, uma onda de conversas tomou conta da vida do velho Pescador, hoje com seus cabelos brancos e muitas incertezas de sua permanência no cerco da Praia do Sul, culminando com uma notificação da Fundação Florestal datada de 7 de janeiro desse ano, onde pede ao Velho Pescador que cesse em 5 dias suas atividades pesqueiras.
Triste, sentido e humilhado em sua vida dedicada ao mar e que hoje figura como um infrator, pessoa rejeitada em seu espaço de trabalho e porque não dizer marginalizado em seu ofício e dedicação integral a tudo que aprendeu na vida que foi a pesca.
Começa então a ser “costurada” uma nova história ao Homem do Mar. De posse dessa intimação para desocupar o cerco e retirar da água seus apetrechos, o tempo para, o chão se abre e o que era belo passa a ser nebuloso e sem sentido.
Buscando junto aos amigos uma explicação do que de fato começa a se escrever em sua vida, o velho pescador conseguiu na justiça uma liminar para que continuasse a pescar até que fosse julgada em caráter definitivo sua permanência no cerco, e que o Estado ou a Nação explicasse a ele e a população o porquê do fechamento de mais um cerco nas águas de Ubatuba e o fim de décadas de trabalho e lida com o mar de um Pescador.
No dia 31 do mesmo mês a Justiça de Ubatuba defere o pedido do “Seu” Joel e lhe garante o direito de continuar a pescar, devolvendo ao Pescador novamente o prazer do seu trabalho e o sustento de sua família e companheiros de pesca.
Mas infelizmente certos homens públicos perdem a noção e o poder de seus cargos, e no dia 21 de fevereiro, um servidor do IBAMA retira da água as cordas do cerco do Velho Pescador e como justificativa ainda diz que o Juiz de Direito da cidade era incompetente para determinar ordem em área Federal.  Meu Deus e agora?!
E os dias vão se passando, quase 6 meses e o “Seu” Joel não pode pescar, inclusive muito do seu investimento retirado pelo IBAMA, sabe-se lá onde estão guardados nesse momento.
Aí, as Leis que vieram para caminhar juntamente com as comunidades tradicionais, hoje assombram muito dos verdadeiros donos das terras entre a Serra e o Mar que é o Caiçara.
“Um dia lá em 2007, em uma reunião do Conselho que resolve as coisas na Ilha Anchieta, coloquei meu dedo em um documento que deram o nome de Termo de Compromisso... disseram pra mim que os advogados da Fundação Florestal estavam cientes e que concordavam com o documento, que vinha escrito que eu permaneceria no Sul, onde ali eu fazia a única coisa que eu aprendi na vida que era pescar... disseram que eu seria responsável em cuidar da Praia do Sul, isso eu sempre fiz mesmo e que eu iria participar do turismo sustentável do Parque, que era uma das funções dele...”, comenta o Pescador de suas lembranças frescas de reuniões, leis, conversas, promessas, sabe lá o que mais dizer e principalmente acreditar.
Hoje o “Seu” Joel ainda não pode pescar e a cada dia que passa vê que a possibilidade de retornar ao seu cerco da Praia do Sul da Ilha Anchieta vai ficando mais distante.
O que pensar, o que fazer já nessa idade da vida a não ser pescar? Perguntas sem respostas, burocratas impacientes, mal educados e até grosseiros se esquivam de sentarem em uma mesa coesa, responsável e definitivamente resolver a vida do Homem do mar.
Não, não mesmo, pois o que mais importa no momento é discutir se as águas que circulam a Ilha dos Porcos é de responsabilidade do Estado ou da Nação. O mais importante agora é se “discutir” a elaboração do Plano de Manejo da APA Marinha do Litoral Norte.
Esse sim é um documento que merece atenção, reuniões de horas a fio, gastos de dinheiro público com lanches, alimentação, transporte, contratação de profissionais e tantas outras necessidades que aparecem como urgentes de serem resolvidas.
Pois é “Seu” Joel, esse é o Progresso que atropela a vida e a cultura de um povo, onde assim como o Senhor, tantos outros cercos que existiam em nossa costa foram ao longo dos anos desaparecendo e ficaram na história e memória dos bravos caiçaras pescadores.
Mais tenha fé, pois essa os homens das leis não terão o Poder de tirá-la do Senhor e quem sabe qualquer hora dessas eles precisem do Senhor novamente para limpar a Praia do Sul, protegê-la de caçadores, pois eles nunca tiveram esse trabalho e preocupação com o lugar.
O que resta agora é aguardar a definição da lei, dizendo sim ou não a permanência de um legítimo pescador artesanal em seu trabalho com o cerco.
Tomara que eles tenham a sensibilidade de olhar dentro dos olhos do Velho Pescador e entender o que aquilo significa para ele, ou ao menos o respeito de olhar sua história de vida e ter a certeza que foi responsável em apagar da história dos Homens do Mar páginas que começaram a ser escrita a mais de 300 anos.
                        Marcos Roberto
                     Caiçara e Jornalista

quinta-feira, 5 de abril de 2018