segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

MEXILHÕES MORREM COM ALTA TEMPERATURA DO MAR EM UBATUBA

Infelizmente é triste a notícia.
Com as altas temperaturas da água do mar em Ubatuba - SP, diversos produtores estão amargando um grande prejuízo com a mortalidade de seus mariscos.
O mexilhão não suporta a água muito quente e por volta dos 31 graus celsius eles começam a morrer.
Produtores locai estão perdendo sua produção.
Na região da Praia da Lagoinha a perda praticamente total, na Enseada ainda sobraram alguns.
Na Barra Seca sobraram apenas alguns dos mariscos juvenis.
No Itaguá foi registrada a temperatura de 29º C. em 31 de janeiro de 2019.
A última vez que tal evento havia ocorrido foi no verão do ano de 2010, quando a perda da safra foi quase total em Ubatuba.
MEXILHÕES DE UBATUBA: foto Peter Németh
O sapinhauá também morreu. Foto: Roberto Ferrero, Enseada, fev de 2019.
PRAIA DA COCANHA EM CARAGUÁ TAMBÉM HOUVE MORTANDADE
(Relato de José Luiz Alves, pesquisador e maricultor local)
"Bom dia, na Cocanha também morreram os mexilhões .
Aqui a diferença está sendo o sistema de semeadura e densidade.
Tem um maricultor que utiliza o sistema francês e o tamanho da rede é de 1,5 m, por ser curta ele fez com uma densidade alta. Esse maricultor teve mais de 50 % de mexilhões mortos nas redes.
Também alguns lançam os coletores para a captação de sementes, e só colhem no tamanho comercial.
 Essas duas situações que citei tem uma grande concentração de mexilhões e isso está favorecendo a mortandade.
No caso de quem trabalha no sistema espanhol e com uma densidade mais baixa (250 a 300 por metro), teve uma perda mais ou menos de 11,5% nas cordas.
Domingo eu tirei 39.5 kg de mexilhões. 114 mexilhões vieram mortos na corda. Naquele dia 25 mexilhões por quilo.4,6 kg de mexilhões mortos.
Podemos considerar alguns que morreram e desprenderam da corda. 
Mas se for comparar com os colegas. De todo jeito a situação está critica."

CAUSAS DE UM JANEIRO DOS MAIS QUENTES EM 76 ANOS (por CLIMATEMPO):
"O calor intenso e persistente que se sente em São Paulo neste janeiro de 2019 é resultado de uma combinação de fatores. Ainda que um novo episódio do fenômeno El Niño esteja quase configurado, desta vez não pode ser tecnicamente culpado pelo calorão paulistano.

A situação atual é parecida com a que foi observada no verão de 2014, quando uma circulação de ventos atípica predominou por mais de 30 dias sobre o país mantendo as frentes frias afastadas do litoral paulista.

Em dezembro de 2018, água do mar no meio do oceano Atlântico, ao largo da costa da Região Sudeste, estava mais fria do que o normal. Isto permitiu que o sistema de Alta Pressão Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) ficasse mais próximo do litoral da Região Sudeste em janeiro de 2019. Qualquer sistema de alta pressão atmosférica inibe a formação, a expansão e permanência das grandes áreas de instabilidade que provocam chuva generalizada. Menos nuvens, mais sol e mais calor!

A presença do sistema de ASAS afasta as frentes frias. O ar frio de origem polar passa longe do litoral paulista e não consegue chegar a São Paulo. É o vento quente, que vem das regiões tropicais do país, que tem predominado sobre a capital paulista desde o início do ano.

Do outro lado do continente, na costa sul do Chile, a água do oceano Pacífico e está mais fria do que o normal. Esta é outra situação atípica que está desviando as frentes frias, que não conseguem avançar com força sobre a Argentina." fonte: https://www.climatempo.com.br/noticia/2019/01/25/sao-paulo-vive-um-dos-meses-mais-quentes-em-76-anos-1497

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

João Batista o "Ico Paru" pescador e maricultor da Enseada

João Batista, o "Ico" é filho do João Paru e da Dona Antônia. Nascido e criado na costeira do Morro do Espia no cantinho leste da Praia da Enseada em Ubatuba. Na Ponta do Espia o pai dele tinha roça e ele cresceu cuidando da roça e pescando com o pai e os irmãos.
João Batista, o Ico (12) 9 9151- 6633. Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada.
Aliás a Turma do Paru sempre trabalhou muito forte junta.
Hoje o Ico também trabalha na sua fazenda marinha cultivando mexilhões Perna perna também conhecido como marisco de pedra.
Ele é o maior produtor da Praia da Enseada e cultiva artesanalmente com a ajuda da esposa que também ajuda nas vendas na pequena peixaria que montaram em casa.
São 5 produtores na Enseada e os cultivos ficam bem longe da areia da praia, na costeira do Morro do Espia, garantindo mais qualidade aos mariscos.
Depois de recolher as "cordas de marisco" ele pacientemente debulha e lava as conchas uma por uma até que fiquem prontas para irem pra a panela.
O Ico aprendeu a trabalhar com cultivo de marisco desde os anos 1980 quando a Enseada possuía uma grande fazenda marinha conduzida pelo Dino Garnier que chegou a produzir 150 toneladas de mexilhões por ano.
Aliás a Enseada tem uma tradição em cultivo de mexilhão desde o ano de 1968, quando o Sr. Enrique Casalderrey e o Sr. Roberto Prochaska fizeram a primeira balsa de cultivo de mexilhões, inspirada nas famosas bateas galegas de Villa Garcia de Arosa, na Espanha, terra natal do Sr. Enrique cujo pai presidiu a associação de produtores de mexilhão local. Mas isso é tema para outra história que estou documentando para uma publicação futura.
Enrique Casalderrey e a primeira balsa do Brasil. Foto: Roberto Prochaska.

Batea de Villa Garcia de Arosa. Foto: Arquivo pessoal de Enrique Casalderrey.  
Produtores de Villa Garcia de Arosa, Galicia, Espanha: Foto: Arquivo pessoal de Enrique Casalderrey

Pra quem quiser comprar mexilhões de cultivo artesanal pode ligar para o João no telefone: (12) 9 9151- 6633 e encomendar mariscos vivos, direto do produtor. Os mais frescos possível, pois são colhidos e vendidos no mesmo dia.
Essas fotos foi ele mesmo quem tirou dia 21 de janeiro de 2019 durante uma manhã de trabalho:







sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Balneabilidade na Praia da Enseada em Ubatuba

Janeiro de 2019, Praia da Enseada - Ubatuba - SP

Este verão tem sido muito intenso em Ubatuba, o calor está beirando o insuportável, a Praia da Enseada esteve lotada como há pelo menos uns 10 anos não vejo e o mar é (ou seria) uma ótima opção para relaxar e refrescar. Seria...
Como já denunciei várias vezes aqui (2018/01/deu-merda-no-emissario-da-enseada) nada continua sendo feito com o esgoto da Enseada, absolutamente nada.
Pior do que isso, é que mesmo denunciando, avisando pessoalmente os banhistas in loco, este verão o pior aconteceu. Parentes e conhecidos da praia que possuem residência próximas ao vazamento adquiriram infecções de pele que evoluíram gravemente. Completando essa situação, a procura por atendimento médico em Ubatuba é um verdadeiro caos. Atravessar a Praia Grande, dependendo do horário, pode levar até 2 horas, e conseguir ser atendido na Santa Casa pode demorar outras 2. Os Postinhos da Maranduba e Saco da Ribeira ajudam, mas os diagnósticos de um para outro variaram de picada de mosquito agravada por areia e mar sujo, catapora e impetigo. Foi receitado de pomada a antibiótico.

Peço desculpas se as fotos a seguir são chocantes, mas a situação pede que a verdade nua e crua seja mostrada. São fotos de um adulto e duas crianças, uma de 3 anos e outra de 9 que se banharam no mar próximo ao emissário da Praia da Enseada em Ubatuba.





quinta-feira, 15 de novembro de 2018

"O PULEIRO"


O PULEIRO

SÓ LEMBRA QUE TEM O POBRE,
NA OCASIÃO DA ELEIÇÃO,
DEPOIS QUE TÁ NO PULEIRO,
NÃO LEMBRA QUEM TÁ NO CHÃO.

Quadrinha transmitida por Nelson de Góis na véspera da eleição de 2018. O blá blá do político continua o mesmo década após década.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Fandango da Força Verde

Mestre Aorelio Domingues traduz com maestria a injustiça sofrida por Caiçaras de todo o litoral.

Conhecidas por "Florestal", "Força Verde" ou simplesmente "Meio Ambiente" essa força policial fiscalizatória trata os Caiçaras como bandidos.

Transcrevo um trecho da minha dissertação que foca nesta situação específica:

4.7.1. O conflito com o “meio ambiente”  
O pescador caiçara tradicional, não difere, nem percebe distinção, entre a própria vida e o ambiente natural em que ele está inserido, e do qual sobrevive.
Para o caiçara, o conceito de “meio ambiente”, possui significado totalmente distinto da concepção urbano-industrial. 
O “meio ambiente”, para ele, significa: a polícia florestal e as leis ambientais (MANSANO, 2004: p. 208; DIEGUES, 2008: p.67) que restringem suas atividades tradicionais.  É muito comum ouvir entre os caiçaras, expressões como: “O meio ambiente prendeu”, “O meio ambiente proibiu”, “O pessoal do meio ambiente”. 

"O profundo respeito e admiração pela natureza dos moradores da Barra do Ararapira não os fazem conservacionistas, pois a palavra é uma invenção nossa e que surge da nossa maneira dicotômica de perceber a natureza separada da humanidade. “Conservar” jamais seria uma palavra usada por eles, pois os mesmos não veem uma natureza possível de ser conservada, já que para eles não é algo estável, parada no tempo, imutável. Como se conserva algo que muda constantemente?" (RAINHO, 2015: p.140, grifo da autora)                                                 
 
Esta “névoa” que envolve o conceito local de “meio ambiente”, causa uma grande confusão quando o caiçara precisa expressar suas ideias sobre “manejo” ou “conservação ambiental”. O conceito de “conservação da natureza”, envolve práticas tradicionais tão arraigadas ao próprio modo de vida local, que os pescadores precisando explicá-las formalmente, confundem-se, contradizem-se, constrangem-se com a necessidade de dominar palavras, para explicar algo tão óbvio do ponto de vista tradicional prático.
 
"Aquele dia da reunião (Oficina do PEIA: SÃO PAULO, 2008a) mostrando... lembra... A placa que tinha (na Ilha Anchieta)... Mostrô o (nome suprimido) caçando né... lata de skol... Aí eu falei pra ela (gestora): -Isso aí a Sra. mostra né? Isso aí, coisa ruim, a Sra. mostra... Mas a Sra. num mostra que lá na Ilha tem aqueles pé de amendoeira, que faz sombra na frente do presídio, quem plantô foi pescador! Aquilo num nasceu lá não, a Sra. viu? Foi gente que levou... amendoeira, bananeira, coco da Bahia... Quem plantô? Né? Pescador... Pescador num faz o que ela tava mostrando... [...] Hoje a Ilha, Alemão... o que vem de saco de latinha quando desce lá (no píer do Saco da Ribeira), meu Deus do céu... Enche o cais só de saco preto cheio de latinha de cerveja... E a mulher (gestora do PEIA) filma os pescadô né? Que é os pescadô que (estraga)... Viu o monte de lata e garrafa (mostrados na Praia do Sul pela gestora, ao lado do rancho dos pescadores, para justificar a retirada do rancho daquela praia)? É... Mas o que descarrega (de lixo de turista) ninguém filmou, aquele monte de saco preto que só vê barulho, 10, 12 saco, mas assim ó (mostra 1 metro acima do solo) que vem de lá... Isso ninguém filma... É muito (injustiça)... sabe..." (DOS SANTOS, 2014, comunicação pessoal) 

Se a pressão da formalidade provoca distorção na comunicação, no entanto, suas considerações baseadas na observação empírica do uso da natureza no dia-a-dia da faina pesqueira, são cristalinos quando apontam quem realmente lucra com o “meio ambiente”. 

"O meio ambiente foi bom sabe pra quem? Pros... pros, cara...  que vieram pra explorá Ubatuba, assim, Caraguatatuba, todo o litoral, é os grileiro. Então isso foi bom. Então o meio ambiente ele foi bom, pelos (para os) grileiros que apareceram. Mas pela classe que sempre respeitaram o meio ambiente, eles prejudicaram. Que é os pescador... é os antigo... é o roceiro, é o cara que sempre criou o filho com farinha e palmito... entendeu?" (DE GÓIS, 2016, comunicação pessoal)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro Walter Alves de Lima - Vila Nova - Iguape


PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 02 em 27 de julho de 2018
MESTRE CANOEIRO:
Walter Alves de Lima, BAIRRO DE VILA NOVA, IGUAPE, SP
IDADE: 71 ANOS
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues
Vila Nova - Iguape. Fonte: http://www.artesol.org.br/novo/conteudos/visualizar/Iguape-SP1
                1.Walter Alves de Lima nasceu em Prelado-Juréia, Iguape em 1947 (71 anos). Para ele, a construção de canoa caiçara é uma arte transmitida de pai para filho. Seu pai já construía canoas grandes para o transporte de arroz. O irmão e seu filho também fazem canoa. Ele começou a ajudar pai quando era criança, com 7 anos. Até os 12 anos seu pai explicava para ele as técnicas da construção mas com 12 anos ajudava o pai sem pedir explicações pois já tinha aprendido e trabalhava só.
                2.As madeiras mais usadas eram o guanandi, a timbuva e o cedro, esta mais rara na região.     
                3. A escolha da árvore era fundamental dependendo do tamanho e da largura da canoa que se quer construir e da disponibilidade de tronco suficiente para o que se quer. Um critério importante para a escolha da arvore era sua posição ao sol (nascente ou poente).
                4.Processo de construção: o básico era o processo de mutirão pelo qual parentes e conhecidos ajudavam a derrubar e depois transportar o tronco para o rancho onde era feito o acabamento.
                O inicio era o desbaste da madeira na parte inferior da canoa que se encontrava virada para cima. Aí se empregavam três linhas de proa à popa e faziam as patilhas (popa e proa).
                Depois desviravam o tronco para fazer a parte de dentro, usando inicialmente machado para desbastar a madeira e depois o enxó e plaina para acabamento. No bojo de cima usavam duas linhas. Mas, segundo Walter Lima, o “importante é o mestre ter as linhas nos olhos e isso só se consegue com a experiência”.
                Para acertar espessura fazem-se três furos no fundo da canoa.
5.Uso de v ela. Quando criança ele ainda viu o uso de vela na canoa caiçara. Seu uso foi desaparecendo com o uso do motor de popa e depois motor de centro.
6.Outros mestres canoeiros do lugar: Adelson, seu primo e Odilo Mendonça.
7.Uso da canoa: além do uso na pesca e transporte de mercadoria e pessoas a canoa era usada no transporte dos integrantes dos grupos do Reisado, no período do Natal e do Divino, na Festa do Espírito Santo. Seu Walter ainda toca rabeca na festa de Reis e seu filho Ordilei constrói rabecas e ensina a construí-las na Ilha Comprida.