Mostrando postagens com marcador cultura caiçara. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura caiçara. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de junho de 2016

É PRECISO PENSARMOS A TAINHA 2

Escrevi recentemente sobre o impacto da frota industrial sobre a captura da tainha e as consequências desta expropriação de um recurso natural que desde os primeiros registros históricos (STADEN, 1557) é a base da cultura litorânea de centenas de comunidades tradicionais do sudeste sul brasileiro:
http://canoadepau.blogspot.com.br/2015/06/e-preciso-pensarmos-tainha.html

Fonte principal: ARTIGO PESCA DE TRÓIA REPESCA 2016

Também, recentemente a tradicional pesca artesanal de tróia, a mais praticada na captura da tainha no litoral caiçara, passou a ser considerada ilegal, transformando a cultura dos pescadores em crime:
http://canoadepau.blogspot.com.br/2016/03/a-extincao-da-pesca-artesanal.html

Felizmente, nesta safra de tainha de 2016, quando as 50 traineiras (isso mesmo 50!) tentaram renovar suas licenças, não conseguiram, pois 100% delas haviam pescado em áreas proibidas no ano passado:
http://www.agricultura.gov.br/animal/noticias/2016/06/mapa-indefere-concessao-de-pesca-da-tainha-para-50-embarcacoes

Miranda (et al., 2011) defendem a suspensão da pesca de tainha pela frota de traineiras, e citam que em julho de 2010, apenas uma única traineira matou mais tainhas do que o total capturado no mesmo mês pela pequena pesca, em catorze (14) municípios paulistas. Alertam também que em São Paulo nesse mesmo ano de 2010, nos meses de junho e julho, apenas 1,1% das unidades produtivas envolvidas na pesca da tainha, eram de traineiras. Mesmo assim foram responsáveis, realizando apenas 0,4% das descargas, por 50,1% da captura total de tainhas. Demonstram os autores, cabalmente, a imensa desproporcionalidade entre a frota de traineiras e a pequena pesca, resultando em competição desigual, menor disponibilidade da espécie para as populações tradicionais e maiores custos sócio-econômicos e culturais para os usuários desse recurso pesqueiro(MIRANDA et al 2011: p.17-19).

Sabe-se no entanto que a imprevisibilidade é a única certeza quando se fala em recursos pesqueiros e tentar conseguir prever estas situações de altos e baixos da produtividade marinha é onde o progresso do conhecimento, pode ser de extrema ajuda (Andrew Bakun,1996).

Coincidência ou não, é fato consumado que nesta safra de 2016, as comunidades tradicionais caiçaras estão tendo resultados recordes com a pesca de tainhas. Vamos deixar as fotos falarem:

Fotos de: Mulheres Artesãs da Enseada da Baleia:

Fotos de: Leila Anunciação, Trindade R.J.:


Fotos de Ten. Cel. Macário Ubatumirim, Ubatuba:

Fotos de Fabíola Soares, Praia da Justa, Ubatuba:

Dezenas de comunidades caiçaras estão ganhando o seu quinhão. A cultura da tainha está sendo repassada e saberes ancestrais estão novamente sendo exercitados.

Os industriais reclamam prejuízos com a exportação do CAVIAR BRASILEIRO para os chineses.
A ova de tainha é uma iguaria exportada pelo brasil e custa aqui quase 500 reais o quilo: BOTTARGA
 
Bem, fala pros chineses que lá no Paulinho, na Praia da Enseada, tem ova de montão! Este ano o caviar é dos caiçaras!

Foto de Roberto Ferrero, Praia da Enseada, Ubatuba:

Mais informações sobre o caso no blog: ÚÚÚÚ!!! TAINHA NA REDE.

Atualizado em 25/04/17: Artigo relacionado recente CEPSUL: DE QUEM È O PEIXE? 

sábado, 7 de maio de 2016

MESTRE ANTONIO PERES da Praia do Lázaro.

Pesquisando já há um bom tempo sobre a Ilha Anchieta, encontrei alguns depoimentos interessantes sobre a Ilha, levantados junto aos pescadores locais em 1974, que integram os relatórios FUMEST para o Plano de Exploração Turística da Ilha Anchieta .
Entre estes depoimentos está o do Sr. Antonio Peres, Mestre pescador da Praia do Lázaro e filho de um espanhol, antigo morador da Ilha Anchieta. Resolvi então reproduzir este valioso depoimento quase desconhecido e também juntar outro que já conhecia feito por Marcos Malta Migliano por volta de 1993.
Também o Seu Peres foi imortalizado pelo ex-Titã Nando Reis, na letra da música Pré Sal: 
Desbarrancar das margens parte o lázaro zinho 
Fitas demarcavam rubras tardes de volley 
O centenário perez caminhava sozinho 
Strombus pugilis de róseos lábios 
Bem banhados pela espuma da areia 
Subir num jacaré no cedro e olhar fortaleza 
Sumiu a ilha do mar virado e junto as certezas 
Ácido dourado a pedra me lagarteia 
Na rede o picaré estrelas do mar no céu 
Desponta a dalva de oliveira
Assim pretendo reunir em um só lugar estas informações tão importantes sobre a história da Ilha Anchieta, narradas por este grande Mestre caiçara que ainda tem um depoimento gravado pela FUNDART, dado ao saudoso Ney Martins em 1996.

Por volta de 1974, o Sr. Peres foi entrevistado pela equipe do Professor José Witter e deu o seguinte depoimento que transcrevo a seguir.

Senhor Peres.
Antigo pescador. Hoje tem um restaurante, na Praia do Lázaro (tem uma série de hotéis - Cr$90,00 casal com café da manhã, a praia é linda).
Não acredita em assombração nem viu nada. Aconselhou a falar com Manoel Lopes que mora no Lázaro e nasceu na ilha, Conta que antes do presídio moravam na ilha 150 famílias. A pessoa interessada em instalar um presídio na ilha entretanto, informou ao governo que só havia uma pessoa. O governo então desapropriou. 
O pai de Manoel Lopes foi reclamar do governo que deu uma indenização aos pescadores. No tempo dos pescadores a ilha era toda plantada. Tinha café, banana e laranja que ainda podem ser encontrados. No meio da mata também, no lado de cima há pedaços de casas de pescadores. A ilha era o melhor lugar de pescaria de Ubatuba. Peres trabalhou muito com rede lá, mesmo no tempo do presídio. Nunca houve proibição para os pescadores lançarem redes na ilha. Tinham porém que dar 30% ou 40% para a alimentação dos presos. 
Antes é que havia fartura de peixes. Qualquer criança com um rolo de cipó arrastado na praia pegava 20 ou 30 pescadinhas. Hoje com a maior rede não se pega meia dúzia.
Tainhas, de julho a agosto pegava-se de 5.000 a 10.000 por dia. No Saco da Ribeira não se contava o que pulava no ar. Este (ano) o Sr. Peres não viu uma tainha. Elas se criam na lagoa dos Patos e são mortas lá. As que se criam, os barcos grandes pescam fora (em alto mar). De corvina, antes se tirava 20 toneladas na rede, hoje não se pega 20 kgs. A pesca de arrastão (de porta e de parelha) mata os peixes. Para 1 tonelada que se aproveita, joga-se fora 5.
No tempo em que o Sr. Peres era pescador, não havia lá geladeira. O peixe era salgado e vendido seco ao sol. 
O governo devia fiscalizar o estrago dos peixes. a fiscalização que existe não funciona. Os fiscais de caça e pesca nem tem uma canoa.

Abaixo a reprodução  integral do texto disponível em: http://www.litoralvirtual.com.br/canoeiro/peres.htm.

História de um pescador
Marcos Malta Migliano
Eu particularmente tive muitos mestres e deles guardo grandes recordações. Sou-lhes profundamente grato pelo pouco que sei. Um deles, Antonio Peres, conheci em 1963, em Ubatuba. Juntamente com Lothar Bamberg, ele me ensinou muitas coisas sobre pesca e mar.

"Seu Peres" nasceu na Praia do Lázaro, em Ubatuba, e é um mito, pois até esta data ninguém sabia informar sua idade. O conheço há mais de 30 anos, durante os quais, seu físico pouco se modificou.
Eu era um moleque e ouvia fascinado as histórias que "Seu Peres" contava sobre suas andanças como pescador. Hoje ele é um próspero comerciante, dono do Hotel Canoeiro e do Restaurante do Peres, que por sinal, são muito bons na Praia do Lázaro.
Na semana santa deste ano fui a Ubatuba e aproveitei para passar pela praia do Lázaro e rever os amigos. Tive e idéia de entrevistar "Seu Peres". Afinal, se aprendi tanto com esse homem, porque não dividir isto com os amigos pescadores. Vamos lá!

"Seu Peres", em que ano o senhor nasceu e onde exatamente?

Nasci aqui no Lázaro em 11 de novembro de 1912. Meu pai nasceu na Ilha Anchieta e era descendente de espanhóis. Minha mãe era negra e nasceu no sertão do Rio Escuro.

Isto explica porque o senhor, embora tenha pele escura, possui traços delicados. Seu avô, espanhol, provavelmente era descendente de algum comerciante ou mesmo pirata... Mas, continuando, como era a vida no Lázaro naquela época?

A vida não era fácil. Pra você imaginar, fósforo era uma coisa rara. Quando tinha, era vendido por unidade. A gente acendia o fogo com laranjeira, em uma vala no chão cercada de três pedras (tacuruba) e, à noite, cobríamos com cinza para não apagar. A isto chamávamos de mãe do fogo. Quando ela apagava pegávamos um tição emprestado do vizinho. Daqui à cidade eram 4 horas de caminhada pela mata. Quando morria alguém, colocávamos o corpo em uma rede e transportávamos até a cidade pela mata. E naquela época havia inúmeros animais selvagens pela mata, onde abundavam onças.

E a pesca, "Seu Peres"?

Quando eu era menino, ninguém pescava por aqui, pois não tinha como conservar o peixe. Nós trocávamos ovos, pinga, pimenta e banana por querosene, sal e sabão. Tanto é que com 15 anos fui para Santos trabalhar num sítio de bananas. Havia um barco chamado "Santense" que, de 8 em 8 dias, fazia ligação com Ubatuba. Eu voltava pra cá a cada 2 ou 3 meses para deixar um dinheiro para a família. Em 1943, por causa da guerra, a exportação de bananas fracassou e a procura por peixe aumentou. Então voltei e comecei a trabalhar com minha primeira canoa, feita de timbaúba. O peixe salgado tinha muito valor na época. Foi ai que comecei a pescar. A gente usava espinhel, mas não existia o náilon. As linhas eram verdadeiras cordas de algodão e para que não apodrecesse, a gente fazia um caldo de arueira e aplicava nas cordas, isso dava uma impermeabilização. A linha "madre" tinha mais de um dedo de espessura, dai saia os "estropos" com os anzóis.

Onde o senhor soltava os espinhéis?

Aqui na frente mesmo, pegávamos inúmeros cações, alguns chegavam a pesar 250 quilos. Às vezes soltávamos no canal do ilhote do sul da Ilha Anchieta. Ali existiam cações enormes. Atrás do Mar Virado, cruz credo! Era soltar o espinhel e perder. Os cações desgraçavam com tudo e, quando sobrava alguma coisa do espinhel encontrávamos cações de 70 quilos cortados pela metade. Nos meses de maio a junho, pescávamos tainha. Pra isso utilizávamos dois "espias".

O que eram "espias"?

À noite saíam duas canoas e ficavam observando as tainhas se aproximarem da praia. Quando elas apareciam, eles davam um sinal e os demais pescadores que pernoitavam na praia, punham logo outras duas canoas com a rede e cercavam o cardume recolhendo-o à praia. Numa daquelas noites, um bando de cações se aproximou e um deles mordeu o fundo da canoa de um dos espias, que começou a fazer água. Ele só se salvou porque o companheiro encostou logo a outra canoa e ele mudou de embarcação. Depois comecei a pescar sardinha na traineira de Pedro Leandro (pescador muito conhecido que faleceu com mais de 90 anos. Com ele tive o prazer de uma vez pescar garoupas). Quando saíamos em busca de sardinha, toda vez que recolhíamos a rede, os cações arrodeavam a traineira e nós lançávamos na água verdadeiras cordas munidas de anzol de 20 cm, com um reforço soldado na curva do anzol para que ele não abrisse, fazíamos um cacho de umas 15 sardinhas e era só soltar na água que o bicho ferrava, depois segurávamos a corda e mais ou menos 8 homens. Pegávamos cações desta maneira de 350 quilos.

Com esta quantidade de tubarões o senhor deve ter visto muitos acidentes.

Não. Nunca vi ninguém mordido ou morto por cação.

Mas como nunca houve nenhum acidente, com essa quantidade de cações grandes, se hoje em dia, com menos peixes temos notícias de vários ataques de tubarão?

Muito simples: os caiçaras da minha geração não sabiam nadar. Nuca entravam na água, nem na praia e por isso mesmo só saíam com tempo muito firme. Hoje em dia o pessoal pula no mar em qualquer altura só para tomar um banho. Isso nunca acontecia naquele tempo.

Fora o cação, qual foi o maior peixe pescado pelo senhor na linhada?

Foi um mero de 150 quilos fisgado aqui mesmo na ponta do Lázaro. Demorei umas 3 horas para tirar e ele arrastou a canoa por mais de 500 metros. Eu perdi um maior na ponta da Enseada. Devia ter uns 300 quilos. O mero é danado: quando percebe que está ferrado, sai como um louco. Se a gente folga um pouco ele fica quase parado no fundo, vai nadando muito devagar.

Depois destas características descritas pelo senhor, aliadas a lembrança de um mero que perdi em Natal, conclui que o peixe - batizado por mim de "coisa" - que perdi na Barra do Pujuca, na Bahia, devia ser um mero de mais de 100 quilos. Mas voltando as suas lembranças, o senhor não gostava muito de pescar de linha?

Eu gostava sim. Muitas vezes ia à noite à Ilha Anchieta e nas Palmas pescar garoupa. Naquela época pegava grandes bitelos. Usava como isca bonito ou sardinha.

Agora o senhor vai me revelar um segredo: durante mais de 20 anos em que faço pescarias por aqui, o senhor sempre acertou o tempo. Lembro-me que eu levantava às 5 horas da manhã para ver como estava o mar e já o encontrava na praia. Então me dizia: "Hoje tudo bem, pode ir". Às vezes, me falava: "Hoje o mar vai virar". Todas as vezes que não ouvi seus conselhos me arrependi. Como o senhor acertava?

("Seu Peres" dá um sorriso amarelo e começa a contar)
Como não sabíamos nadar e nossas embarcações eram meio primitivas, não podíamos correr nenhum risco, por isso observávamos bem os sinais do tempo. Quando as estrelas estão brilhando demais no céu, é sinal que vai "noroestar" (vento forte a noroeste). Quando no nascer do sol ou no por do sol estiver muito vermelho o tempo vai virar. Antes de nascer o sol, se as folhas das árvores tiverem bastante orvalho o tempo será firme. Se elas estiverem secas o tempo vira. Outra prática infalível é observar o Pico do Corcovado (em Ubatuba): se estiver bem limpo, o tempo normalmente é bom; se estiver encoberto, vai chover.

Quando começou a acabar os peixes por aqui?

Depois de 1970 o peixe foi desaparecendo. Em primeiro lugar, acho que foi por causa do excesso de arrasto. Por mais de 15 anos arrastarem dia e noite aqui na baía do Lázaro, matando peixe que vinha reproduzir ou crescer. Depois pelo desrespeito ao defenso na pesca da sardinha. A sardinha é o pasto do mar, se não tiver sardinha os peixes vão procurar alimento em outro lugar. Agora pararam de arrastar porque não tem mais nada. É possível que o peixe volte. Uma coisa que voltou foram as baleias. Durante muitos anos elas vinham aqui na praia do Lázaro. Depois ficaram mais de 20 anos sem dar as caras. Agora, todo ano tem uma visitinha. Não na quantidade que havia 40 anos atrás, mas estão voltando. As tartarugas também estão aparecendo em maior número. Acho que é devido ao Projeto Tamar.

E o senhor ainda pesca?

Profissionalmente e esportivamente. Ainda tenho meu cerco na Anchieta, inclusive no ano passado, entrou uma tintureira de 250 quilos. E as vezes eu saio para apanhar um espada ou uma garoupa na Ponta da Cruz.

Agora revele-nos um último segredo: o que faz para estar assim em plena forma?

("O velho Peres dá uma risadinha, levanta-se, vai buscar uma cerveja gelada e um camarão no bafo. Ao voltar, me diz:)
Conte um pouco das pescarias que você tem feito por ai, em outras terras...

Embora ele dissimulasse bem, eu não me perdi. Quando deu uma folga, chamei o Edinho, um de seus sete filhos, que toma conta dos negócios do pai na Praia do Lázaro, juntamente com os irmãos Carlinhos e Josué, e pedi que me contasse a formula do velho para continuar assim, do mesmo jeito de quando o conheci, há 30 anos. Ele também não fala, mas eu acabei descobrindo: "Seu Peres" não come frituras; peixe, só ensopado; e salada quase a semana toda; carne vermelha no máximo uma vez por semana; bebida, muito pouco; levanta muito cedo; caminha uns 5 km de manhã e outros 5 km à tarde, ai ele entra um pouco na água do mar e nada muito... Só, mar alimentação sadia, caminhadas, enfim, uma perfeita harmonia com a natureza, o que resulta em muita paz. Assim nem dá para perceber o tempo passando. É por isso que ele nunca vai envelhecer.     FIM.

Sobre a Praia do Lázaro, o pesquisador ubatubano, José Ronaldo dos Santos nos dá a seguinte informação em seu blog http://coisasdecaicara.blogspot.com.br: 
Vovó Eugênia, cuja vó viveu como escrava na Praia do Lázaro até quando veio a abolição em 1888, assim dizia
"Meu pai, João da Barra, era dono de um pedaço de terra na Praia do Lázaro, com duas medidas de dez braças de imbé, indo até o morro que vira para o Rio Escuro. Essa terra ainda tá lá, faz limite com a Tia Benedita, mãe do Antônio Peres. Tudo de frente pro mar, no jundu, comprado do padre João Manuel da Conceição. Era nesse chão que se sustentou João Faria, um coitado que aos sessenta anos já vivia numa cama por estar lázaro. Dessa doença vem o nome do lugar". 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Entrevista com Antonio Carlos Diegues, caiçara e Nobel da Paz.

Esse trecho foi retirado de uma entrevista concedida pelo Prof. Dr. Antonio Carlos Diegues à repórter Carlota Cafieiro do jornal A Tribuna, publicado em 10 de novembro de 2013.
foto: Paulo Nogara.
A definição de caiçara cabe à qualquer pessoa nascida no litoral do Brasil?
O termo caiçara não se aplica à comunidades de pescadores e lavradores a não ser aqueles nascidos em em um território que compreende do litoral paranaense até o sul do Rio de Janeiro. Existem até cidades que se chamam Caiçara, como uma no Rio Grande do Norte, mas não tem nada a ver. É outra cultura. São também caiçaras as comunidades que passam por Santos e vão até Mongaguá, Ubatuba, Paraty, praticamente às portas do Rio de Janeiro. Elas têm o mesmo modo de vida.

O que mais define um caiçara além dessa geografia?
O modo de vida baseado na associação da pequena agricultura de mandioca e arroz para subsistência e a pesca artesanal. O que faz o caiçara são essas atividades, além do seu modo de falar, porque ele tem uma espécie de dialeto que vem do português antigo, do tempo da colonização. Essas áreas ficaram muito tempo isoladas da capital, sobretudo no Vale do Ribeira e em Ubatuba, pois não existiam estradas. O transporte era feito do norte de Paraty para Santos pelas famosas canoas de voga (remo). Eram canoas enormes, de dez metros de comprimento e boca de um metro e meio de largura, que não é mais construída, na qual os pescadores traziam tonéis de aguardente, peixe seco, farinha para negociar em Santos e voltavam para Iguape e Cananéia, pois até o começo do século 20, não tinha estrada nenhuma.

No que a cultura caiçara contribui para a identidade brasileira?
Assim como os sertanejos, seringueiros na Amazônia e caboclos, eles são os formadores da nossa cultura e da nossa história, além dos índios, negros e imigrantes. Quer dizer, a cultura brasileira deve muito a essa população que ocupou o litoral, os rios e o interior. Mas isso nunca foi totalmente reconhecido no Brasil.

Por que isso acontece?
Existiu e ainda existe muito preconceito, como se os caiçaras fossem ignorantes. Um absurdo, porque quem convive com eles sabe o duro que dão. Eles seguem o relógio da natureza, das marés, dos ventos. Não vão sair quando sabem que não tem peixe. Têm um conhecimento fantástico do mundo natural. E isso vem sendo recuperado pelas universidades. Hoje, existem muitos mestrandos e doutorandos que estudam essa questão do conhecimento tradicional, coisa que as cidades ignoram.

Quais fatores prejudicam a cultura caiçara?
Basta notar o que aconteceu em Ubatuba com a especulação imobiliária. Quando os paulistanos chegaram ao litoral encontraram os caiçaras na praia, e a forma para justificarem moralmente a tomada de terras deles era dizer que não a mereciam porque não trabalhavam, pois eram preguiçosos. Isso não aconteceu só no Brasil, mas no mundo inteiro. A forma de você pegar a terra dos outros é dizer que eles não são humanos. Em segundo lugar, os caiçaras foram alijados pelas chamadas áreas protegidas, como a da Juréia. Hoje, praticamente 80% das áreas em que os caiçaras viviam, incluindo o litoral norte, são protegidas. Os pescadores não podem cortar mais nenhuma madeira para fazer canoa, não podem fazer sua roça, e encontram limitações para fazer seu artesanato. Não precisava ser assim.

Você percebe resistência por parte dos pescadores?
Começa-se a recuperar essa tradição caiçara, até porque eles começaram a reagir e passar para algum protagonismo. Eles começaram a reagir contra a especulação imobiliária de alto nível, pois se sentiram enganados durante a transferência da posse de terras, muito por não saberem ler.

Existe também uma reação por parte da cultura?
Sim, começou a renascer parte da cultura que estava esquecida, como o fandango, a rabeca e a culinária caiçaras. Ajudadas por institutos de pesquisa e ONGs, essas culturas começaram a se reequilibrar. Vejo isso em Iguape e Cananéia, onde existem as Redes de Cultura, e na Juréia.

Como os caiçaras deveriam ser vistos pela sociedade?
Como vigilantes da natureza, pois eles conhecem a mata como ninguém. Têm uma capacidade incrível de reconhecer seu território e quem passa por ele, tanto que um caiçara com casa na praia sabe quem passou por lá pelas pegadas na areia. Se fossem adequadamente incorporados nesse processo de conservação da natureza, até a fiscalização seria mais fácil, pois eles ajudariam denunciando se tem algum palmiteiro ou um madeireiro agindo na região. mas eles são sistematicamente expulsos e isso é uma besteira política e ambiental, pois é justamente na área caiçara que existe a maior parte da Mata Atlântica conservada, diferentemente do interior, onde as florestas foram destruídas pela cultura da cana de açúcar e dos laranjais. tanto que as pessoas que destruíram a natureza são ricas, e a população caiçara, responsável pela floresta estar de pé, é pobre.

Quais são as consequências da expulsão dos pescadores artesanais de seus locais de origem?
Os conflitos serão insolúveis. É preciso resolver o problema das populações nativas. Veja o caso da Juréia, onde até hoje existe briga. Os pescadores foram transferidos para a periferia e se transformaram em subempregados.

A população caiçara compreende quantas pessoas atualmente?
Eu mesmo tentei fazer uma estimativa desde o litoral paranaense até às portas da cidade do Rio de Janeiro. Hoje não passam de 80 mil pessoas, um número muito baixo em relação ao que eram antes. É um terço do que tinha no começo do século 20. Eles foram muito massacrados.

Fotocópia do Nobel original. Foto: Peter Santos Németh
Breve biografia do Prof. Diegues: aos 70 anos (2013), é um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz, concedido coletivamente em 1981 ao Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, em Genebra na Suíça. Nessa época viajou pelo mundo, passando do Vietnã arrasado logo após a guerra até a China de Mao Tsé Tung. Nascido em Santos e criado em Iguape, é filho de uma professora primária com um imigrante da Galícia dono de uma padaria em Santos. Em 1966 entrou para a USP mas como era vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), foi perseguido pela polícia e teve que refugiar-se no Maranhão. Mais tarde fez mestrado em desenvolvimento rural na Holanda e passou também pela França, onde iniciou o doutorado sobre pescadores artesanais em 1974. Hoje é professor de pós-graduação na USP e diretor científico do NUPAUB. Escreveu mais de 30 livros, alguns deles embora esgotados ainda podem ser encontrados através do e-mail: bambuluz@yahoo.com.br
ASSISTA À UMA FALA DO PROF. DIEGUES


domingo, 25 de janeiro de 2015

Teletransporte Caiçara, rumo ao tempo ancestral.

Esse vem do Roberto Ferrero.
O texto é quase uma prova de que é o território como um livro cujas palavras não são letras, mas imagens, cheiros, gostos e gestos que só podem ser compreendidos plenamente através de um guia ou Mestre.
Processo idêntico ocorreu comigo e idêntica também é minha admiração pela cultura Caiçara e seus saberes.
Conhecimento ancestral que permite descobrirmos em nós mesmos o que é ser humano integralmente, em toda sua potencialidade. 


Curioso, às vezes uma imagem nos transporta para outro lugar. Perdido entre memórias e causos que muitas vezes se aproximam do realismo fantástico, pondero. Poderiam essas coisas todas terem acontecido? Não importa, embarquem comigo, se aconcheguem no bojo dessa história que eu vou firme no remo. E se segura que vamos se alagá. Cuia na mão! 


Achei essa foto do meu amigo Zezeca tirada num dia de mariscada na Praia das Conchas. Carregávamos o tachão, uma caixinha de fósforos e um punhado de limão. Era basicamente o que precisávamos. Outros apetrechos eram um balaio, tênis velho e uma faca de manteiga cortada na metade. Tirávamos só os maiores, escolhidos a dedo. Era esse o costume do caiçara, e era assim que aprendíamos. Eu gostava de fazer a limpeza dos mariscos que iam sendo descarregados nos buracos naturalmente escavados nas lajes. Quantas horas eu fiquei curvado sobre aquela vida toda, separando pequenos santolas, cracas, saguaritás, guaiás, nereis, lebres do mar, anêmonas, pindás e piranjitas. Às vezes penso se foi tudo isso que me levou, anos mais tarde, a escolher o curso de Ciências Biológicas. Seja como for, decerto tenho: o Zezeca foi o meu primeiro professor. Com ele aprendi um punhado de coisas que levo comigo até hoje. Assobiar para guaiá, abacaxi pra guaiamum, picaré na lua escura, buraquinho da pegoava, cruzar picos para achar pesqueiros e decifrar os ventos. O que começa quente e vem pelo espelho d’água escalando as canelas, anuncia o Noroeste. Ele sempre me dizia, que o Noroeste não deixa a Mãe morrer de sede. Bordão Caiçara que poucos se lembram. 
Como são poucos os que se lembram que não se usa enxada para tirar marisco.
Quando não era na Praia das Conchas era na Laje do Tapiá que buscávamos o mexilhão. A movimentação começava cedo. Eu e meu irmão éramos arrancados da cama pela minha tia Tuca e meu primo Cleiton. Meus pais já estavam preparando o barco, pequenos lanches e agua. Logo a chatinha já estava deixando nossa casa na Praia da Enseada rumo ao boqueirão. Passávamos pelo rancho do Parú onde o pessoal também estava se arrumando pra pesca, saudávamo-nos. Todas pequenas baias até o boqueirão tinham nomes e não me recordo mais deles. Frequentemente as pedras também o tinham assim como as lajes que adentravam no mar. Como é detalhado o mapa do território caiçara! Passávamos o cerco flutuante. Eu gostava de ir na proa, gostava de alertar sobre tocos na agua que poderiam comprometer a viagem. Da proa eu avistava também uma enorme canoa a motor vinda da Ilha Anchieta. Não dá para esquecer o póc póc póc do motor. Ouvia-se de longe. Na canoa, todos sentados em fila indiana, vinham uns 4 ou 5. De primeira vista eu conseguia distinguir, com sua cabeleira branca amarelada, o Sr. Joel da Praia do Sul!!! Quem eram os outros? O Betum? O povo da Praia do Sul...Quando atravessávamos o boqueirão, na Ponta do Espia, começavam a aparecer as toninhas. Quantas delas correndo atrás de cardumes de sardinhas e manjubas. Era uma festa de se ver, meu pai desacelerava o motor e ficávamos a admirar o trabalho coordenado de caça delas. Tímidas, logo iam embora. Diferente dos golfinhos, que nos acompanhavam algumas vezes por um determinado tempo. Já na Laje do Tapiá, tirávamos mariscos no mergulho. Eu ficava aflito com o tempo que meu pai conseguia segurar a respiração. Quase sempre voltava com um punhado na mão. Meu primo fazia linhadas para eu pescar enquanto catavam o marisco. A isca era sempre saguaritá. Não tinha muito sucesso na pescaria, acho que a movimentação toda afastava os peixes. Lembro-me de Garoupinhas, Badejos e Socorocas. Todos miudinhos, voltavam sempre para o mar. Ah, tinha um vermelho também. Olho grande e um espinho nas guelras que sempre me furava. E o Budião, profissional de roubar isca. O Budião dava na mesma época que a tainha. Na mesma época que o João Parú colocava rede de camarão na frente da minha casa. Meados de Junho-Julho. E eram dois os sons desse tempo. 
O primeiro era um TOC TOC TOC rápido e seco. Era o João macetando os siris na borda da canoa para tira-los da rede de camarão. O segundo era um TCHUF abafado. Seguido de outro após alguns segundos, e outro e outro. Era a pedrada na agua no cerco à Tróia, que era o jeito de capturar Tainhas e Paratis. 
Graves sons do mundo Caiçara. 
De pesca de Tainha eu nunca participei. Sempre observei a movimentação das canoas fechando cerco, rodeando cardume, procurando... mas nunca participei. Me restava perguntar para o Zezeca. Como faziam para achar o cardume? Ele me explicava que sempre tinha alguém, o Espia, que subia nos morros e pedras altas para avistar o cardume. O Grosso da Agua denunciava a sua presença. O Espia mandava sinal para os pescadores. Como eu não podia participar da pesca, quis participar da Espia. 
Ele me levou num final de tarde. O caminho era o mesmo que levava à Praia de Fora, mas a certa altura pegamos uma saída lateral da trilha principal. Chegamos a um ponto alto, onde podíamos observar quase toda a Baia do Flamengo e a Ilha do Mar Virado. Sentamos ali naquele pequeno descampado e esperamos, eu sem saber ao certo o que esperar. Ele me apontou a Ilha do Mar virado e me contou do Boitatá, uma luz esverdeada de forma circular que subia da Ilha e rondava até quase o continente, assustando toda a gente. Era isso que eu estava esperando??? Meu coração batia em todas minhas artérias e veias enquanto meu olho não desgrudava da Ilha. Mas não era. Esperávamos um cardume de Tainhas. A luz do dia já estava acabando e começávamos a desistir de ver um cardume quando, da direção da Praia do Flamenguinho, pareceu surgir uma modificação na superfície da agua. Eram elas! Um enorme cardume de tainhas fazendo algazarra na superfície do mar. Fiquei ali maravilhado com o espetáculo mas infelizmente a tarde foi caindo e o Zezeca achou por bem voltarmos. E assim foi. Perdemos um pouco o tempo e a escuridão tomou conta do caminho. Foi difícil, avançamos vagarosamente por essa saída lateral da trilha da Praia de Fora. Quando alcançamos a trilha propriamente dita, foi mais tranquilo e seguimos bem. Pouco antes de um descampado onde hoje tem um pé de Ingá, tinha uma abertura na mata e conseguíamos ver, não tão do alto, mas ainda assim do alto, um pedaço da Baia do Flamengo. Paramos ali para tentar adivinhar onde eram nossas casas (naquela época não tinha a iluminação pública na Praia da Enseada). Pedi para ficarmos um pouco ali, que eu queria ver se não aparecia a tal da luz misteriosa na Ilha do Mar Virado. E ficamos. Olhando atentamente toda aquela imensidão escura, qual não foi a minha surpresa quando comecei a ver clarões esverdeados-azulados no mar. Seria ela? Era isso? Não era!? Uma mancha luminosa que se modificava e se transportava pelo mar. As vezes sumia para reaparecer novamente nas imediações de onde havia sumido. Uma hora a mancha dividiu-se em duas, que andaram por um tempo para lados opostos mas logo se juntaram novamente. Tinha horas que brilhava tanto!!! O Zezeca me falou que só podia ser o cardume de Tainha agitando a agua e fazendo brilhar a Noctiluca, um pequeno ser vivo (Dinoflagelado) que emite luz quando é estimulado. Que espetáculo foi aquele cardume brilhante de Tainha! Ficamos observado aquela dança de luzes no mar completamente calados até ela desaparecer do nosso campo de visão. Até hoje eu penso nessa noite. Naquelas luzes. Uma espécie de auróra boreal no Mar. O Zezeca morreu poucos anos depois disso. Também a pesca farta da Tainha, a Lage do Tapiá, o Sr. Joel foi expulso da Praia do Sul, as canoas foram encostando, o camarão mirrando...
E muito da cultura Caiçara foi se perdendo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Alternativas para o Asseguramento de Direitos Socioambientais

Em recente publicação, O Ministério Público Federal (2014) lançou o manual de atuação “Territórios de Povos e Comunidades Tradicionais e as Unidades de Conservação de Proteção Integral: Alternativas para o Asseguramento de Direitos Socioambientais”.
O documento é um esforço interdisciplinar de sistematização e aplicação de sugestões práticas baseados na perspectiva de conciliação de interesses, apontando estratégias para garantir maior emancipação das comunidades com relação à gestão dos territórios tradicionais, trazendo importante contribuição técnico jurídica para a mediação de conflitos e o reconhecimento de direitos das populações tradicionais em unidades de conservação restritivas.
Redigem o Manual, as especialistas na mediação de conflitos socioambientais, Dra. Eliane Simões e Dra. Deborah Stucci, sob coordenação e orientação da Procuradora Regional da República do MPF, Dra. Maria Luiza Grabner, frente às reações críticas por parte dos órgãos ambientais, em grande parte dos estados brasileiros, a repelir ou dificultar a presença desses povos tradicionais em áreas protegidas e a relevância dessas mesmas áreas para a perspectiva de futuro dessas comunidades”. (MPF, 2014: p.3-4)


A presença humana em espaços especialmente protegidos representa atualmente, para os gestores, os especialistas, os juristas, os atores sociais e, sobretudo, para o Ministério Público Federal, o desafio de transformar conflitos em oportunidades. Tais questões colocam em evidência e aparente contraposição dois blocos de valores considerados patrimônio da humanidade pelos sistemas universal e regional das normas do direito internacional dos direitos humanos, quais sejam, a proteção da diversidade biológica e da diversidade cultural. A sintonia entre os sistemas jurídicos internacional e nacional, nesse ponto, é maior do que faria crer uma interpretação singela. Portanto, mais do que simplesmente interpretar as normas como roteiro básico de regras, evoca-se a necessidade de compreendê-las em direção à prática. Com base nessa perspectiva, devem ser tomados os tratados internacionais sobre os direitos humanos que, por orientação predominante do Supremo Tribunal Federal, são detentores de força supralegal, embora infraconstitucional. Para outros autores, tratados internacionais ingressam diretamente no bloco da constitucionalidade por força do artigo 5º e parágrafos. (MPF, 2014: p.16)  

João Batista, (Ico), em seu pesqueiro tradicional, Saco Grande.

Trecho extraído de: A NOÇÃO DE PATRIMÔNIO EM POLÍTICAS PÚBLICAS DE PROTEÇÃO À NATUREZA: O CASO DA ILHA ANCHIETA EM UBATUBA, SÃO PAULO.
Autor: Peter Santos Németh, texto em elaboração.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

100 POSTAGENS!

E pra comemorar 100 postagens, vou economizar em palavras e postar as 100 fotos que eu mais gosto. (POR FAVOR, CITAR A FONTE DAS IMAGENS)

Detalhe ampliado de J.B. Debret
Fausto Pires de Campos (Trindade-RJ, Década de 70)




Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Barra Seca, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Ilha do Mar Virado, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia do Camburi, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia do Camburi, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia do Camburi, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Caçandoca, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia do Perequê Mirim, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Lilian Prochaska Nemeth, Praia do Cruzeiro, Ubatuba SP

Foto: Janaína Zimmermann Marcelo Ambrogi, Praia da Enseada, Ubatuba 


Foto: Janaína Zimmermann Marcelo Ambrogi, Praia da Enseada, Ubatuba 

Foto: Peter santos Németh, Praia do Itaguá, Ubatuba, SP

Foto: Élvio de Oliveira Damásio, Costeira da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter santos Németh, Praia do Itaguá, Ubatuba, SP


Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Barra dos Pescadores, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Paraty, RJ

Foto: Peter Santos Németh, Paraty, RJ

Foto: Peter Santos Németh, Paraty, RJ

Foto: Peter Santos Németh, Aparecida do Norte, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP




Foto: Peter Santos Németh, Praia da Picinguaba, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP


Foto: Peter Santos Németh, Sertão do Ubatumirim, Ubatuba, SP


Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia do Ubatumirim, Ubatuba, SP


Foto: Janaína Zimmermann Marcelo Ambrogi, Praia da Enseada, Ubatuba 

Foto: Janaína Zimmermann Marcelo Ambrogi, Praia da Enseada, Ubatuba 




Foto: Janaína Zimmermann Marcelo Ambrogi, Praia da Enseada, Ubatuba 

Expedição Geográphica Geológica, Exploração do Littoral, 1915

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia da Picinguaba, Ubatuba, SP

Foto: Acervo de Roberto Teixeira de Oliveira, Praia da Almada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Cristina Prochaska, Praia do Cruzeiro, Ubatuba, SP

Fausto Pires de Campos (Trindade-RJ, Década de 70)

Fausto Pires de Campos (Trindade-RJ, Década de 70)

Foto: Peter Santos Németh, Sertão do Ubatumirim, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Sertão do Ubatumirim, Ubatuba, SP

Foto: Fabi Bonete, Praia do Bonete, Ilhabela, SP

Foto: São Sebastião Tem Alma

Foto: Adriano Perna, Praia do Bonete, Ilhabela, SP

Foto: Adriano Perna, Praia do Bonete, Ilhabela, SP

Foto: Adriano Perna, Praia do Bonete, Ilhabela, SP

Foto: Adriano Perna, Praia do Bonete, Ilhabela, SP

Foto: Acervo da família Prochaska, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP


Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP




Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP


Foto: Ricardo Martins Monge (Papu). Paraty, RJ

Foto: Amyr Klink, Paranaguá.

Foto: Peter Santos Németh, Sertão do Ubatumirim, Ubatuba, SP


Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP


Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP




Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP



Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP





Foto: Élvio de Oliveira Damásio, Praia do Ubatumirim, Ubatuba, SP



Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP

Foto: Peter Santos Németh, Praia Enseada, Ubatuba SP