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quarta-feira, 16 de março de 2016

PARABÉNS CAIÇARAS!

Dia 15 foi dia dos Caiçaras.
Para recordar um pouco da força de resistência desse povo espetacular,
indico o primoroso livro de Nicia Guerriero e Xixico,
CARAPIRÁS: entendendo o peixe de Boiçucanga (download aqui). 
Abaixo reproduzo um pequeno trecho sobre as Canoas Caiçaras e sua relação com o pescador e a cultura tradicional, mas existe muito mais informação de altíssima qualidade no livro.
Para aqueles que tiverem um mínimo de vivência cultural com os Caiçaras, irá reconhecer imediatamente, costumes, palavras, estratégias de pesca e tradições que são exclusivas desse povo anfíbio, que ainda hoje, resiste.
Foto: Carapirás, Guerriero e Xixico, 1994
AS CANOAS
A canoa, esculpida num tronco só, é um dos meios de locomoção mais perfeitos que existem.
É preciso muita sabedoria para se fazer uma canoa. A começar por escolher a árvore certa, que nunca o canoeiro saiu por aí derrubando qualquer árvore em qualquer tempo.
O canoeiro corta o pau no meio da mata e ali mesmo começa a moldar a canoa. Ele tem que considerar o lado em que ela tomava sol, pra depois não ficar pensa. Tira uma primeira fatia, deixando reta a face que será côncava. Aí cuidadosamente calcula toda a geometria da canoa, riscando na madeira as linhas do corte, com o auxílio de um barbante tingido. Então começa a cavocar, fazendo sulcos diagonais. É muita madeira, são necessários bem uns três ou quatro dias de trabalho brabo até que a canoa tenha começado a tomar forma. Isso se for uma canoa pequena, para uma ou duas pessoas.
Quando a tora já está mais leve, arrasta-se a quase canoa até o rio e pela água se desce até a vila, para continuar o trabalho por aqui. E lá se vão mais alguns dias, moldando, lapidando...
Cada praia tem um feitio de canoa ideal para a forma das ondas do lugar. As canoas genuínas de Boiçucanga são bastante arredondadas, assim como a enseada. Seu Guilherme, Seu Benjamim e Seu Biló, os irmãos canoeiros, desenvolveram um desenho típico para Boiçucanga.
(foto) Canoeiro Benjamim fazendo remo 
Hoje, com as leis que protegem as matas, é muito difícil para o canoeiro conseguir a liberação da árvore adequada. A Lei permite trabalhar em troncos que caíram acidentalmente, mas o canoeiro precisa provar à Polícia Florestal antecipadamente, senão corre o risco de ser preso. Tem casos tão complicados, madeiras em lugares tão complicados da Florestal chegar, que acabam estragando.
Houve o tempo das canoas de voga, imensas, dois metros de boca (largura). Eram movidas por seis remadores, auxiliados por duas velas diferentes, usadas de acordo com os ventos. Era o meio de transporte coletivo até a década de 30 e foram substituídas pelos barcos de cabotagem.
Até uns dez anos atrás eram muitas as canoas motorizadas, grandes, com um metro, um metro e meio de boca. Foram sendo substituídas pelos barcos de fundo chato. Hoje a maioria das canoas são pequenas e, do jeito que vai indo, em poucos anos só vendo em museu.
Acredito que a pesca tem que ser mais valorizada, a pesca artesanal tem que ser defendida.

"Pescar é fundamental, a melhor parte da alimentação está dentro do mar. Se o homem perder o conhecimento dos “antigos”, vai demorar muitos e muitos anos para aprender de novo. Esse pessoal antigo aprendeu como pegar o peixe, como preservar, como não deixar acabar. Hoje o homem inventou métodos destruidores”
                                                    (Celso de Souza Filho, XIXICO)

quarta-feira, 13 de maio de 2015

PESCARIA TRADICIONAL DE GAROUPA, entrevista com Antenor e James.

Reproduzo aqui um trecho com menos de 5 minutos de uma conversa de uma hora. Quantos segredos, técnicas, habilidades, sabedoria estão contidos nesses 5 minutos... Imagine durante uma vida inteira de apenas um desses Mestres, que dirá de toda uma comunidade, de gerações... Estamos realmente a queimar bibliotecas em nome da modernidade e do preservacionismo ambiental. Preservacionismo esse que hoje reserva áreas naturais e seus recursos para o desfrute da indústria do turismo, e, no futuro, para uso e exploração das grandes corporações. Porque quando o motivo é alegar o desenvolvimento econômico de um país, o PIB ("gerar empregos"), tudo vale (vide a ampliação do porto de São Sebastião, Belo Monte, etc), e quando não existirem mais comunidades tradicionais que vivam nessas, ou dessas, áreas naturais, ficará muito mais fácil justificar o uso dos recursos para o "bem do país" e seu crescimento econômico.
Foto: Peter Nemeth, Antenor e James, dois Mestres caiçaras.
Esta conversa foi gravada com os Mestres Antenor e James, filhos do Zé Gil, um famoso pescador da Praia da Enseada.

Os pesqueiro Alemão, nós ecolhia antes, por causa de... quando pegava um peixe bom... então cê marcava ali... então tem toquero grande sabe, lugar grande esses toquero... que nem esse Carén Carén aí memo, o Carén Carén ele é um... é quase um cascalho, quase que um parcelzão lá fora, mas tem buraco que o peixe carregava... é só garoupão memo sabe, em baixo do costão, é... meu pai quantas vez quase virava nóis lá (para embarcar a garoupa na canoazinha).
Então assim, você mata um peixe que está naquela toca, outro vem e entra naquele lugar, começa a morar ali também?
Ah é... Eu levei o Ferrão pra pesca lá viu, o Carlos, na... na Boca da Arraia, ali no coisa, ele afundou veio loco: Nossa Senhora! Nunca vi tanto peixe! Que lugar fundo, mas como tem garoupa, só tem garoupa, só garoupão! Ficou tão loco, que nem um pinguim, até que matou uma garoupa e correu de lá por causa da Florestal né... mas lá tem muito. Pesquei co Lagarto uma vez lá, perdemo linha pra caramba lá. Mas é lugá de garoupão. Cê vê como é que é peixe, quase encostado na pedra, a canoa bate na pedra né, o costão... é buraco do costão que vai assim, num é assim, é o final do costão que é lascado. E você vê, ali num tem mar grosso... porque num... o mar num bate, ela sobe e desce com a canoa né, vem aquela onda leva lá no costão mas num vai pra cima né,  arria de novo... eu tinha um medo de pesca cum meu pai ali é... papai chegava pertinho, ele remava pra frente, eu remava pra trás... “Entra, rema seu burro!” (risos) “Tá com medo!”. Naquele tempo não jogava a poita ele pescava como o remo na mão, sabe Alemão, ele governando cum a mão ele enfiava lá na craca memo... Ah, quando ajuntava aquele peixe Alemão... nóis ia andava por cima da pedra... puta que pariu... me fodia cum ele viu...
E garoupa de quantos quilos que puxava mais ou menos?
Ah, a maior que matô aí foi... de linha, foi né, né 23 quilo, de linha... de linha, de espinhel matou bastante... mas de 18 de 20 de 11 de 12, é... todo dia trazia. Eu pescava com linha fina que era pra mantê a despesa, sabe, pagá a isca, matava marimbá, vermelho, jaguaruçá, garoupinha miúda, e ele na linha grossa, um dia falei: Pai, dá uma linha dessa grossa pra mim mata um garoupão desse aí, ele me deu uma linha quase da grossura daquele negócio da bicicleta, mas era linha de algodão Alemão, você fazia assim... tava pesada... jogava pra baixo... fazia assim... tava pesada... fiquei só com a ponta da linha na mão (risos) aí passô uma onda, dei uma ferrada... ele juntou a linha e foi colhendo linha da minha mão... dobrou aquilo e bateu na minha cara com a linha, “Cê num sabe pescá cum essa merda, num pesca”... (risos). Porque a linha fina cê sente, agora a pesada... fica aquele peso... corda de algodão cara... eu joguei a linha dentro da toca da pedra, ele ficô puto comigo... “Tá vendo... você num sabe pescá com isso, num pesca”.
Tinha algum tipo de sinal aqui assim de tipo de temperatura da água, ou alguma maré, que vocês já falavam: Hoje está bom pra garoupa?  
Água quente, água quente, molhava a mão, água quente tava bão, água fria num prestava... água clara né, água clara num presta... água clara ou água fria num presta... (James: Água fria num presta também, peixe entoca num sai.) ela só pega em toca de pedra, só dentro do buraco né.
Então é mais no verão né, a pescaria de garoupa?
Não... no inverno também dá água mais quente... É coisa que eu pesquei sempre com meu pai e nunca procuremo é...lua, nem... vivemo na pescaria a vida toda Alemão, todo dia... quatro hora da manhã, três hora ele saia do Portinho toda hora remano e ia embora... nós num tinha nada de lua, num tinha nada, só o que nós olhava era o Tempo.
Maré tinha, maré boa pra pescar?
Ah é a parte da manhã, Maré Testada né, maré... a parte da manhã que o peixe come e a parte da tarde... maré cheia é...
Eu pescava cum meu pai numa canoinha, tamanho da... daquela branca, aquela do Lagarto de lá rapaz, a onda batia molhava nóis, sabe assim, a gente rodava aquelas Palma de madrugada né rapaz... aquela Ponta de Sul das Palma é fundo pa caramba. Nóis entrava aqui pelo Leste e saía pelo Sul todo dia... quanta tromenta peguemo, ficamo lá pra cima da Praia de Leste, pra Praia do Sul... que num dava pra passá. E que num tinha comido num tinha nada, ficava assim na seca memo, fudido Alemão.
E comer, vocês não levavam comida, nada?
Ó Alemão, antigamente uma garrafa de café fria, uma garrafa de café fria... num num tinha garrafa né (térmica), garrafa coisa memo com rolha de coisa... e tinha veiz que levava resto de comida, farofa uma coisa assim pra comê né.
Comia na canoa mesmo ou parava?
Comia na canoa memo... que parava nada... meu pai era um homi Alemão que quando tava pescano, ele fumava no cachimbo... sabe o que ele fazia pa num botá fogo no cachimbo... ele cortava um pedaço de fumo com a unha e mastigava cara... pa num perdê tempo de acendê cachimbada...  tava comeno arguma coisa, gole de café num tinha caneca né, bebe na boca assim que nem...
E isca, que isca que vocês levavam?
Isca era bonito, bonito, sardinha, peixe que tinha (James: panaguaiú, sardinha.) peixe podre que tivesse... O melhor é o bonito, mas tem que tá meio passado, toda a pescaria assim de garoupa é isca passada... antigamente não tinha gelo, meu pai enterrava né, enterrava na areia, e no outro dia de manhã cavucava pra pesca... quando vinha de lá já tava meio podre ele jogava um bocado de sal pra num perdê né, punha sal e deixava... fidido pa caramba...

sexta-feira, 13 de março de 2015

Quando o Diário Oficial só serve para embrulhar peixe.

Todo processo decisório, quando envolve a construção, elaboração e implementação de políticas públicas ambientais lida com duas dimensões complementares embora antagônicas: o plano imaterial das ideias e o plano material da concretização do que foi idealizado previamente. Mas nesse processo "alquímico" de transmutação, nem sempre o ideal corresponderá ao concreto, ainda mais quando a diversidade de visões de mundo e de interesses em disputa estão naturalmente em conflito dentro do universo das políticas públicas voltadas para a gestão dos recursos-territórios naturais.
Percebemos então, que no campo imaterial das ideias está inserido o processo pré decisório, que envolve as habilidades da comunicação, negociação, articulação e convencimento. Já no campo do material está a implementação realizada, o efeito real que tais decisões proporcionam e os beneficiados, ou prejudicados, pela política ambiental escolhida.
Porém nesse espaço fronteiriço entre o imaterial e o material, surge, como ponte de ligação um instrumento híbrido, nem ideia nem matéria, ou melhor, uma ideia coletivamente lapidada, ritualmente sacramentada, e, materializada só em tinta e papel, que são os instrumentos normativos, tais como: leis, decretos, resoluções e portarias.
Só que esse processo de construção de políticas públicas através de normas de comando e controle, que é fruto do embate das ideias tentando apreender ou moldar a dimensão física material, é, em sua essência, antagônico ao processo de construção do regramento tácito das populações tradicionais, onde é a natureza material dos espaços com seus ritmos, ciclos, surpresas e geografia peculiares, quem molda as “leis do respeito”, ou melhor, a tradição cultural.
Desse modo, o saber imaterial tradicional está sempre em consonância com o plano material em que ele está inserido, num processo análogo ao científico de constante avaliação, corroboração, adaptação e revalidação.
Portanto, qualquer tentativa de gestão governamental sobre essas culturas-territórios-ambientes sem considerar as dimensões materiais e simbólicas das populações locais e sua capacidade de manejo do ambiente natural em que elas estão inseridas, acarretará compulsoriamente a inutilidade material futura de todo esforço imaterial pré decisório gerador de uma política pública natimorta, impossível de ser colocada em prática de modo eficaz.
Assim, o máximo de concretude que essas ideias alcançarão será a de uma simples folha de papel amarelada pelo tempo, esquecida em um fundo de gaveta qualquer, ou, se for mais nobre seu destino, uma página do Diário Oficial que embrulha a garoupa “de linha ”, comprada de uma banca familiar de peixe, no mercado municipal local.
(TRECHO ADAPTADO DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DE PETER S. NÉMETH - 2016)
foto: Peter Németh, bonito legítimo.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Entrevista com Antonio Carlos Diegues, caiçara e Nobel da Paz.

Esse trecho foi retirado de uma entrevista concedida pelo Prof. Dr. Antonio Carlos Diegues à repórter Carlota Cafieiro do jornal A Tribuna, publicado em 10 de novembro de 2013.
foto: Paulo Nogara.
A definição de caiçara cabe à qualquer pessoa nascida no litoral do Brasil?
O termo caiçara não se aplica à comunidades de pescadores e lavradores a não ser aqueles nascidos em em um território que compreende do litoral paranaense até o sul do Rio de Janeiro. Existem até cidades que se chamam Caiçara, como uma no Rio Grande do Norte, mas não tem nada a ver. É outra cultura. São também caiçaras as comunidades que passam por Santos e vão até Mongaguá, Ubatuba, Paraty, praticamente às portas do Rio de Janeiro. Elas têm o mesmo modo de vida.

O que mais define um caiçara além dessa geografia?
O modo de vida baseado na associação da pequena agricultura de mandioca e arroz para subsistência e a pesca artesanal. O que faz o caiçara são essas atividades, além do seu modo de falar, porque ele tem uma espécie de dialeto que vem do português antigo, do tempo da colonização. Essas áreas ficaram muito tempo isoladas da capital, sobretudo no Vale do Ribeira e em Ubatuba, pois não existiam estradas. O transporte era feito do norte de Paraty para Santos pelas famosas canoas de voga (remo). Eram canoas enormes, de dez metros de comprimento e boca de um metro e meio de largura, que não é mais construída, na qual os pescadores traziam tonéis de aguardente, peixe seco, farinha para negociar em Santos e voltavam para Iguape e Cananéia, pois até o começo do século 20, não tinha estrada nenhuma.

No que a cultura caiçara contribui para a identidade brasileira?
Assim como os sertanejos, seringueiros na Amazônia e caboclos, eles são os formadores da nossa cultura e da nossa história, além dos índios, negros e imigrantes. Quer dizer, a cultura brasileira deve muito a essa população que ocupou o litoral, os rios e o interior. Mas isso nunca foi totalmente reconhecido no Brasil.

Por que isso acontece?
Existiu e ainda existe muito preconceito, como se os caiçaras fossem ignorantes. Um absurdo, porque quem convive com eles sabe o duro que dão. Eles seguem o relógio da natureza, das marés, dos ventos. Não vão sair quando sabem que não tem peixe. Têm um conhecimento fantástico do mundo natural. E isso vem sendo recuperado pelas universidades. Hoje, existem muitos mestrandos e doutorandos que estudam essa questão do conhecimento tradicional, coisa que as cidades ignoram.

Quais fatores prejudicam a cultura caiçara?
Basta notar o que aconteceu em Ubatuba com a especulação imobiliária. Quando os paulistanos chegaram ao litoral encontraram os caiçaras na praia, e a forma para justificarem moralmente a tomada de terras deles era dizer que não a mereciam porque não trabalhavam, pois eram preguiçosos. Isso não aconteceu só no Brasil, mas no mundo inteiro. A forma de você pegar a terra dos outros é dizer que eles não são humanos. Em segundo lugar, os caiçaras foram alijados pelas chamadas áreas protegidas, como a da Juréia. Hoje, praticamente 80% das áreas em que os caiçaras viviam, incluindo o litoral norte, são protegidas. Os pescadores não podem cortar mais nenhuma madeira para fazer canoa, não podem fazer sua roça, e encontram limitações para fazer seu artesanato. Não precisava ser assim.

Você percebe resistência por parte dos pescadores?
Começa-se a recuperar essa tradição caiçara, até porque eles começaram a reagir e passar para algum protagonismo. Eles começaram a reagir contra a especulação imobiliária de alto nível, pois se sentiram enganados durante a transferência da posse de terras, muito por não saberem ler.

Existe também uma reação por parte da cultura?
Sim, começou a renascer parte da cultura que estava esquecida, como o fandango, a rabeca e a culinária caiçaras. Ajudadas por institutos de pesquisa e ONGs, essas culturas começaram a se reequilibrar. Vejo isso em Iguape e Cananéia, onde existem as Redes de Cultura, e na Juréia.

Como os caiçaras deveriam ser vistos pela sociedade?
Como vigilantes da natureza, pois eles conhecem a mata como ninguém. Têm uma capacidade incrível de reconhecer seu território e quem passa por ele, tanto que um caiçara com casa na praia sabe quem passou por lá pelas pegadas na areia. Se fossem adequadamente incorporados nesse processo de conservação da natureza, até a fiscalização seria mais fácil, pois eles ajudariam denunciando se tem algum palmiteiro ou um madeireiro agindo na região. mas eles são sistematicamente expulsos e isso é uma besteira política e ambiental, pois é justamente na área caiçara que existe a maior parte da Mata Atlântica conservada, diferentemente do interior, onde as florestas foram destruídas pela cultura da cana de açúcar e dos laranjais. tanto que as pessoas que destruíram a natureza são ricas, e a população caiçara, responsável pela floresta estar de pé, é pobre.

Quais são as consequências da expulsão dos pescadores artesanais de seus locais de origem?
Os conflitos serão insolúveis. É preciso resolver o problema das populações nativas. Veja o caso da Juréia, onde até hoje existe briga. Os pescadores foram transferidos para a periferia e se transformaram em subempregados.

A população caiçara compreende quantas pessoas atualmente?
Eu mesmo tentei fazer uma estimativa desde o litoral paranaense até às portas da cidade do Rio de Janeiro. Hoje não passam de 80 mil pessoas, um número muito baixo em relação ao que eram antes. É um terço do que tinha no começo do século 20. Eles foram muito massacrados.

Fotocópia do Nobel original. Foto: Peter Santos Németh
Breve biografia do Prof. Diegues: aos 70 anos (2013), é um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz, concedido coletivamente em 1981 ao Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, em Genebra na Suíça. Nessa época viajou pelo mundo, passando do Vietnã arrasado logo após a guerra até a China de Mao Tsé Tung. Nascido em Santos e criado em Iguape, é filho de uma professora primária com um imigrante da Galícia dono de uma padaria em Santos. Em 1966 entrou para a USP mas como era vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), foi perseguido pela polícia e teve que refugiar-se no Maranhão. Mais tarde fez mestrado em desenvolvimento rural na Holanda e passou também pela França, onde iniciou o doutorado sobre pescadores artesanais em 1974. Hoje é professor de pós-graduação na USP e diretor científico do NUPAUB. Escreveu mais de 30 livros, alguns deles embora esgotados ainda podem ser encontrados através do e-mail: bambuluz@yahoo.com.br
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