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quarta-feira, 27 de março de 2019

A PESCA DE MARCAÇÃO EM UBATUBA - SP

"A 12a edição da coletânea do PROCAM, que consta de 16 artigos elaborados por alunos de Mestrado e Doutorado, apresenta-se como um conjunto de textos que caracterizam as múltiplas reflexões que compõem o quadro de pesquisas desenvolvidas nas suas diversas linhas de pesquisa dentro do arcabouço da Ciência Ambiental. A complexidade dos eventos associados à problemática ambiental impõe a necessidade de diálogo entre ciência, gestores e sociedade, em virtude da emergência de fenômenos que representam ameaças globais, em um cenário que Ulrich Beck (2010) define como sociedade de risco. Neste sentido, coloca-se a necessidade de aprofundar o debate de temas que têm, nos diferentes tipos de incerteza, a possibilidade de multiplicar conhecimentos e diálogos e construir um olhar mais apropriado para lidar com estas questões prementes."
"Nesta publicação, destaca-se mais uma vez, a preocupação do PROCAM de apresentar resultados de pesquisa desde uma perspectiva interdisciplinar. No conjunto de artigos aqui apresentados, enfatizase a importância dos processos sociais que determinam as formas de apropriação da natureza e suas transformações, através da participação social na gestão dos recursos ambientais em suas múltiplas manifestações, seja em políticas públicas, assim como nas práticas dos diversos atores sociais."

"No artigo “A pesca de marcação nos mares da Enseada do Flamengo, Ubatuba, São Paulo”, de Peter Santos Németh e Antonio Carlos Sant’ana Diegues, abordam-se as técnicas e conhecimentos relativos à pesca de marcação nos territórios marítimos tradicionais utilizados pela comunidade de pescadores artesanais da Praia da Enseada, na Enseada do Flamengo em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Concluiu-se que a atual regulação pesqueira, federal ou estadual, é feita “de cima para baixo”, ignorando deliberadamente as peculiaridades locais e os processos e mecanismos pelos quais os pescadores estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços marítimos, atropelando as regras tradicionais baseadas no direito consuetudinário, e afetando sua liberdade e autonomia."

Fonte: Caminhos do conhecimento em interdisciplinaridade e meio ambiente / Pedro Roberto Jacobi / Paulo Antonio de Almeida Sinisgalli (organizadores) – São Paulo: IEE-USP e PROCAM-USP, 2018. 1ª Edição. 419 páginas.  ISBN 978-85-86923-55-5


quarta-feira, 31 de maio de 2017

MAPA DA TAINHA

Fonte: https://www.facebook.com/mapadatainha/
"A ideia deste projeto surgiu em 2016 dentro do Grupo de Estudos em Socioantropologia Marítima do NUPAUB-USP que coordena o Mapa da Tainha. A proposta deste mapeamento é registrar de modo colaborativo a captura da tainha (Mugil liza) pela pesca artesanal durante o período da safra de 2017. O objetivo principal é construir um banco de dados e imagens georeferenciados aberto a consulta de pescadores, pesquisadores e gestores públicos interessados em conhecer melhor a migração e a organização da pesca artesanal da tainha.
Acreditamos que o auto-monitoramento é instrumento fundamental para qualificar a interlocução dos pescadores nas instâncias gestoras responsáveis pela formulação de Políticas Públicas voltadas à pesca, à proteção ambiental e ao reconhecimento territorial de comunidades tradicionais. Importância que ganha destaque no atual contexto de desarticulação administrativa, restrição orçamentária e priorização de interesses empresariais, que colocam em risco iniciativas de ordenamento pesqueiro, como o processo de implementação das Diretrizes da FAO para a Pesca Artesanal no Brasil, e especificamente das discussões em torno do processo de formulação do Plano de Gestão para o Uso Sustentável da Tainha nas Regiões Sudeste e Sul do Brasil.
O Mapa da Tainha foi concebido para ser uma plataforma aberta, elaborada a partir da colaboração de pescadores e pesquisadores diretamente envolvidos com a pesca artesanal, com objetivo de sistematizar dados e informações a respeito do comportamento dos cardumes e das capturas realizadas pela pesca artesanal. Ampliando o conhecimento sobre a espécie e a atividade, subsidiando o movimento dos pescadores e apontando demandas e horizontes para a pesquisa acadêmica.
Para tanto convidamos aos interessados a colaborar enviando informações sobre a captura nas localidades, informando data e hora da captura - número de lanços se possível -, quantidade capturada, além de fotografias e vídeos."
Acesse mais informações sobre o Projeto em: http://nupaub.fflch.usp.br/sites/nupaub.fflch.usp.br/files/Mapeamento-colaborativo-da-tainha%20Nupaub.pdf
Acesse nossa Política de Privacidade em: http://nupaub.fflch.usp.br/node/19
Acesse nosso Mapa da Tainha em:
https://drive.google.com/open?id=1AtqcXXTHSxxiOqp-AvO7iyyd494&usp=sharing
Conheça nosso Formulário de Reporte de Captura em: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSe4ozTZPfImbe260rmff5wedg8NceuiWR59JtyigO7UQo7hXg/viewform?usp=sf_link


Praia do Gravatá, Florianópolis, SC. Foto: Facebook

sábado, 4 de março de 2017

A PESCA DE TRÓIA EM UBATUBA-SÃO PAULO

SUBSÍDIOS PARA O PLANO DE GESTÃO PARA O USO SUSTENTÁVEL DA TAINHA, NO BRASIL.

Autores:
Peter Santos Németh e Antonio Carlos Sant'Ana Diegues

Resumo:
O presente estudo etnográfico procura caracterizar a arte de pesca denominada pesca de tróia e os petrechos utilizados nesse tipo de técnica pesqueira tradicional, em Ubatuba. A pesca de tainhas e paratis (Família Mugilidae) é de grande valor socioeconômico e seus primeiros registros no litoral sudeste brasileiro datam de meados do século XVI. Ainda hoje, a pesca de tróia é praticada em diversas comunidades locais do litoral norte de São Paulo. Culturalmente, essa técnica de pesca é de extrema importância para a transmissão dos saberes tradicionais relacionados às artes de pesca praticadas em canoas à remo e uma das principais responsáveis pela manutenção do patrimônio cultural pesqueiro caiçara.

TEXTO COMPLETO

Este artigo derivou da dissertação de mestrado entitulada:
A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta: a interdição dos territórios pesqueiros ancestrais e a reprodução sociocultural local
Praia da Enseada final dos anos 1940. Foto: Paulo Florençano

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CONVITE DEFESA: A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta.

Prezados amigos, convido todos que tiverem interesse em assistir a defesa da dissertação de mestrado cujo resumo segue abaixo. Será dia 15 de setembro próximo, as 10 horas no NUPAUB - USP.
Comissão Julgadora:
Prof. Dr. Antonio Carlos Sant'Ana Diegues, NUPAUB/USP, Orientador e Presidente da Comissão; 
Prof. Dr. Alexander Turra, IO/USP;
Profa. Dra. Cristiana Simão Seixas, UNICAMP;
Profa. Dra. Sueli Angelo Furlan, PROCAM/IEE/USP.

RESUMO
NÉMETH, Peter Santos. A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta: a interdição dos territórios pesqueiros ancestrais e a reprodução sociocultural local. 2016. 243 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental) – Programa dePós-Graduação em Ciência Ambiental – Instituto de Energia e Ambiente daUniversidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

 O presente estudo busca analisar os saberes e “técnicas patrimoniais” (DIEGUES, 2008: p.63) utilizadas pela população dos pescadores caiçaras que atuam na região da Ilha Anchieta e Enseada do Flamengo, em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Este corpo cumulativo de habilidades especiais, transmitidas oralmente, compõem o conhecimento tradicional pesqueiro local, patrimônio imaterial sobre o qual fundamentam sua reprodução sociocultural e o manejo de seus pesqueiros[1] tradicionais. Serão abordadas as relações entre a “apropriação social do ambiente marinho” (GEISTDOERFER, 1974; 1982; CORDELL, 1989; 2000; DIEGUES, 2004a) e os conflitos decorrentes do embate entre essa noção ancestral de propriedade por parte dos pescadores artesanais locais e as questões legais do gerenciamento territorial desses pesqueiros pelos órgãos oficiais. Hoje, a disputa pelo domínio sobre esses recursos pesqueiros comuns (seja por órgãos governamentais conservacionistas ou de fomento à pesca, seja pela pressão política da pesca capitalista de escala industrial e da pesca esportiva amadora) cria frágeis mecanismos de regulação do acesso a esses “pesqueiros” (CORDELL, 1974; 1989; GEISTDOERFER, 1982; NIETSCHMANN, 1989) e aos recursos que neles ocorrem, quase sempre excluindo o pequeno pescador artesanal do processo de tomada de decisão e governança. Essa regulação pesqueira, federal ou estadual, feita “de cima para baixo” (LEIVA, 2014: p.138) ignorando deliberadamente as peculiaridades locais e “os processos e mecanismos pelos quais os grupos estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços interessantes” (MALDONADO, 1994: p.35). Este sistemático des-respeito atropela e põe em risco a característica fundamental que rege e sustenta todo o universo sociocultural e simbólico dessas populações tradicionais locais: a sua liberdade e autonomia (CUNHA, 2000: p.108, RAMALHO, 2007: p.36, BRANDÃO, 2015: p.75), ou seja, a capacidade de governarem a si próprios. 

Palavras-chave: conhecimento tradicional, territórios pesqueiros, apropriação social do ambiente marinho, direito consuetudinário caiçara.




[1] Além das palavras estrangeiras, utilizar-se-á também o itálico para destacar as expressões especiais do vocabulário técnico tradicional caiçara local. 

CLIQUE AQUI PARA ACESSAR O TEXTO COMPLETO

Se esqueci de algum nome nos agradecimentos me perdoe pois são mais de 10 anos de amizades para agradecer e eu posso ter me esquecido de alguém durante este longo percurso, obrigado a você também.

Agradecimentos:
Agradeço às minhas famílias, os Both Németh, os Carvalho Santos, os Casalderrey Prochaska. Minha querida Lilian e meu filho Rafael, sempre o porto seguro durante os tempos de mar revolto, amo vocês.
Minha gratidão e reverência a todos os “fogos” caiçaras de norte a sul de Ubatuba, que me adotaram como a um filho, iniciando-me nos segredos da arte pesqueira tradicional.  Em especial à Turma da Enseada, os dos Santos, os Giraud, os Góis, os Graça, os de Oliveira e os de Jesus e aos amigos bravos remadores ubatubanos da AARCCA, rema!
Agradeço em especial ao Prof. Diegues pela imensa generosidade em abrir as portas da academia para um simples “pescador” e também ao Luiz Bargmann Netto, primeiro apoiador do meu trabalho como pesquisador.
Obrigado aos pesquisadores locais, José Ronaldo dos Santos, Julio César Mendes, Mário Ricardo de Oliveira e Élvio de Oliveira Damásio: os “três mosqueteiros” da resistência caiçara ubatubana. Peço bênçãos em nome do Divino Espírito Santo, obrigado Foliões!
Ao povo paulista pela manutenção do NUPAUB/PROCAM/IEE/USP; aos colegas, funcionários e professores que incentivaram a integração de conhecimentos: Sueli Furlan, Adrian Ribaric, Gustavo Moura, Luiz Beduschi, Sílvia Zanirato, Pedro Jacobi, Paulo Sinisgalli, Eduardo Caldas, Alexander Turra, Maria Gasalla, Claudia Santos, Ivan Martins, Caiuá Peres, Henrique Kefalás, Antonio Afonso, Samuel Yang, muito obrigado.
Um imenso obrigado ao MAPA-Ubatuba, Ana Maria Paschoal da Cruz e Paulo Vasco e Fundação Florestal, Lucila Pinsard Vianna e Priscila Saviolo Moreira.
Agradeço aos companheiros dos vários fóruns de discussão dos quais participei no litoral norte: APE, MAPEC, AMESP, Z-10, CMDRP, PEIA, APA Marinha do L.N., PMU, SEAP/MPA, TAMAR, e especialmente aos amigos pesquisadores do Instituto de Pesca de Ubatuba, Sérgio Ostini (in memoriam), Élvio Damásio, Helcio Marques, Valéria Gelli, Ricardo Pereira, Marcelo Alves, Roberto Seckendorff, Venâncio de Azevedo, Laura de Miranda, Marcus Carneiro e Eduardo Sanches. Vocês do “Pesca” são valorosos semeadores de mares e de mentes.
Muito obrigado ao povo brasileiro pela bolsa CAPES de auxílio à pesquisa.













FOTOS DA DEFESA: Prof. Adrian Ribaric.

sábado, 7 de maio de 2016

MESTRE ANTONIO PERES da Praia do Lázaro.

Pesquisando já há um bom tempo sobre a Ilha Anchieta, encontrei alguns depoimentos interessantes sobre a Ilha, levantados junto aos pescadores locais em 1974, que integram os relatórios FUMEST para o Plano de Exploração Turística da Ilha Anchieta .
Entre estes depoimentos está o do Sr. Antonio Peres, Mestre pescador da Praia do Lázaro e filho de um espanhol, antigo morador da Ilha Anchieta. Resolvi então reproduzir este valioso depoimento quase desconhecido e também juntar outro que já conhecia feito por Marcos Malta Migliano por volta de 1993.
Também o Seu Peres foi imortalizado pelo ex-Titã Nando Reis, na letra da música Pré Sal: 
Desbarrancar das margens parte o lázaro zinho 
Fitas demarcavam rubras tardes de volley 
O centenário perez caminhava sozinho 
Strombus pugilis de róseos lábios 
Bem banhados pela espuma da areia 
Subir num jacaré no cedro e olhar fortaleza 
Sumiu a ilha do mar virado e junto as certezas 
Ácido dourado a pedra me lagarteia 
Na rede o picaré estrelas do mar no céu 
Desponta a dalva de oliveira
Assim pretendo reunir em um só lugar estas informações tão importantes sobre a história da Ilha Anchieta, narradas por este grande Mestre caiçara que ainda tem um depoimento gravado pela FUNDART, dado ao saudoso Ney Martins em 1996.

Por volta de 1974, o Sr. Peres foi entrevistado pela equipe do Professor José Witter e deu o seguinte depoimento que transcrevo a seguir.

Senhor Peres.
Antigo pescador. Hoje tem um restaurante, na Praia do Lázaro (tem uma série de hotéis - Cr$90,00 casal com café da manhã, a praia é linda).
Não acredita em assombração nem viu nada. Aconselhou a falar com Manoel Lopes que mora no Lázaro e nasceu na ilha, Conta que antes do presídio moravam na ilha 150 famílias. A pessoa interessada em instalar um presídio na ilha entretanto, informou ao governo que só havia uma pessoa. O governo então desapropriou. 
O pai de Manoel Lopes foi reclamar do governo que deu uma indenização aos pescadores. No tempo dos pescadores a ilha era toda plantada. Tinha café, banana e laranja que ainda podem ser encontrados. No meio da mata também, no lado de cima há pedaços de casas de pescadores. A ilha era o melhor lugar de pescaria de Ubatuba. Peres trabalhou muito com rede lá, mesmo no tempo do presídio. Nunca houve proibição para os pescadores lançarem redes na ilha. Tinham porém que dar 30% ou 40% para a alimentação dos presos. 
Antes é que havia fartura de peixes. Qualquer criança com um rolo de cipó arrastado na praia pegava 20 ou 30 pescadinhas. Hoje com a maior rede não se pega meia dúzia.
Tainhas, de julho a agosto pegava-se de 5.000 a 10.000 por dia. No Saco da Ribeira não se contava o que pulava no ar. Este (ano) o Sr. Peres não viu uma tainha. Elas se criam na lagoa dos Patos e são mortas lá. As que se criam, os barcos grandes pescam fora (em alto mar). De corvina, antes se tirava 20 toneladas na rede, hoje não se pega 20 kgs. A pesca de arrastão (de porta e de parelha) mata os peixes. Para 1 tonelada que se aproveita, joga-se fora 5.
No tempo em que o Sr. Peres era pescador, não havia lá geladeira. O peixe era salgado e vendido seco ao sol. 
O governo devia fiscalizar o estrago dos peixes. a fiscalização que existe não funciona. Os fiscais de caça e pesca nem tem uma canoa.

Abaixo a reprodução  integral do texto disponível em: http://www.litoralvirtual.com.br/canoeiro/peres.htm.

História de um pescador
Marcos Malta Migliano
Eu particularmente tive muitos mestres e deles guardo grandes recordações. Sou-lhes profundamente grato pelo pouco que sei. Um deles, Antonio Peres, conheci em 1963, em Ubatuba. Juntamente com Lothar Bamberg, ele me ensinou muitas coisas sobre pesca e mar.

"Seu Peres" nasceu na Praia do Lázaro, em Ubatuba, e é um mito, pois até esta data ninguém sabia informar sua idade. O conheço há mais de 30 anos, durante os quais, seu físico pouco se modificou.
Eu era um moleque e ouvia fascinado as histórias que "Seu Peres" contava sobre suas andanças como pescador. Hoje ele é um próspero comerciante, dono do Hotel Canoeiro e do Restaurante do Peres, que por sinal, são muito bons na Praia do Lázaro.
Na semana santa deste ano fui a Ubatuba e aproveitei para passar pela praia do Lázaro e rever os amigos. Tive e idéia de entrevistar "Seu Peres". Afinal, se aprendi tanto com esse homem, porque não dividir isto com os amigos pescadores. Vamos lá!

"Seu Peres", em que ano o senhor nasceu e onde exatamente?

Nasci aqui no Lázaro em 11 de novembro de 1912. Meu pai nasceu na Ilha Anchieta e era descendente de espanhóis. Minha mãe era negra e nasceu no sertão do Rio Escuro.

Isto explica porque o senhor, embora tenha pele escura, possui traços delicados. Seu avô, espanhol, provavelmente era descendente de algum comerciante ou mesmo pirata... Mas, continuando, como era a vida no Lázaro naquela época?

A vida não era fácil. Pra você imaginar, fósforo era uma coisa rara. Quando tinha, era vendido por unidade. A gente acendia o fogo com laranjeira, em uma vala no chão cercada de três pedras (tacuruba) e, à noite, cobríamos com cinza para não apagar. A isto chamávamos de mãe do fogo. Quando ela apagava pegávamos um tição emprestado do vizinho. Daqui à cidade eram 4 horas de caminhada pela mata. Quando morria alguém, colocávamos o corpo em uma rede e transportávamos até a cidade pela mata. E naquela época havia inúmeros animais selvagens pela mata, onde abundavam onças.

E a pesca, "Seu Peres"?

Quando eu era menino, ninguém pescava por aqui, pois não tinha como conservar o peixe. Nós trocávamos ovos, pinga, pimenta e banana por querosene, sal e sabão. Tanto é que com 15 anos fui para Santos trabalhar num sítio de bananas. Havia um barco chamado "Santense" que, de 8 em 8 dias, fazia ligação com Ubatuba. Eu voltava pra cá a cada 2 ou 3 meses para deixar um dinheiro para a família. Em 1943, por causa da guerra, a exportação de bananas fracassou e a procura por peixe aumentou. Então voltei e comecei a trabalhar com minha primeira canoa, feita de timbaúba. O peixe salgado tinha muito valor na época. Foi ai que comecei a pescar. A gente usava espinhel, mas não existia o náilon. As linhas eram verdadeiras cordas de algodão e para que não apodrecesse, a gente fazia um caldo de arueira e aplicava nas cordas, isso dava uma impermeabilização. A linha "madre" tinha mais de um dedo de espessura, dai saia os "estropos" com os anzóis.

Onde o senhor soltava os espinhéis?

Aqui na frente mesmo, pegávamos inúmeros cações, alguns chegavam a pesar 250 quilos. Às vezes soltávamos no canal do ilhote do sul da Ilha Anchieta. Ali existiam cações enormes. Atrás do Mar Virado, cruz credo! Era soltar o espinhel e perder. Os cações desgraçavam com tudo e, quando sobrava alguma coisa do espinhel encontrávamos cações de 70 quilos cortados pela metade. Nos meses de maio a junho, pescávamos tainha. Pra isso utilizávamos dois "espias".

O que eram "espias"?

À noite saíam duas canoas e ficavam observando as tainhas se aproximarem da praia. Quando elas apareciam, eles davam um sinal e os demais pescadores que pernoitavam na praia, punham logo outras duas canoas com a rede e cercavam o cardume recolhendo-o à praia. Numa daquelas noites, um bando de cações se aproximou e um deles mordeu o fundo da canoa de um dos espias, que começou a fazer água. Ele só se salvou porque o companheiro encostou logo a outra canoa e ele mudou de embarcação. Depois comecei a pescar sardinha na traineira de Pedro Leandro (pescador muito conhecido que faleceu com mais de 90 anos. Com ele tive o prazer de uma vez pescar garoupas). Quando saíamos em busca de sardinha, toda vez que recolhíamos a rede, os cações arrodeavam a traineira e nós lançávamos na água verdadeiras cordas munidas de anzol de 20 cm, com um reforço soldado na curva do anzol para que ele não abrisse, fazíamos um cacho de umas 15 sardinhas e era só soltar na água que o bicho ferrava, depois segurávamos a corda e mais ou menos 8 homens. Pegávamos cações desta maneira de 350 quilos.

Com esta quantidade de tubarões o senhor deve ter visto muitos acidentes.

Não. Nunca vi ninguém mordido ou morto por cação.

Mas como nunca houve nenhum acidente, com essa quantidade de cações grandes, se hoje em dia, com menos peixes temos notícias de vários ataques de tubarão?

Muito simples: os caiçaras da minha geração não sabiam nadar. Nuca entravam na água, nem na praia e por isso mesmo só saíam com tempo muito firme. Hoje em dia o pessoal pula no mar em qualquer altura só para tomar um banho. Isso nunca acontecia naquele tempo.

Fora o cação, qual foi o maior peixe pescado pelo senhor na linhada?

Foi um mero de 150 quilos fisgado aqui mesmo na ponta do Lázaro. Demorei umas 3 horas para tirar e ele arrastou a canoa por mais de 500 metros. Eu perdi um maior na ponta da Enseada. Devia ter uns 300 quilos. O mero é danado: quando percebe que está ferrado, sai como um louco. Se a gente folga um pouco ele fica quase parado no fundo, vai nadando muito devagar.

Depois destas características descritas pelo senhor, aliadas a lembrança de um mero que perdi em Natal, conclui que o peixe - batizado por mim de "coisa" - que perdi na Barra do Pujuca, na Bahia, devia ser um mero de mais de 100 quilos. Mas voltando as suas lembranças, o senhor não gostava muito de pescar de linha?

Eu gostava sim. Muitas vezes ia à noite à Ilha Anchieta e nas Palmas pescar garoupa. Naquela época pegava grandes bitelos. Usava como isca bonito ou sardinha.

Agora o senhor vai me revelar um segredo: durante mais de 20 anos em que faço pescarias por aqui, o senhor sempre acertou o tempo. Lembro-me que eu levantava às 5 horas da manhã para ver como estava o mar e já o encontrava na praia. Então me dizia: "Hoje tudo bem, pode ir". Às vezes, me falava: "Hoje o mar vai virar". Todas as vezes que não ouvi seus conselhos me arrependi. Como o senhor acertava?

("Seu Peres" dá um sorriso amarelo e começa a contar)
Como não sabíamos nadar e nossas embarcações eram meio primitivas, não podíamos correr nenhum risco, por isso observávamos bem os sinais do tempo. Quando as estrelas estão brilhando demais no céu, é sinal que vai "noroestar" (vento forte a noroeste). Quando no nascer do sol ou no por do sol estiver muito vermelho o tempo vai virar. Antes de nascer o sol, se as folhas das árvores tiverem bastante orvalho o tempo será firme. Se elas estiverem secas o tempo vira. Outra prática infalível é observar o Pico do Corcovado (em Ubatuba): se estiver bem limpo, o tempo normalmente é bom; se estiver encoberto, vai chover.

Quando começou a acabar os peixes por aqui?

Depois de 1970 o peixe foi desaparecendo. Em primeiro lugar, acho que foi por causa do excesso de arrasto. Por mais de 15 anos arrastarem dia e noite aqui na baía do Lázaro, matando peixe que vinha reproduzir ou crescer. Depois pelo desrespeito ao defenso na pesca da sardinha. A sardinha é o pasto do mar, se não tiver sardinha os peixes vão procurar alimento em outro lugar. Agora pararam de arrastar porque não tem mais nada. É possível que o peixe volte. Uma coisa que voltou foram as baleias. Durante muitos anos elas vinham aqui na praia do Lázaro. Depois ficaram mais de 20 anos sem dar as caras. Agora, todo ano tem uma visitinha. Não na quantidade que havia 40 anos atrás, mas estão voltando. As tartarugas também estão aparecendo em maior número. Acho que é devido ao Projeto Tamar.

E o senhor ainda pesca?

Profissionalmente e esportivamente. Ainda tenho meu cerco na Anchieta, inclusive no ano passado, entrou uma tintureira de 250 quilos. E as vezes eu saio para apanhar um espada ou uma garoupa na Ponta da Cruz.

Agora revele-nos um último segredo: o que faz para estar assim em plena forma?

("O velho Peres dá uma risadinha, levanta-se, vai buscar uma cerveja gelada e um camarão no bafo. Ao voltar, me diz:)
Conte um pouco das pescarias que você tem feito por ai, em outras terras...

Embora ele dissimulasse bem, eu não me perdi. Quando deu uma folga, chamei o Edinho, um de seus sete filhos, que toma conta dos negócios do pai na Praia do Lázaro, juntamente com os irmãos Carlinhos e Josué, e pedi que me contasse a formula do velho para continuar assim, do mesmo jeito de quando o conheci, há 30 anos. Ele também não fala, mas eu acabei descobrindo: "Seu Peres" não come frituras; peixe, só ensopado; e salada quase a semana toda; carne vermelha no máximo uma vez por semana; bebida, muito pouco; levanta muito cedo; caminha uns 5 km de manhã e outros 5 km à tarde, ai ele entra um pouco na água do mar e nada muito... Só, mar alimentação sadia, caminhadas, enfim, uma perfeita harmonia com a natureza, o que resulta em muita paz. Assim nem dá para perceber o tempo passando. É por isso que ele nunca vai envelhecer.     FIM.

Sobre a Praia do Lázaro, o pesquisador ubatubano, José Ronaldo dos Santos nos dá a seguinte informação em seu blog http://coisasdecaicara.blogspot.com.br: 
Vovó Eugênia, cuja vó viveu como escrava na Praia do Lázaro até quando veio a abolição em 1888, assim dizia
"Meu pai, João da Barra, era dono de um pedaço de terra na Praia do Lázaro, com duas medidas de dez braças de imbé, indo até o morro que vira para o Rio Escuro. Essa terra ainda tá lá, faz limite com a Tia Benedita, mãe do Antônio Peres. Tudo de frente pro mar, no jundu, comprado do padre João Manuel da Conceição. Era nesse chão que se sustentou João Faria, um coitado que aos sessenta anos já vivia numa cama por estar lázaro. Dessa doença vem o nome do lugar". 

quarta-feira, 23 de março de 2016

A EXTINÇÃO DA PESCA ARTESANAL TRADICIONAL

(Trechos compilados da Dissertação de Mestrado e do Artigo Científico, clique e veja)
A complexidade das estratégias utilizadas na pesca artesanal tradicional no litoral norte de São Paulo se reflete na grande variedade de artes de pesca praticadas localmente pelos pescadores caiçaras. Essa variabilidade e diversidade de petrechos desenvolvidos e utilizados pelos pequenos pescadores embora reconhecida pelo CEPSUL, um centro de pesquisa especializado que até abril de 2015 subsidiava o órgão competente (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio) com medidas de ordenamento e fiscalização do setor pesqueiro (ICMBIO, 2015), no entanto, em sua página da internet sobre as “artes de pesca”, o CEPSUL oficialmente lista uma série de “petrechos”, cuja classificação é baseada no resultado de uma única publicação de 1994, do próprio órgão, cujo título é Guia Prático de Tecnologia de Pesca, de autoria de Manoel da Rocha Gamba. 
A pesca artesanal tem características bastante diversificadas, tanto em relação aos diferentes habitats explorados, quanto aos estoques pesqueiros e às técnicas de pesca utilizadas. Um fator adicional de complexidade nesta categoria de pesca são os diferentes tipos de usuários, com diferentes estratégias e conhecimentos de pesca, bem como diferentes comportamentos sobre os locais e espécies frente aos recursos e ao ambiente. (CEPSUL)
Consultada a bibliografia desse estudo de Gamba (1994), salta aos olhos a ênfase de sua pesquisa nas publicações internacionais (61.5%), em detrimento dos estudos relativos à pesca brasileira (38,5%). São negligenciadas pelo autor, e pela Área de Tecnologia da Pesca do CEPSUL, publicações clássicas referentes à pesca artesanal brasileira, feita por pesquisadores de extrema relevância como Schmidt (1948), Mussolini (1980) e Willems (2003), obras que versam sobre os aspectos técnicos da pesca artesanal caiçara no litoral paulista, durante a primeira metade do século XX e que ainda hoje são utilizadas quase que exatamente do mesmo modo
Essa falha gritante, hoje criminaliza as práticas pesqueiras tradicionais dos pequenos pescadores artesanais do litoral paulista, principalmente das artes de pesca realizadas em Canoas Caiçaras. Só nessa região são cerca de 27 diferentes artes/técnicas de utilização do emalhe.
Essa grande injustiça se deve à aplicação fulminante da INSTRUÇÃO NORMATIVA IBAMA Nº 166, DE 18 DE JULHO DE 2007 e  da INSTRUÇÃO NORMATIVA INTERMINISTERIAL MPA/MMA N° 12, DE 22 DE AGOSTO DE 2012. pelo novo comando da Polícia Ambiental que atua no litoral norte de São Paulo.
Art. 1º Limitar, nas águas sob jurisdição nacional, a altura máxima da rede de emalhe de superfície em 15 metros, e da rede de emalhar de fundo em 20 metros. Art. 2º Proibir o uso de redes de emalhar, de superfície e de fundo, em profundidade menor que o dobro da altura do pano. Art. 3º A tralha superior da rede de emalhar de superfície, durante a operação de pesca, deverá atuar em uma profundidade mínima de dois (02) metros da superfície, com o cabo da bóia (filame ou velame) não podendo ter comprimento inferior a esta medida. (IBAMA, 2007)

Art. 3º. Para fins de controle e fiscalização: II - As redes de emalhe deverão ser identificadas na tralha superior da rede, no mínimo, a cada 1.000 (mil) metros com o número do Registro Geral da Atividade Pesqueira - RGP da embarcação autorizada a operar com aquele petrecho, podendo ser identificadas com o RGP do pescador apenas quando se tratar de redes de até 3.000 (três mil) metros de comprimento. III - As redes de emalhe transportadas, armazenadas ou utilizadas nas atividades de pesca que não possuam as características e identificação definidas nesta Instrução Normativa Interministerial caracterizam o exercício irregular da pesca com petrecho não permitidoArt. 6º. Proibir a pesca de emalhe por embarcações motorizadas até a distância de 1 (uma) milha náutica a partir da linha de costa. (MPA-MMA, 2012)
Claramente criadas para regulamentar a grande pesca industrial, irresponsavelmente estas regras estão penalizando o pequeno pescador caiçara devido à aplicação cega da "letra fria da lei" pelo entendimento baseado na discricionalidade burocrática dos agentes do Estado devido à prevaricação do próprio Estado, que não montou os grupos de trabalho para a revisão das falhas constantes nestas Instruções Normativas.
O Estado, que é quem deveria proteger estes pequenos pescadores artesanais, está sendo o agente de destruição destas famílias tradicionais, e ainda fazem propaganda dessa barbárie, como se fosse uma imensa vitória para o ambiente.
Hoje, correndo atrás do prejuízo, a APA Marinha do L.N. está finalizando um documento, construído dentro de um Grupo de Trabalho especial, na tentativa de reverter essa situação de extrema injustiça e imenso impacto sociocultural sobre os pequenos pescadores caiçaras. Caso essa situação não mude rapidamente, estará decretada a extinção do modo de vida caiçara e desta cultura que por séculos sobreviveu de maneira harmoniosa com a natureza. 
Pescadores da Enseada manejando a rede de tróia. Foto: Peter S. Németh.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

A INICIAÇÃO NA ARTE DA PESCA

Durante 11 anos (2000 a 2011) convivi diariamente com as comunidades caiçaras locais, da Enseada do Flamengo, em Ubatuba, São Paulo. Nesse tempo, diretamente atuei como pescador profissional e aquicultor (maricultor) junto aos pescadores tradicionais locais, compartilhando diariamente durante a intensa faina pesqueira seus saberes, artes, anseios, dificuldades, sofrimentos e alegrias.
Durante esse período em que me transformei em pescador, enquanto absorvia diretamente através da vivência real, os costumes e saberes locais relacionados ao universo pesqueiro tradicional, nunca me foi possível abandonar o olhar crítico, que, internamente e à todo instante, não cessava de tecer questionamentos e comparações entre, aquele modo de vida por mim escolhido e toda a bagagem cultural típica de um citadino de classe média, cuja noção de sobrevivência provinha de uma doutrina urbana que me havia impregnado desde os tempos de criança. Estudar, escolher uma profissão, formar-se na faculdade, arrumar emprego em uma boa empresa, casar, ter filhos e aposentar-se, essa era a cantilena.  Não poderia existir vida ou outra forma de sobrevivência que não fosse através desse caminho urbano-industrial.
Quando resolvi romper com esse sistema à mim imposto goela abaixo, e decidi “largar tudo” para ir viver literalmente na beira praia, por muito tempo ainda acompanhou-me a incerteza e o sentimento de culpa, pois, como poderia eu sobreviver naquele lugar novo, onde tudo o que eu havia estudado e aprendido na “escola” de nada servia para assegurar minha subsistência. Enquanto essas dúvidas me corroíam, todos os dias eu ia cada vez mais me aproximando e ganhando a confiança dos pescadores que se reuniam em frente à minha casa para conversarem, remendarem suas redes, consertarem seus barcos e canoas.
Certo dia correu a notícia de que uma “pegadeira de lula” estava acontecendo no Parcelzinho. Perguntei onde era e me disseram: “virando o canal”. Perguntei como se pescava a lula, “cum zagarelho, é tipo uma garatéia de pescar espada, mas não precisa de isca, a lula pega sozinha”.
Até aquele momento, nunca nenhum pescador me havia convidado para ir pescar, e mesmo com minha demonstração de interesse pela pescaria de lula, naquela manhã ninguém me convidou para ir pescar no Parcelzinho. Pensei, vou pegar minha canoazinha e ir até esse Parcelzinho, já que “virando o canal” não deve ser tão longe. Peguei a minha garatéia de pescar espada, linha, chumbada, arrumei uma corda bem comprida e uma poita para ancorar a canoa. Levei água, faca e uma cuia pra tirar a água (alguns conselhos eu já tinha escutado) e saí remando rumo ao canal da Ilha Anchieta, o temido Boqueirão. Uma hora e pouco remando, cheguei ao Boqueirão, fiz a travessia contornando para fora, virei e... ninguém! Remei mais um pouco para fora, para ter a visão total da costeira e vi ninguém. Comecei então a olhar para todos os lados, procurando, procurando, então vislumbrei bem longe, lá pras bandas do Ilhote das Cabras, bem rente à costeira da Ilha Anchieta, um monte de barcos juntos. Firmei os olhos e reconheci os barcos do Ico e do Jaime, dois pescadores com os quais havia conversado naquela manhã. Estavam muito longe, eu teria que atravessar todo o largo da Ilha Anchieta, atravessando todo o temido Boqueirão, ficando exposto ao vento e à correnteza, e nem ao menos sabia quanto tempo eu iria levar para chegar lá remando minha canoazinha, que era de um tamanho suficiente só para brincar na beira da praia.
Levei uns 5 minutos para decidir o que fazer, resolvi arriscar.
Remei, remei, remei, remei e quase três horas depois cheguei entre os barcos escutando a turma falar: “olha o Alemão aí!”. Achei um local à uma certa distância e joguei minha poita. Arrumei a linha com a garatéia de espada e comecei a pescar. Todos os outros pescadores pegavam lulas, uma atrás da outra, e na minha linha, nada. Coloquei uma chumbada, e, nada. De repente armou uma tempestade vindo de sudoeste, cobrindo a Ilha toda, era uma trovoada com nuvens cinzas enormes que avançavam muito rápido trazendo vento e chuva grossa, uma típica chuva de verão. Não desisti, fingi não estar com medo pois todos ali estavam de olho em mim, soltei mais um pouco de corda, pois o vento já estava forte e não queria que a canoa fosse arrastada, e quando a chuva caiu eu deitei quietinho no fundo da canoa e esperei a trovoada passar. Para minha sorte, a chuva de verão é forte, mas passageira, e perto de 30 minutos depois a tempestade já havia passado e o sol da tarde voltava a brilhar. Tirei a água de chuva da canoa com a cuia, e tentei uma última vez pescar, mas nenhuma lula mordia meu anzol, pensei: que mistério será esse... porque só eu não consigo pescar?
Percebi então que era perto de 4 horas da tarde e pelo tempo que tinha demorado para remar até o Parcelzinho, na volta, eu iria chegar só de noite na Praia da Enseada porque não pretendia pedir uma carona de volta, pois tinha que "dar uma de machão" já que ninguém tinha me convidado para estar ali pescando.
Recolhi a poita, ajeitei as tralhas e rumei naquele lindo entardecer para o Boqueirão, aproveitando para atravessá-lo enquanto ainda o dia estivesse claro, por segurança. Cheguei em casa já com a noite fechada, sem lula alguma mas com uma aventura fantástica gravada para sempre na minha alma.
No outro dia, reencontrando a turma de pescadores na praia, ao invés de me chamarem de Alemão, todos brincavam: “ó o matadô de lula aí!”. Por toda aquela semana eu me tornei o “matador de lula”, embora nenhuma delas eu tenha capturado. E a causa desse insucesso logo eu descobri, já que o zagarelho, na verdade não é igual à uma garatéia de espada como eu havia erroneamente entendido, na verdade, ele é uma isca artificial especialmente projetada para pescar lulas, então só com muita, mas muita sorte mesmo eu teria conseguido pescar uma lula com a minha garatéia.
O resultado dessa epopeia toda foi que imediatamente, todos os pescadores passaram a me chamar para pescar em seus barcos e começaram a me ensinar as técnicas de pesca. Assim, um universo novo e riquíssimo começou a se materializar diante dos meus olhos. Fui iniciado nas artes de pesca e toda a paisagem, os objetos, as ferramentas, os animais, o mar e os peixes, adquiriram novos e surpreendentes significados. Tudo o que eu já tinha visto e experimentado sofreu uma transformação radical tanto na forma como no modo que minha percepção interpretava o ambiente natural. Uma outra dimensão, um outro mundo possível se descortinou e nesse processo eu mesmo me transmutei de maneira irremediável e irreversível.

Garatéia de espada
Zagarelho de lula



Pescaria de lula. Foto: pescaalternativa.com.br.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

É PRECISO PENSARMOS A TAINHA.

Atualização: ARTIGO COMPLETO NESTE LINK: http://ppg.revistas.uema.br/index.php/REPESCA/article/view/1053

Mais do que apenas "um peixe", muito menos um mero "recurso" a ser explorado pelo capital, a tainha é na verdade um "serviço cultural", ou seja uma função do ecossistema que influencia aspectos estéticos (as canoas e os petrechos), recreativos (o jogo da pesca), educacionais (o como pescar), culturais (a tradição da pesca) e até espirituais da experiência humana (MEA, 2003, p.77).
O Prof. Antonio Carlos Diegues costuma dizer que "a tainha é um peixe social", e isso pode ser comprovado pelo "frisson" que a expectativa da chegada dos cardumes causa nas comunidades litorâneas desde a Lagoa dos Patos, no sul do Brasil, até o Norte do Rio de Janeiro.
Nem bem termina o verão, os pescadores já iniciam o "preparo" para o tempo frio. Tresmalhos são checados e reformados, as canoas são reparadas e pintadas e sinais dos ventos e do mar são analisados na busca de um prognóstico para a próxima safra de tainhas.

No entanto recentemente, mais uma vez desastrosamente para os artesanais de São Paulo, um novo ator, além do velho conhecido CEPSUL, infiltrou-se nesse roteiro, a portaria interministerial nº 4, legislação feita pelo MPA e MMA.

Regras que promovam o manejo sustentável do "recurso" tainha, são mais do que necessárias, mas o problema é que isso acontece em um ambiente dominado pelo lobby da pesca industrial, cujos sindicatos aceitam todos os limites, cotas e defesos, desde que não diminuam suas capturas. O que acontece então, é que os setores com pouca representatividade, principalmente os artesanais de canoa à remo do litoral norte de São Paulo, saem sempre prejudicados com essas portarias feitas "sob medida" para os interesses industriais. Miranda (et al., 2011) defendem a suspensão da pesca de tainha pela frota de traineiras, e citam que em julho de 2010, apenas uma única traineira “matou” mais tainhas do que o total capturado no mesmo mês pela pequena pesca, em catorze (14) municípios paulistas. Alertam também que em São Paulo nesse mesmo ano de 2010, nos meses de junho e julho, apenas 1,1% das unidades produtivas envolvidas na pesca da tainha, eram de traineiras. Mesmo assim foram responsáveis, realizando apenas 0,4% das descargas, por 50,1% da captura total de tainhas. Demonstram os autores, cabalmente, a imensa desproporcionalidade entre a frota de traineiras e a pequena pesca, resultando em competição desigual, menor disponibilidade da espécie para as populações tradicionais e maiores custos sócio-econômicos e culturais para os usuários desse recurso pesqueiro (MIRANDA et al., 2011: p.17-19).
Traineira chapada de tainha. fonte facebook: No encanto azul do mar.
A tainha, sendo um "peixe social" deveria ser considerada como um patrimônio cultural reservado apenas para a captura não mecanizada/motorizada. A interação entre essa espécie e os nativos da costa brasileira já foi descrita por Hans Staden no ano de 1557, por Carlos Borges Schmidt e Gioconda Mussolini, nos anos de 1940 e 1950, portanto é uma cultura arraigada no DNA dessas populações costeiras. Não é possível permitir que traineiras capturem toneladas e toneladas de tainhas simplesmente para que toneladas de suas ovas sejam exportadas para o Japão e o peixe seja colocado à venda conforme a foto abaixo feita no Extra-Itaim em maio de 2015. Esse peixe está podre! Que pescador comeria um peixe nesse estado, quanto mais teria coragem de vendê-lo! Só presta pra isca de garoupa.
O questionamento aqui é o seguinte: qual é o benefício/contribuição da pesca industrial (exceto o lucro concentrado na mão dos armadores), já que o produto final chega nessas condições acima, ao consumidor final (se é que alguém tem coragem de consumir esse peixe podre)? 

Enquanto isso, o pescador artesanal de canoa à remo sofre outro tipo de tratamento.
Pescadores da arte Pesca de Tróia, sendo presos na Enseada. Foto: Peter Nemeth.
Na foto acima, os pescadores de tainhas e paratis estavam sendo presos pela segunda vez. Na primeira foi apreendida a rede de tainha, 10 quilos de tainha e estipulada uma fiança de 300 reais para cada um. O detalhe pavoroso dessa autuação, foi que toda essa injustiça deu-se baseada em uma portaria CEPSUL/IBAMA que já estava revogada no ato da "infração". Ou seja, prisão ilegal.
Agora essa nova portaria nº 4, que não caracteriza as peculiaridades "endêmicas" das artes de pesca tradicionais do litoral norte de São Paulo, coloca de novo em risco a Pesca de Tróia e os pescadores de canoa. Como a portaria não define a Pesca de Tróia do litoral norte de SP, e cita só a Pesca de Trolha (sinônimo sulista da mesma arte), e também no site do CEPSUL não existe a definição dessa arte, sobra margem para a autuação desses pescadores baseada na discricionariedade dos policiais ambientais. Já que no caso da foto acima, após entrada com pedido de danos morais pela prisão ilegal, o juiz indeferiu o pedido, dizendo que eles praticavam Pesca de Caceio (outra arte de pesca totalmente diferente), e essa pesca seria proibida por outra legislação na proximidade das praias!!?? Injustiça, injustiça e mais injustiça.   
Esse momento especial de discussão desse Plano de Gestão para a pesca sustentável da tainha, acredito eu, seja ideal para que todas essas discrepâncias e injustiças sejam colocadas à mesa. Para isso é necessária a união de todos dos pescadores artesanais não mecanizados/motorizados que têm na tainha, muito mais do que um recurso natural, e sim um patrimônio sociocultural indissociável de seu próprio modo de vida tradicional.

CONTINUA... em 2016: http://canoadepau.blogspot.com.br/2016/06/e-preciso-pensarmos-tainha-2.html

IPHAN. (2012). A pesca da tainha na Ilha do Mel: territorialidades, sociabilidades e técnicas. Curitiba: Superintendência do IPHAN no Paraná.
MEA. (2003). Ecosystems and human well-being: a framework for assessment/Millennium Ecosystem Assessment. Washington: Island Press.
MUSSOLINI, Gioconda (1980). Ensaios de antropologia indígena e caiçara.  Rio de janeiro: Paz e Terra. 287p.
SCHMIDT, C. B. (1948). Alguns aspectos da pesca no litoral paulista.  p.41., Diretoria de publicidade agrícola – Secretaria da agricultura do Estado de São Paulo. Separata da Revista do Museu Paulista, Nova série, vol. 1, 1947, São Paulo, Brasil.
SECKENDORFF, R. W. von; AZEVEDO, V. G. de (2007). Abordagem histórica da pesca da tainha mugil platanus e do parati mugil curema (perciformes: mugilidae) no litoral norte do Estado de São Paulo. Série Relatórios Técnicos, São Paulo, n. 28: 1-8, 2007. (ISSN: 1678-2283). Disponível em: ftp://ftp.sp.gov.br/ftppesca/serreltec_28.pdf. Acesso em 06 out. 2010.

MIRANDA, L. V. ; CARNEIRO, M. H. ; PERES, M. B. ; CERGOLE, M. C. ; MENDONÇA, J. T.. (2011). Contribuições ao processo de ordenamento da pesca da espécie Mugil liza (Teleostei:Mugilidae) nas regiões sudeste e sul do Brasil entre os anos 2006 e 2010. Série Relatórios Técnicos (Instituto de Pesca. Online), v. 49, p. 1-23, 2011. Disponível em: ftp://ftp.sp.gov.br/ftppesca/serreltec_49.pdf. Acesso em 22 out. 2015. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

DA MALHA 6, TUDO SE APROVEITA.

Quando começa o "tempo frio" e ocorrem as primeiras "revoltas de mar", a turma já está preparada para testar suas redinhas de camarão.
Às vezes é puro palpite e outras pode ser um camarão branco que caiu no tresmalho malha 10 ou malha 7, dando o alarme.
Só que nessa época ocorre um grave conflito pesqueiro entre os barcos de arrastão de porta que entram na Enseada do Flamengo varrendo tudo, e as canoas que pescam camarão de rede de espera, que capturam seletivamente os peixes. Muitos pescadores de canoa são ameaçados aos berros de: "Tira essa rede daí senão vou passar por cima!", e várias vezes as redes amanhecem cortadas de faca ou mesmo desaparecem.
Aliás é proibido arrastar somente o camarão branco, não existe licença para isso, a licença é só para o camarão sete barbas como espécie alvo. Também o defeso, só existe, não para proteger o sete barbas, mas para permitir a migração do camarão rosinha (o juvenil do rosa), que nessa época sai do raso e vai para o fundo.

Foto: Peter Németh; Porto Meu Chamêgo.
Existe um tresmalho especialmente confeccionado para a captura do camarão branco (Litopenaeus schmitti), utilizado somente durante a safra nos meses do tempo frio (maio a julho). Essa rede é confeccionada com malha 6 (seis centímetros entre nós opostos), fio 0,30 e entre um e dois panos de altura com duzentas braças ou mais de comprido. Para o entralhe, as arcalas, tralhas, chumbo e cortiça seguem o padrão local de "2 e 1".
A condição ideal de mar para a pesca de tresmalho é logo após uma revolta de mar, quando as espécies alvo movimentam-se bastante e a água está mais turva.
Vale destacar que existe uma portaria que proíbe o uso da malha 6 em redes de pesca no litoral sudeste/sul do país, tornando essa pescaria ilegal na região. No entanto após um requerimento oficiado em 31 de março de 2008 junto ao IBAMA pela Associação Pescadores da Enseada (A.P.E.), uma O.N.G. que defende os interesses dos pescadores tradicionais locais, foi criado um grupo de trabalho para analisar a questão. Desse grupo surgiu um estudo envolvendo o Instituto de Pesca, a Fundação Pró-Tamar e o IBAMA, que identificou ser essa arte de pesca culturalmente endêmica na região de Ubatuba e comparativamente menos agressiva ao ambiente marinho, na captura do camarão branco, do que o arrastão de porta.
Uso sustentável dos camarões no Litoral Norte do estado de São Paulo, Descrição: O projeto de pesquisa desenvolvido em parceria com o IBAMA, Instituto de Pesca e Projeto Tamar/ICMBio. Tem como objetivos acompanhar as pescarias dos camarões realizadas com redes de arrasto, principalmente o camarão-sete-barbas e o camarão-rosa, e avaliar os defesos instituídos através de Instrução Normativa do IBAMA. Também está sendo avaliada a pescaria do camarão-branco capturado por redes de emalhe/espera (malha 6), pelos pescadores artesanais tradicionais, sendo que esta modalidade pesqueira ainda não se encontra regulamentada pelo IBAMA.. , Situação: Em andamento; Natureza: Pesquisa. , Integrantes: Venancio Guedes de Azevedo - Integrante / Bruno Giffoni - Integrante / Laura Villwock de Miranda - Integrante / Maria Cristina Cergole - Coordenador., Financiador(es): Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais - Auxílio financeiro.

Tudo isso surge de um processo que pressupõe um sujeito cognitivo em constante interação entre o trabalho mental e manual, e entre este e seu entorno. E é precisamente por isso que se justifica a afirmação: os pescadores são os que melhor conhecem o entorno ecológico e social de cada uma das comunidades, e, não obstante, quem planifica as políticas pesqueiras e a gestão dos recursos são os funcionários, com a assessoria de biólogos e economistas. E o fazem unilateralmente, prescindindo totalmente do saber que os pescadores têm de seu âmbito de experiência. (ALLUT, 2000: p.113-114)

A partir dessa conclusão aguarda-se a regulamentação do petrecho descrito, estando o pedido atualmente em análise junto ao órgão competente. Se o requerimento for deferido, o que é muito pouco provável devido à fraca pressão política (MALDONADO, 1986: p.45-46) do setor artesanal, e muito menos interesse ainda do órgão federal de regulação formal em ratificar um sistema tradicional de manejo pesqueiro, poderá ser a primeira vez em que o conhecimento tradicional local relativo à uma arte de pesca seja regulamentado na região de Ubatuba.
Paraty já conseguiu 80 licenças especiais (veja aqui postagem do Ministro Luiz Sérgio) para a pesca do camarão branco em canoas à remo. (veja aqui documento da câmara)
Nessa madrugada "de lua" a pescaria foi um sucesso, cerca de 2,5 Kg de branco e mais sororocas "de bicho" e peixe-reis.
Uns podem alegar que o tresmalho malha 6 mate peixes miúdos, mata sim, é verdade, mas toda a "miuçalha" é aproveitada, nada é jogado fora. Muitas famílias dependem desses peixes miúdos, e comparativamente, é muito menos "matança" do que a desgraceira feita pelos barcos de arrasto de porta, que jogam tudo fora e matam milhares de vezes mais.
O descarte de pescado ocorre na maioria das pescarias comerciais, entretanto em nenhuma delas seu volume é maior do que nos arrastos de camarão (EAYRS, 2007; FAO, 2010; GRAÇA LOPES et al., 2002; HALL, 1996; KELLEHER, 2005). Esta é uma questão que apresenta implicações para a biota associada à espécie alvo e para a economia, aumentando os custos relacionados às capturas (CHARLES, 2001). (fonte: AZEVEDO, 2014, p. 189).
Ao contrário do arrasto, os peixes da canoa muitas vezes são doados e matam a fome de muitas pessoas. Outro fator seletivo da pesca em canoa é que quando cai muito peixe miúdo, a pescaria é interrompida, pois o trabalho não compensa.
Cerca de 5 kg de miuçalha que foram doados, nesse dia a pescaria foi interrompida.
É totalmente falsa a alegação que pleiteia que a Enseada do Flamengo em Ubatuba (uma Enseada Fechada na classificação do Ibama, ou seja, sua “boca” ou entrada é menor que seu diâmetro e também uma Z2-ME pelo Gerco) seja ela inteira demarcada no plano de manejo da APA Marinha como “Área de Arrasto – Segurança em Contratempos”, pois os dois únicos ventos que ameaçam as embarcações no local são o SUL e o SUDOESTE, e quando eles sopram os únicos locais bons e seguros para fundeio são as Praias do Flamengo, Flamenguinho e Ribeira, que ficam abrigadas desses ventos. Todas as outras e principalmente a Enseada, recebem esses ventos de frente e com ondas altas. Outra falsidade no argumento, é que, nessa área da Enseada do Flamengo NÃO OCORRE O CAMARÃO SETE BARBAS, lá só ocorrem o CAMARÃO BRANCO e o ROSINHA (veja o mapeamento dos próprio pescadores nesse link, pgs. 39, 42, 47, 49 e 52). AMBAS ESPÉCIES SÃO PROTEGIDAS DO ARRASTO PELA LEGISLAÇÃO, OU SEJA A Z2-ME NESSE LOCAL DEVE SER AMPLIADA (como é a vontade local, veja o link) E NÃO REDUZIDA para que o local não se degrade ainda mais.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Meu mundo era a Praia da Enseada

Esse texto vem do José Carlos de Góis, originalmente postado no blog Coisas de Caiçara, do meu amigo José Ronaldo. 
Mais uma viagem até o tempo ancestral. Apertem os cintos...

Quando nasci, na década de 50, Ubatuba era paradisíaca. Meu mundo era a Praia da Enseada, o quintal da mamãe cheirando manacá, arruda, alecrim, guiné, as flores das laranjeiras nevando o chão. O jundu, na praia, com sua vegetação nativa, as flores roxas do cipó de corvina, o rabo de bugio, os frutos cheirosos dos abricoeiros, as amêndoas dos chapéus-de-sol, os coquinhos jarobá... Quanta saudade!

     Papai subia o caminho do porto assobiando, os olhos refletindo todo o azul do mar, a fieira de peixe, o samburá de timbopeva cheio de sururu, aquele pé de moleque caiçara, cheirando a gengibre, que regalava eu e minha irmã Conceição.

    Mamãe na velha máquina de costura, cantando, completamente desafinada, músicas que ainda hoje estão na minha memória, como se estivesse ali, sentado no canto da sala, ouvindo sua voz forte de mulher caiçara: “Eu vi sobre o mar navegando, um barco floreando em flor/ Albertino em tu pensando, nada mais do que o amor”... E outra:“Vamos sambar minha gente, pelo sertão, pelo mar/Queremos ter na lembrança a dança do carnavá” (segundo ela, a música do carnaval era de autoria do padrinho Benedito Henrique, na época de sua mocidade, quando faziam blocos de carnaval para brincar na praia).

      O costão da Enseada, o meu velho e querido amigo Silvério Bastos de Ornelas, carinhosamente chamado de Sabá, na pesca da garoupa. Dele tenho gratas recordações. Quando ia pescar, já me chamava, alto e bom som: “Vamos Zé Calos?”  E era assim mesmo, sem a letra erre.  Eu não cabia em mim de contente. Pegava minha varinha mixuruca, com anzol de pegar amborê, e lá ia com o Sabá para a costeira do lado oeste da Enseada. No costão, a pedra onde ele ficava era a mesma. Só que não deixava eu ficar rente a ele. Mandava eu ficar em outra pedra afastado uns vinte metros donde ele estava, “pra mode não intrapalhá, não ispantá as garopa”. E lá ficava eu pegando meus amborés, às vezes um guaiá, enquanto o Sabá pegava uma ou duas garoupas. A isca que sobrava (sardinha ou bonito) ele jogava no mar, e dizia: “Zé Calos, isso é pra ingodá, quando a gente vortá aqui, despois de amanhã,  elas já vão istá isperando e nóis pega mais umas duas.” E era tão somente o que ele pegava. Era pura sabedoria. Pescava apenas o suficiente para o nosso sustento (ele sempre me dava postas das garoupas). Não tinha a ganância de hoje de pegar duas, três, dez, vinte..., na usura de vender e ganhar com a exploração desenfreada.

      Cabe aqui contar uma passagem que demonstra a sabedoria do Sabá: estava ele a pescar garoupa, eu, os amborés, quando percebi que sua linha havia enroscado. Ele com toda a paciência que lhe era peculiar firmou a vara numa reentrância das pedras do costão, de modo que a linha de pesca ficou retesada. Pegou algumas pedras pequenas (do tamanho de um punho fechado), pegou no samburá pedaços de linha, e foi amarrando nas pedras, deixando as pontas soltas; daí passava as pontas da linha amarrada na pedra ao redor da linha retesada, dava um nó e soltava: a pedra deslizava pela linha retesada, e “tchimbum”, afundava na água. Ele pegava a vara, experimentava, dando pequenos puxões; tornava a repetir a operação. Na terceira pedra, veio uma bela garoupa, de, pelo menos, três quilos. Fiquei admirado! Pedi pro Sabá me explicar como a linha tinha desenroscado e ele tinha pegado a garoupa. Me explicou com seu lindo sorriso: a garoupa quando é fisgada pelo anzol tenta desesperadamente entrar na toca; quando consegue ela se arrepia toda e as galhas ficam presas na pedra, e a linha fica enroscada; quando ele fez as pedras deslizarem pela linha retesada,  as mesmas bateram no focinho da garoupa. Primeira, segunda, na terceira ela já estava incomodada e saiu da toca. Daí foi só puxar! Ah, Sabá, eu tinha, então meus doze anos...

Da saudade da Enseada antiga, escrevi este poema (que musiquei à minha moda), em 2.013:

PRAIA DA ENSEADA

Praia da Enseada, que gosto me dá
Cantar para o mundo que eu nasci lá,
Filho de Fabiano e de Pitiá
Cresci embalado nos braços do mar,
Ouvindo as cantigas dos sabiás,
Curtindo a beleza dos caraguatás,
Sentindo o perfume dos manacás,
Em meio à pureza dos laranjais,
Infância-caiçara que não volta mais!

     Mudei da Praia da Enseada em 1.987. Vou lá sempre visitar minhas irmãs Zefa, Conce, Doca, e rever meus amigos. Gosto de ficar olhando o mar e vejo o garoto feliz, cabelos desenfreados ao vento, dorso nu, ouvindo o assobio que vem do passado, e sinto a leve carícia de papai nos meus ombros...

Ubatuba, 08 de janeiro de 2.015.

Em tempo: e que tal decifrar o caiçarês ?

1- UMA NIMBUIA NA GAMBÔA FAZENDO BULHA.

2- MININO, QUIDELE O TESTO QUI TAVA DE JÁ HOJE AQUI, JUNTO DA SERENGA?
O menino do Fabiano, futuro doutor, catando sapinhauá (Arquivo JCG)