quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A CANOA CAIÇARA DE ILHABELA - BONETE

Bela, belíssima, só assim consigo iniciar este texto sobre a Canoa Caiçara de Ilhabela-Bonete.
foto: Rodrigo, 1000dias.com.
Construída através das mesmas técnicas e princípios pautados pelas "25 linhas", que orientam o feitio das Canoas Caiçaras desde o litoral sul fluminense, paulista até o norte paranaense, as Canoas Caiçaras de Ilhabela-Bonete possuem características de design próprias. Estas ligeiras adaptações permitem uma maior sintonia entre a embarcação e as condições ambientais locais de mar, vento e porto. Assim tornaram-se estas canoas "alteiras" de proa para enfrentar ondas grandes, e acrescidas de uma sobreborda aberta em ângulo para que as marolas não entrem pelos bordos. Ficaram esguias, de modo que sua proporção Comprimento / Boca é de coeficiente maior que 7, o que as faz rápidas na água. Ganharam motores de centro, eixo, hélice e consequentemente um leme para governo. Isso fez surgir mais uma peculiaridade nestas flechas do mar, seu uso como um veículo seguro, rápido, confiável e o meio de transporte diário de dezenas de famílias Caiçaras tradicionais que vivem por gerações em praias e costões afastados.
 
Estas comunidades desenvolveram um modo de vida integrado ao ambiente natural em perfeita simbiose, sendo a Canoa Caiçara o principal símbolo de resistência desta população ímpar, frente os avanços da especulação imobiliária, do turismo irresponsável e de um ambientalismo radical que exclui o homem da natureza.
foto: Teresa Aguiar, projeto SSTA.
Esta sequência de lindas fotos mosta as etapas de feitio de uma Canoa Caiçara de Ilhabela-Bonete, desde o aproveitamento de uma árvore tombada pelo vento, até a puxada do "corte de canoa"

 foto: Fabi Bonete, facebook.
Após a puxada, a canoa vai passar pelo acabamento grosso, onde com o enxó o Mestre Canoeiro redefine as linhas da canoa imprimindo sua marca pessoal. Logo depois é feito o acabamento fino onde a sobreproa e a sobrepopa é colada e a canoa é toda lixada.
 foto: Adriano Perna.
A técnica de colocar sobreproa e sobrepopa, permite que a árvore seja melhor aproveitada em todo seu comprimento, caso contrário, se a proa e popa mais altas fossem esculpidas no mesmo tronco, a canoa teria que ser mais curta, mais rasa e mais estreita. Uma solução técnica genial que resulta na Canoa Caiçara de Ilhabela-Bonete sem a "bordadura", mais utilizada na pesca a remo, como vemos na bela imagem abaixo.  

 foto: Adriano Perna.
Caso for necessário maior capacidade de carga ou mais segurança, seja nas canoas a motor, ou nas antigas canoas de voga , será acrescida a "bordadura" ou sobreborda, o que proporcionará mais eficiência para enfrentar as ondas seja em mar aberto ou na saída da praia. Estas bordas altas, que requerem grande habilidade e capricho para serem confeccionadas tornam-se a principal característica das Canoas Caiçaras Boneteiras.
 foto: Adriano Perna.
Vida longa à tradição boneteira! Arrelá!
 foto: Adriano Perna.
 Tradição vem do latim traditio, que significa transmitir algo a alguém.

4 comentários:

  1. Parabéns pela matéria!! ...que os Boneteiros tenham cada vez mais orgulho de suas canoas !! grande patrimônio naval do litoral paulista..abrs Adriano Perna

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    1. Obrigado a você Adriano pelos belíssimos registros do cotidiano Caiçara do Bonete, tendo a Canoa Boneteira como mote principal.
      Estas suas fotos são sensíveis obras de arte e vão contribuir muito para o futuro inventário e a salvaguarda deste patrimônio único.
      Parabéns. Peter.

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  2. Parabéns! Belíssimo texto. Poderia facilmente ser transposto para a nossa realidade aqui em Santa Catarina.

    "...frente os avanços da especulação imobiliária, do turismo irresponsável e de um ambientalismo radical que exclui o homem da natureza".

    Abraços, Jackie Goulart!

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  3. Parabens pela MATÉRIA...sou neto de Boneteiros ...e passei inúmeras férias neste local chamado BONETE ... pensa num povo arrojado, alegre, desbravador e ao mesmo tempo confuso...uma guerra de sentimentos e alegria. Claro... as canoas...desbravando aquele marzão.. "Arrelá, onde bóis ide"

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