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quinta-feira, 5 de abril de 2018

domingo, 10 de maio de 2015

Cada Canoa tem uma história

Mais uma vez peço licença ao Zé Ronaldo para reproduzir um trecho de seu Blog.

Tenho um depoimento do Baeco, fazedor de canoas. É um artista. Eis trechos do que ele diz: “A construção de canoa começa pela    escolha da melhor madeira, mas a famosa mesmo é o Cedro. Depois vem a  Timbuíba, o Ingá, o Bracuí... o Loro, o Guapuruvu e o Angelim. O Angelim  tem três tipos: Angelim Amargoso, Angelim Gisara e o Angelim Pedra. Estas   três são boas pra canoa. Esta é a madeira que a gente garante.” (...)   ”Madeira a gente escolhe a lua, sim; agora, não precisa ser uma minguante  de inverno; qualquer minguante é boa.” (...) ”A gente sabe a árvore que  vai dar boa canoa no olho, primeiro o olho... Você bate o olho, vai, erra   centímetros, e o tamanho é a boca da canoa” (...) ”O comprimento a gente  se baseia na boca, na largura da boca, tá? Normalmente é sete vezes um,  sete por uma. Sete vezes a largura da boca é o comprimento da canoa.”  (...) ”Se ela, por exemplo, tem sessenta centímetros de boca, sete vezes  seis quarenta e dois, então a canoa normalmente vai ter quatro metros e  vinte centímetros.” (...) ”Pra medir no mato a gente tem uma mania: põe  uma vara em direção à árvore antes do corte e aí sai com exatidão. A gente  põe a vara lá na direção que vai ser o meio da canoa, e olha de longe e  calcula. Porque tem a posição da boca, porque olhando na árvore você vê o  lado melhor para a boca. Você olha tem um lado que é ‘selado’ e tem o  outro que é mais ‘jeitoso’ para fazer a boca da canoa. A gente mede  naquele lado. Com a vara faz uma cruz. Um olha de longe e vê o que está  sobrando. Você vê com exatidão, porque a madeira é roliça. O outro, de   longe, olha, aí você empurra pra lá, empurra pra cá, até saber o centro  direitinho. Aí tira a grossura da casca, tira um pinguinho menos, e você tira o tamanho certo; aí sai exato, centímetro certo...”
          O homem vê na árvore a canoa e, então, a transforma. O que era uma árvore, um Angelim no meio da mata, transforma-se, vira utensílio,  instrumento, humaniza-se, torna-se mundo. A intimidade do homem com a canoa, que se torna extensão de seu corpo, de sua alma, que participa de  sua história. Quando na solidão do mar, em terra, a mulher, os filhos, os amigos esperam que ela não falhe em trazer de volta o pescador que a  navega, e a canoa, então, encarna a esperança. É ela que faz com que o mar, enquanto dificuldade, obstáculo, desafio, se torne possibilidade e  colabore também na formação do modo-de-ser caiçara desse homem.
           Na vida da maioria dos ubatubanos não há pelo menos uma história em que não esteja presente uma canoa. Nos meus tempos de infância, ela servia como veículo (além do uso na pesca) de transporte corriqueiro para os caiçaras do norte e do sul do município. A canoa é também fazedora de reminiscência. Tenho na memória duas canoas: a Mirim  (acho que já escrevi sobre ela aqui no O Guaruçá), que  meu pai me deu de presente bem antes de eu aprender a andar. Uma pequena  canoa de guapuruvu. Arisca que só ela. Boa parte de minha infância e  adolescência foi a bordo dessa canoinha, subindo e descendo o rio Grande  da cidade. A outra, uma velha canoa, era a que meu pai, juntamente com  alguns amigos dele, nos finais de semana, me levava para pescar com rede de arrasto na baía da cidade, na Praia do Cruzeiro. Ia na proa, deitando a  rede ao mar aos poucos, sincronizado à velocidade da canoa. Meu velho, na  popa, remava. Lançada a rede, em semicírculo, retornávamos à praia onde já  nos esperavam para começar a puxada da rede com cordas feitas de imbé.  Quando terminava a pescaria, subíamos a canoa, rolando-a sobre tocos de madeira até o rancho onde ela permaneceria esperando o próximo final de  semana. Era pesca de lazer para meu pai e seus amigos. Para mim, sair de canoa com meu pai, momentos mágicos, inesquecíveis. Lembrar de uma canoa é também lembrar-me do meu velho, meu primeiro e maior amigo. Que Deus o tenha.
Foto: Caiçara soul
 Nota do Editor: Eduardo Antonio de Souza Netto é caiçara, 60, prosador (nas horas vácuas) de Ubatuba, para Ubatuba et orbi.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O MUTIRÃO DA PUXADA

O mutirão(1), pitirão, adjutório, troca-dia ou campanha é um sistema comunitário de ajuda mútua muito comum entre as comunidades tradicionais Caiçaras. Aos camaradas convidados para ajudar no serviço da roça, era oferecido um farto almoço e ao fim do dia um baile chamado Fandango Caiçara. Esse sistema contribuía para fortalecer as relações sociais e comunitárias, hoje substituído em grande parte pelo pagamento em dinheiro nas localidades em que essas relações foram dissolvidas.

O vídeo no link abaixo mostra uma puxada de canoa ocorrida do Sertão do Ubatumirim em Ubatuba, local que ainda preserva a coesão comunitária. Desse modo a maior Canoa Caiçara de Ubatuba, um imenso jequitibá esculpido, pode ser transportado do interior da mata até o rancho para receber o acabamento fino.

ASSISTA AO VÍDEO CLICANDO AQUÍ

Outro filme interessante, é o clássico Vento Contra, de Adriana Mattoso, onde no encerramento do filme, a puxada de canoa representa a união da comunidade Caiçara de Trindade - R.J. na luta pelo direito ancestral sobre suas terras.

VALE A PENA ASSISTIR AQUÍ

Recentemente mais uma puxada de canoa foi registrada em Trindade. A equipe do Domingo Espetacular foi até Trindade, no Rio de Janeiro, para conhecer o trabalho de mestres canoeiros e a "puxada da canoa". Veja como os caiçaras fazem para levar as canoas de cerca de uma tonelada barranco abaixo até a chegada às águas.

ASSISTA A REPORTAGEM AQUI

foto: Peter S. Németh


(1) referências bibliográficas:
Gioconda Mussolini. Ensaios de antropologia indígena e caiçara, 1980, p.238;
Antonio Carlos Diegues. Pescadores, camponeses e trabalhadores do mar, 1983, p.226;
Maria Luiza Marcílio. Caiçara: terra e população, 1986, p.35;
Clóvis Caldeira. Mutirão: formas de ajuda mútua no meio rural, 1956.