sexta-feira, 6 de maio de 2016

Exploração Turística da Ilha Anchieta - 1974

Pois bem que parece coisa de ficção, mas não é.
Analisando a história da Ilha Anchieta no século XX, percebe-se que desde 1905, quando foram expulsos centenas de caiçaras daquela Ilha para a instalação da colônia correcional, o Estado passou todo o período deste século exercendo seu poder de forma autoritária e visando seus próprios interesses. Colônia correcional, presídio político, presídio comum, local de quarentena para gado, "depósito" de imigrantes bessarábios, prisão de guerra para os Shindo-remei, posto de prestação de serviços de assistência aos profissionais da pesca, manicômio para onde seria transferido os pacientes do "Juqueri", colônia de férias para trabalhadores do Estado, exploração turística e urbanística, soltura de animais do zoológico, parque estadual terrestre e polígono de interdição à pesca. Ufa! Esse é um breve resumo de todas as mirabolantes ideias de uso da Ilha Anchieta pelo Estado. Algumas ficaram (ainda bem) só no papel. É sobre a mais megalomaníaca de todas que irei brevemente falar agora.
O Plano de Exploração Turística da Ilha Anchieta de 1974.
Esse plano "maravilhoso" escolheu a Ilha para "sede de um dos centros mais importantes do turismo nacional, com projeções na escala internacional [...] que se objetivam nas seguintes possibilidades: restaurantes e paradores, observatório astronômico e meteorológico, capela do pico, parque florestal e zoológico, clube de campo e camping, auditório, concertos e ballet ao ar livre, lago artificial e centro de cultivo de água doce, clube hípico, de caça e montanhismo, hotéis balneários, restaurante de praia, hotel oceânico, boate submarina, boate de gruta, iate clube"  (FUMEST, 1974).
Inacreditável? Surreal? Estou delirando?
Pois então coloco abaixo algumas fotos deste plano de "concepção urbanística".
Assim ia ser o cantinho da Praia Grande da Ilha Anchieta com seu hotel. (FUMEST, 1974).

Assim ia ser a parte do presídio transformado em centro comercial. (FUMEST, 1974).
Descrição geral do "empreendimento". (FUMEST, 1974).

Mapa de localização de todos os "empreendimentos". (FUMEST, 1974).

A primeira vez que vi este documento fiquei estarrecido. No entanto, não obstante essas maluquices do Estado, foram sempre os caiçaras que saíram perdendo. Expropriados de suas terras e de seus territórios pesqueiros localizados na Ilha Anchieta, perderam sua identidade sociocultural, perderam seu modo de vida tradicional, perderam seu sustento e sua arte pesqueira. Perderam tudo.

3 comentários:

  1. Caro Peter, conheci o Seu Peres por volta de 1988. Ele tinha um cerco na praia do Leste, na Ilha Anchieta. Quem cuidava do cerco era o Horácio com outros dois pescadores. O Seu Peres ia algumas vezes no rancho de pesca, no canto esquerdo da praia do Leste.
    Tinha outros dois cercos nessa época, o da praia do Sul e outro na costeira mais à adiante, do Guilherme.
    Eu era o administrador do parque e tinha um ótimo relacionamento com esses pescadores.
    Fiquei surpreso e triste quando soube que tiraram os cercos.
    Sou um dos autores do Plano de Manejo do Parque Estadual da Ilha Anchieta, publicado em 1989.
    Passei pouco mais de um ano na Ilha Anchieta e morava na casa grande da praia do Presídio.
    Segue o meu contato: melonetoje@uol.com.br e (12) 996861954.
    Um abraço.
    João Melo

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    1. Prezado João muito obrigado por dividir este comentário conosco. Desenvolvi melhor este tema na minha dissertação de mestrado. Talvez ela lhe interesse. Segue o link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/106/106132/tde-13022017-143552/pt-br.php

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    2. Neste outro post tbm falo sobre os cercos flutuantes e o plano de manejo do PEIA: http://canoadepau.blogspot.com.br/2013/03/gestao-costeira-quem-perde-e-quem-ganha.html

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