Peço permissão novamente para publicar mais um maravilhoso texto do meu amigo Julinho Mendes.
Fonte: O Guaruçá - http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=45375"
ATENÇÃO, ESSE TEXTO É MELHOR LIDO SOB ESTA MELODIA DE RODOLFO VIDAL: CLIQUE AQUI Julinho Mendes | ||||
| 27/08/2013 - 09h00 | ||||
| O sonho de um guapurubu | ||||
Estou com medo. O tempo está passando e ninguém vem me buscar. Pica-paus e baitacas já me fazem buracos para seus ninhos. Minhas raízes interromperam o sulco da terra, não bebo mais água, não oxigeno mais. Por favor, não me deixem aqui! Daqui a pouco vem um sudoeste qualquer e me põe no chão e cai também o meu sonho de ser navegante. Se me ajudarem saio daqui e igual papai e mamãe me torno canoa, navegante e me findo no mar. Quero que me pintem de verde e amarelo e me deem o nome de Ícaro. Vou navegar ao sol, derreter-me ao tempo e diluir-me no mar. Quero ser canoa! Quero navegar! Na mata, em breve, findarei. No mar vida nova terei. Sou Guapurubu, dos tupinambás, dos caiçaras... Sou do lugar de muitas canoas. Sou de Ubatuba e moro no morro do Félix. Venham! Venham me buscar! | ||||
Mostrando postagens com marcador Julinho Mendes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Julinho Mendes. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 27 de agosto de 2013
O SONHO DE UM GUAPURUVU - por JULIO CÉSAR MENDES
domingo, 3 de março de 2013
O REMO CAIÇARA por Julinho Mendes
| Peço licença ao Julinho Mendes para reproduzir na íntegra esta linda descrição da arte de se fazer um legítimo remo Caiçara, publicada no O GUARUÇÁ em 16-03-2011. Remo caiçara - A arte de Zeca Moisés | ||||
Para o caiçara, navegar era e ainda é mais do que viver. É a sua identidade, é a sua cultura, é a sua essência. Navegar é preciso! Mas não falo aqui de grande navegação, ou de navegação de grande porte, falo sim de navegação mais rudimentar, mais emocionante talvez e mais em carinho e em sentimento com o mar. Falo da navegação dentro de um pau só: “a canoa”, que navega na força dos braços, que maneja no traçado do remo; esse utensílio tão importante como a canoa. Na verdade, um não tem valor sem o outro. Até arrisco a dizer que a canoa é feita com dois paus: o do remo e o da canoa. A arte e a técnica de “esculturação” de um remo é tão igual ao de uma canoa. “Uma canoa não navega bem, se não tiver um bom remo”. Quem afirma essa frase é seu Zeca Moisés, caiçara do bairro do Prumirim, que com seus sessenta e seis anos de idade é um grande mestre na construção de remos para canoa caiçara. Ao vermos um remo, pensamos ser um simples objeto de navegação, mas nos enganamos, pois a cultura caiçara tem a sua ciência, sua sabedoria e dentro da etnologia matemática, usando de suas proporcionalidades, a arte de construção de uma canoa e de um remo, é matéria de estudos e pesquisas acadêmicas, que formam mestres e doutores em nossas universidades; e todos esses, buscam, em mestres como o seu Zeca, a sabedoria e os conhecimentos da cultura caiçara. - Meu filho, explica seu Zeca Moisés, veja quanto trabalho dá para fazer um remo: primeiro tem que esperar a lua certa; a minguante é a melhor para se cortar a madeira e melhor ainda é se for num mês ímpar. As melhores madeiras para remo são: o goacá, a capitinga, a caxeta do morro e o cubatã vermelho. Depois de cortada a madeira, espera a bicha descansar por cinco dias, para sair a água, a cica (seiva). Aí sim começamos o trabalho; lasca a madeira no meio (sentido longitudinal), para dar dois remos, e com um cipó ou uma linha, tiramos o eixo. Os primeiros cortes são feitos com o machado e com o facão, depois, com a enxó, a plaina de mão, o alegre, caco de vidro e lixa fina, faz todo o acabamento e perfeição no remo. Isso tudo leva uns três dias mais! Continua seu Zeca: - O remo tem duas partes: o cabo e a pá. A pá tem que ter 1/5 (um quinto) do comprimento do remo e sua largura, a metade desse 1/5. Pá de remo que não tem curva (concavidade), não vale nada; e a parte de dentro (parte côncava) tem que ter a quilha, para cortar a água, dar firmeza e segurança no remar. Não é fácil não, meu filho! Seu Zeca explica ainda que saber remar também é outra ciência, mas é mais fácil que fazer o remo, basta o cidadão ter persistência, observar os canoeiros e ter nos músculos dos braços muito caldo de gonguito, piragica, banana verde e farinha de mandioca. Além de remos, seu Zeca, ainda é artesão em canoa, pilão, gamela, colher de pau, coxo, peneiras e cestos de taquara, tipiti para prensa de mandioca ralada, balaios diversos, vassoura de timbopeva e outros artesanatos caiçaras. Na música caiçara, seu Zeca tem um grande papel: é mestre na dança de São Gonçalo e com seu pandeiro rufador participa do Fandango Caiçara, tocando xiba, tontinha, canoa, ciranda e outros ritmos de nossa cultura. Quem quiser conhecer seu Zeca Moisés e sua arte é só procurá-lo na rua Osório Antonio de Oliveira, 193 - Sertãozinho da Boa Esperança - à esquerda da capela de São Roque - bairro do Prumirim - Ubatuba - SP. | ||||
quinta-feira, 26 de abril de 2012
A CANOA CAIÇARA E SUA IMPORTÂNCIA MATERIAL E SIMBÓLICA
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Hoje, com a gentileza do caiçara Eduardo Souza e do Luiz Moura (O guaruçá), faço questão de apresentar este belo texto sobre a canoa caiçara. Aos dois, os meus sinceros agradecimentos e um grande abraço. Em tempo: não consegui anexar a imagem do Ubatuba Víbora. Ainda bem que o Júlio Mendes tem muitas imagens de canoas (e todas são belas!).
Talvez pela simplicidade, talvez por ser primitiva - neste mundo ansioso de novidades tecnológicas, confortáveis e fugazes -, a canoa é para mim algo belo, uma obra de arte. Fui levado a refletir sobre o tema ao deitar os olhos na foto da canoa que encima as páginas do Ubatuba Víbora, do amigo Sidney Borges. A canoa em terra, na areia da praia, solitária, à espera do dono e, diante de si, o mar... Belíssima foto!
O homem vê na árvore a canoa e, então, a transforma. O que era uma árvore, um Angelim no meio da mata, transforma-se, vira utensílio, instrumento, humaniza-se, torna-se mundo. A intimidade do homem com a canoa, que se torna extensão de seu corpo, de sua alma, que participa de sua história. Quando na solidão do mar, em terra, a mulher, os filhos, os amigos esperam que ela não falhe em trazer de volta o pescador que a navega, e a canoa, então, encarna a esperança. É ela que faz com que o mar, enquanto dificuldade, obstáculo, desafio, se torne possibilidade e colabore também na formação do modo-de-ser caiçara desse homem.
Na vida da maioria dos ubatubanos não há pelo menos uma história em que não esteja presente uma canoa. Nos meus tempos de infância, ela servia como veículo (além do uso na pesca) de transporte corriqueiro para os caiçaras do norte e do sul do município. A canoa é também fazedora de reminiscência. Tenho na memória duas canoas: a Mirim (acho que já escrevi sobre ela aqui no O Guaruçá), que meu pai me deu de presente bem antes de eu aprender a andar. Uma pequena canoa de guapuruvu. Arisca que só ela. Boa parte de minha infância e adolescência foi a bordo dessa canoinha, subindo e descendo o rio Grande da cidade. A outra, uma velha canoa, era a que meu pai, juntamente com alguns amigos dele, nos finais de semana, me levava para pescar com rede de arrasto na baía da cidade, na Praia do Cruzeiro. Ia na proa, deitando a rede ao mar aos poucos, sincronizado à velocidade da canoa. Meu velho, na popa, remava. Lançada a rede, em semicírculo, retornávamos à praia onde já nos esperavam para começar a puxada da rede com cordas feitas de imbé. Quando terminava a pescaria, subíamos a canoa, rolando-a sobre tocos de madeira até o rancho onde ela permaneceria esperando o próximo final de semana. Era pesca de lazer para meu pai e seus amigos. Para mim, sair de canoa com meu pai, momentos mágicos, inesquecíveis. Lembrar de uma canoa é também lembrar-me do meu velho, meu primeiro e maior amigo. Que Deus o tenha.
Nota do Editor: Eduardo Antonio de Souza Netto é caiçara, 60, prosador (nas horas vácuas) de Ubatuba, para Ubatuba et orbi.
Hoje, com a gentileza do caiçara Eduardo Souza e do Luiz Moura (O guaruçá), faço questão de apresentar este belo texto sobre a canoa caiçara. Aos dois, os meus sinceros agradecimentos e um grande abraço. Em tempo: não consegui anexar a imagem do Ubatuba Víbora. Ainda bem que o Júlio Mendes tem muitas imagens de canoas (e todas são belas!).
Talvez pela simplicidade, talvez por ser primitiva - neste mundo ansioso de novidades tecnológicas, confortáveis e fugazes -, a canoa é para mim algo belo, uma obra de arte. Fui levado a refletir sobre o tema ao deitar os olhos na foto da canoa que encima as páginas do Ubatuba Víbora, do amigo Sidney Borges. A canoa em terra, na areia da praia, solitária, à espera do dono e, diante de si, o mar... Belíssima foto!
Tenho
um depoimento do Baeco, fazedor de canoas. É um
artista. Eis trechos do que ele diz: “A construção de canoa começa
pela escolha da melhor madeira, mas a famosa mesmo
é o Cedro. Depois vem a Timbuíba, o
Ingá, o Bracuí... o Loro, o Guapuruvu e o Angelim. O Angelim tem três tipos: Angelim Amargoso, Angelim
Gisara e o Angelim Pedra. Estas três
são boas pra canoa. Esta é a madeira que a gente garante.” (...) ”Madeira a gente escolhe a lua, sim; agora,
não precisa ser uma minguante de
inverno; qualquer minguante é boa.” (...) ”A gente sabe a árvore que vai dar boa canoa no olho, primeiro o olho...
Você bate o olho, vai, erra centímetros, e o tamanho é a boca da canoa”
(...) ”O comprimento a gente se baseia
na boca, na largura da boca, tá? Normalmente é sete vezes um, sete por uma. Sete vezes a largura da boca é
o comprimento da canoa.” (...) ”Se ela,
por exemplo, tem sessenta centímetros de boca, sete vezes seis quarenta e dois, então a canoa
normalmente vai ter quatro metros e vinte centímetros.” (...) ”Pra medir no mato
a gente tem uma mania: põe uma vara em
direção à árvore antes do corte e aí sai com exatidão. A gente põe a vara lá na direção que vai ser o meio
da canoa, e olha de longe e calcula.
Porque tem a posição da boca, porque olhando na árvore você vê o lado melhor para a boca. Você olha tem um
lado que é ‘selado’ e tem o outro que é
mais ‘jeitoso’ para fazer a boca da canoa. A gente mede naquele lado. Com a vara faz uma cruz. Um
olha de longe e vê o que está sobrando.
Você vê com exatidão, porque a madeira é roliça. O outro, de longe, olha, aí você empurra pra lá, empurra
pra cá, até saber o centro direitinho.
Aí tira a grossura da casca, tira um pinguinho menos, e você tira o tamanho
certo; aí sai exato, centímetro certo...”
O homem vê na árvore a canoa e, então, a transforma. O que era uma árvore, um Angelim no meio da mata, transforma-se, vira utensílio, instrumento, humaniza-se, torna-se mundo. A intimidade do homem com a canoa, que se torna extensão de seu corpo, de sua alma, que participa de sua história. Quando na solidão do mar, em terra, a mulher, os filhos, os amigos esperam que ela não falhe em trazer de volta o pescador que a navega, e a canoa, então, encarna a esperança. É ela que faz com que o mar, enquanto dificuldade, obstáculo, desafio, se torne possibilidade e colabore também na formação do modo-de-ser caiçara desse homem.
Na vida da maioria dos ubatubanos não há pelo menos uma história em que não esteja presente uma canoa. Nos meus tempos de infância, ela servia como veículo (além do uso na pesca) de transporte corriqueiro para os caiçaras do norte e do sul do município. A canoa é também fazedora de reminiscência. Tenho na memória duas canoas: a Mirim (acho que já escrevi sobre ela aqui no O Guaruçá), que meu pai me deu de presente bem antes de eu aprender a andar. Uma pequena canoa de guapuruvu. Arisca que só ela. Boa parte de minha infância e adolescência foi a bordo dessa canoinha, subindo e descendo o rio Grande da cidade. A outra, uma velha canoa, era a que meu pai, juntamente com alguns amigos dele, nos finais de semana, me levava para pescar com rede de arrasto na baía da cidade, na Praia do Cruzeiro. Ia na proa, deitando a rede ao mar aos poucos, sincronizado à velocidade da canoa. Meu velho, na popa, remava. Lançada a rede, em semicírculo, retornávamos à praia onde já nos esperavam para começar a puxada da rede com cordas feitas de imbé. Quando terminava a pescaria, subíamos a canoa, rolando-a sobre tocos de madeira até o rancho onde ela permaneceria esperando o próximo final de semana. Era pesca de lazer para meu pai e seus amigos. Para mim, sair de canoa com meu pai, momentos mágicos, inesquecíveis. Lembrar de uma canoa é também lembrar-me do meu velho, meu primeiro e maior amigo. Que Deus o tenha.
Nota do Editor: Eduardo Antonio de Souza Netto é caiçara, 60, prosador (nas horas vácuas) de Ubatuba, para Ubatuba et orbi.
Fonte: José Ronaldo dos Santos, Caiçara de Ubatuba (SP-BR), preocupado em registrar
coisas do nosso povo para que outros em http://coisasdecaicara.blogspot.com.br/2012/02/canoa-caicara.html
sábado, 22 de outubro de 2011
CANOA CAIÇARA DE UBATUBA NO YOUTUBE
Novo canal no youtube em que estamos reunindo vídeos sobre a cultura caiçara. Acompanhe: http://www.youtube.com/user/canoacaicara?feature=BF#p/f
Como diria meu amigo canoeiro e rabequeiro Mário Gato: "Caiçara, uma cultura que resiste!"
foto: Peter Santos Németh - Trio de Guardiões/Ubatuba-SP
(Julinho Mendes, Ostinho e Mário Gato)
Assinar:
Postagens (Atom)