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domingo, 3 de março de 2013

O REMO CAIÇARA por Julinho Mendes

Peço licença ao Julinho Mendes para reproduzir na íntegra esta linda descrição da arte de se fazer um legítimo remo Caiçara, publicada no O GUARUÇÁ em 16-03-2011.

Remo caiçara - A arte de Zeca Moisés

Julinho Mendes 
Já dizia Fernando Pessoa, em seu poema: “navegar é preciso; viver não é preciso”.
Para o caiçara, navegar era e ainda é mais do que viver. É a sua identidade, é a sua cultura, é a sua essência. Navegar é preciso! Mas não falo aqui de grande navegação, ou de navegação de grande porte, falo sim de navegação mais rudimentar, mais emocionante talvez e mais em carinho e em sentimento com o mar. Falo da navegação dentro de um pau só: “a canoa”, que navega na força dos braços, que maneja no traçado do remo; esse utensílio tão importante como a canoa. Na verdade, um não tem valor sem o outro. Até arrisco a dizer que a canoa é feita com dois paus: o do remo e o da canoa.
A arte e a técnica de “esculturação” de um remo é tão igual ao de uma canoa. “Uma canoa não navega bem, se não tiver um bom remo”.
Quem afirma essa frase é seu Zeca Moisés, caiçara do bairro do Prumirim, que com seus sessenta e seis anos de idade é um grande mestre na construção de remos para canoa caiçara.
Ao vermos um remo, pensamos ser um simples objeto de navegação, mas nos enganamos, pois a cultura caiçara tem a sua ciência, sua sabedoria e dentro da etnologia matemática, usando de suas proporcionalidades, a arte de construção de uma canoa e de um remo, é matéria de estudos e pesquisas acadêmicas, que formam mestres e doutores em nossas universidades; e todos esses, buscam, em mestres como o seu Zeca, a sabedoria e os conhecimentos da cultura caiçara.
- Meu filho, explica seu Zeca Moisés, veja quanto trabalho dá para fazer um remo: primeiro tem que esperar a lua certa; a minguante é a melhor para se cortar a madeira e melhor ainda é se for num mês ímpar. As melhores madeiras para remo são: o goacá, a capitinga, a caxeta do morro e o cubatã vermelho. Depois de cortada a madeira, espera a bicha descansar por cinco dias, para sair a água, a cica (seiva). Aí sim começamos o trabalho; lasca a madeira no meio (sentido longitudinal), para dar dois remos, e com um cipó ou uma linha, tiramos o eixo. Os primeiros cortes são feitos com o machado e com o facão, depois, com a enxó, a plaina de mão, o alegre, caco de vidro e lixa fina, faz todo o acabamento e perfeição no remo. Isso tudo leva uns três dias mais!
Continua seu Zeca:
- O remo tem duas partes: o cabo e a pá. A pá tem que ter 1/5 (um quinto) do comprimento do remo e sua largura, a metade desse 1/5. Pá de remo que não tem curva (concavidade), não vale nada; e a parte de dentro (parte côncava) tem que ter a quilha, para cortar a água, dar firmeza e segurança no remar. Não é fácil não, meu filho!
Seu Zeca explica ainda que saber remar também é outra ciência, mas é mais fácil que fazer o remo, basta o cidadão ter persistência, observar os canoeiros e ter nos músculos dos braços muito caldo de gonguito, piragica, banana verde e farinha de mandioca.
Além de remos, seu Zeca, ainda é artesão em canoa, pilão, gamela, colher de pau, coxo, peneiras e cestos de taquara, tipiti para prensa de mandioca ralada, balaios diversos, vassoura de timbopeva e outros artesanatos caiçaras.
Na música caiçara, seu Zeca tem um grande papel: é mestre na dança de São Gonçalo e com seu pandeiro rufador participa do Fandango Caiçara, tocando xiba, tontinha, canoa, ciranda e outros ritmos de nossa cultura.
Quem quiser conhecer seu Zeca Moisés e sua arte é só procurá-lo na rua Osório Antonio de Oliveira, 193 - Sertãozinho da Boa Esperança - à esquerda da capela de São Roque - bairro do Prumirim - Ubatuba - SP.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"GARRAMAR" - O SURFE CAIÇARA EM CANOAS

A primeira vez em que ouví a palavra "garramar", anotei: "agarra mar", mas depois confirmei ser garramar mesmo. Trata-se de surfar uma onda com a canoa à remo, seja por puro divertimento, (brincadeira de infância de muitos dos meus Mestres Caiçaras durante as maresias), seja para demonstrar habilidade e coragem, pois dependendo do tamanho da onda pode ser fatal bater a cabeça contra o tronco esculpido.
Como no surfe, é muito importante escolher a onda certa, (que abra e não seja "caixote") e também governar com o remo para que a canoa não atravesse na onda causando um capotamento.
Algumas técnicas ajudam neste processo:
1- andar para a proa (board walk) facilita entrar na onda;
2- ficar na popa com o remo bem afundado, funcionando de leme, facilita manter o rumo correto;
3- é preciso sempre descer a onda um pouco de "fianco", ou seja, na diagonal para o lado que a onda abre (como no surfe), e o remo sempre no bordo oposto "encontrando"a água para impedir que a canoa atravesse, esse é o movimento mais difícil e que precisa de certa dose de fé; (veja aqui 0:42s);
4- caso ocorra um capotamento, deve-se afastar ao máximo do casco para não ser atingido, e o remo deve ser largado para que não quebre.

O garramar exige muita habilidade e coragem, seja nas exibições durante as corridas de canoas, seja na volta à praia depois das pescarias quando o mar está grosso. Nestes casos o perigo aumenta ainda mais pois a canoa está cheia e pesada com a rede, e caso haja um capotamento e a rede vire por cima do pescador, é morte certa.

Algumas imagens podem falar bem mais do que tentar descrever esta bela arte dos pescadores Caiçaras mais destemidos:

1
foto1: Cristina Prochaska (Lucas da Barra Seca - Ubatuba 2011) 

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4 
fotos 2, 3 e 4: Fausto Pires de Campos (Trindade-RJ, Década de 70)

Garramar triplo, fonte: facebook



segunda-feira, 28 de maio de 2012

CULTURA CAIÇARA ALCANÇA O MUBE PELAS LENTES DE CRISTINA PROCHASKA

Estará no MuBE, (Museu Brasileiro de Escultura), de 23 de maio a 2 de junho a exposição PHOTO GRAPHIAS de Cristina Prochaska.

Cristina neste trabalho mostra detalhes das embarcações dos caiçaras, canoas e barcos de pesca compondo com as cores, formas e curvas imagens quase abstratas.

Muitas imagens expostas no MuBE foram captadas nas areias da Praia da Enseada em Ubatuba-SP onde a família de Cristina construiu um grande vínculo desde os anos 50, convivendo integrada com a comunidade de pescadrores caiçaras locais.

Algumas fotos mostram a beleza dos remos caiçaras, esculpidos com maestria pelos pescadores caiçaras. A forma do remo caiçara é uma herança indígena, que os usavam também como lança.

Remo esculpido em guacá, por Maximiliano do Cambury.

“Sou apaixonada por esculturas flutuantes, talhadas artesanalmente, e homens e mulheres que tiram do mar seu sustento. Essa gente é minha inspiração, tenho muito respeito e admiração por esse povo”, explica Cristina. Para ela, a máquina e um par de lentes na bolsa são suficientes. “Fechei o foco, o plano, busquei as formas, cores e texturas sólidas, marcadas pelo tempo e pela água salgada. Foi um desafio interessante tirar o ‘Mar’, o fundo infinito natural desses objetos fascinantes – os barcos, verdadeiras esculturas flutuantes.”


Remo esculpido em canelinha por Pedro Costa, da Ilha Vitória.


"PHOTO GRAPHIAS", DE CRISTINA PROCHASKA
QUANDO
: de 23/5 a 2/6; de ter. a dom., das 10h às 19h
ONDE: MuBE (av. Europa, 218, São Paulo, tel. 11 2594-2601)
QUANTO: entrada gratuita


fonte: http://mube.art.br/expos/photo-graphias/
fotos: Peter Santos Németh