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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Fandango da Força Verde

Mestre Aorelio Domingues traduz com maestria a injustiça sofrida por Caiçaras de todo o litoral.

Conhecidas por "Florestal", "Força Verde" ou simplesmente "Meio Ambiente" essa força policial fiscalizatória trata os Caiçaras como bandidos.

Transcrevo um trecho da minha dissertação que foca nesta situação específica:

4.7.1. O conflito com o “meio ambiente”  
O pescador caiçara tradicional, não difere, nem percebe distinção, entre a própria vida e o ambiente natural em que ele está inserido, e do qual sobrevive.
Para o caiçara, o conceito de “meio ambiente”, possui significado totalmente distinto da concepção urbano-industrial. 
O “meio ambiente”, para ele, significa: a polícia florestal e as leis ambientais (MANSANO, 2004: p. 208; DIEGUES, 2008: p.67) que restringem suas atividades tradicionais.  É muito comum ouvir entre os caiçaras, expressões como: “O meio ambiente prendeu”, “O meio ambiente proibiu”, “O pessoal do meio ambiente”. 

"O profundo respeito e admiração pela natureza dos moradores da Barra do Ararapira não os fazem conservacionistas, pois a palavra é uma invenção nossa e que surge da nossa maneira dicotômica de perceber a natureza separada da humanidade. “Conservar” jamais seria uma palavra usada por eles, pois os mesmos não veem uma natureza possível de ser conservada, já que para eles não é algo estável, parada no tempo, imutável. Como se conserva algo que muda constantemente?" (RAINHO, 2015: p.140, grifo da autora)                                                 
 
Esta “névoa” que envolve o conceito local de “meio ambiente”, causa uma grande confusão quando o caiçara precisa expressar suas ideias sobre “manejo” ou “conservação ambiental”. O conceito de “conservação da natureza”, envolve práticas tradicionais tão arraigadas ao próprio modo de vida local, que os pescadores precisando explicá-las formalmente, confundem-se, contradizem-se, constrangem-se com a necessidade de dominar palavras, para explicar algo tão óbvio do ponto de vista tradicional prático.
 
"Aquele dia da reunião (Oficina do PEIA: SÃO PAULO, 2008a) mostrando... lembra... A placa que tinha (na Ilha Anchieta)... Mostrô o (nome suprimido) caçando né... lata de skol... Aí eu falei pra ela (gestora): -Isso aí a Sra. mostra né? Isso aí, coisa ruim, a Sra. mostra... Mas a Sra. num mostra que lá na Ilha tem aqueles pé de amendoeira, que faz sombra na frente do presídio, quem plantô foi pescador! Aquilo num nasceu lá não, a Sra. viu? Foi gente que levou... amendoeira, bananeira, coco da Bahia... Quem plantô? Né? Pescador... Pescador num faz o que ela tava mostrando... [...] Hoje a Ilha, Alemão... o que vem de saco de latinha quando desce lá (no píer do Saco da Ribeira), meu Deus do céu... Enche o cais só de saco preto cheio de latinha de cerveja... E a mulher (gestora do PEIA) filma os pescadô né? Que é os pescadô que (estraga)... Viu o monte de lata e garrafa (mostrados na Praia do Sul pela gestora, ao lado do rancho dos pescadores, para justificar a retirada do rancho daquela praia)? É... Mas o que descarrega (de lixo de turista) ninguém filmou, aquele monte de saco preto que só vê barulho, 10, 12 saco, mas assim ó (mostra 1 metro acima do solo) que vem de lá... Isso ninguém filma... É muito (injustiça)... sabe..." (DOS SANTOS, 2014, comunicação pessoal) 

Se a pressão da formalidade provoca distorção na comunicação, no entanto, suas considerações baseadas na observação empírica do uso da natureza no dia-a-dia da faina pesqueira, são cristalinos quando apontam quem realmente lucra com o “meio ambiente”. 

"O meio ambiente foi bom sabe pra quem? Pros... pros, cara...  que vieram pra explorá Ubatuba, assim, Caraguatatuba, todo o litoral, é os grileiro. Então isso foi bom. Então o meio ambiente ele foi bom, pelos (para os) grileiros que apareceram. Mas pela classe que sempre respeitaram o meio ambiente, eles prejudicaram. Que é os pescador... é os antigo... é o roceiro, é o cara que sempre criou o filho com farinha e palmito... entendeu?" (DE GÓIS, 2016, comunicação pessoal)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

CORRIDA DE CANOA CAIÇARA UBATUMIRIM 2013

Um dos melhores eventos de corrida de Canoa Caiçara do litoral norte de São Paulo acontecerá pela terceira vez na Praia do Ubatumirim em Ubatuba. Depois o tradicional Fandango Caiçara.



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A TRADIÇÃO CAIÇARA

Para as comunidades tradicionais que vivem sob regras tácitas de convívio social baseadas na reciprocidade e na confiança entre seus pares, não existe nada pior do que desobedecer a um regramento estabelecido.
Todos conhecem os limites do que é permitido ou não na comunidade e as consequências da desobediência.
Nada pior pra quem depende da instituição comunitária, seja para um mutirão ou para a pesca, do que ser banido do grupo. Perde-se o apoio da comunidade, o convívio grupal, fica-se isolado, sozinho. É uma questão simples de sobrevivência, pois isolado, é muito mais difícil enfrentar as duras tarefas diárias.
O mutirão, também conhecido como putirão, puxirão, adjutório ou troca dia, é uma verdadeira instituição Caiçara de imenso valor social e cultural. Através dele congregam-se várias famílias a fim de ajudar numa tarefa ou empreitada penosa de ser feita em solitário e quem solicitou a ajuda faz a "paga" com bebidas, comida e um baile de Fandango Caiçara.
Durante o mutirão seja para a puxada de uma Canoa Caiçara, para o preparo ou limpeza de uma roça, para a colheita ou para o plantio, estreitam-se as relações sociais. A cachaça que injeta ânimo para o esforço físico, também facilita muito a contação de causos e histórias ocorridas em tempos passados, transmitindo assim a tradição oral de uma geração para outra e reforçando os laços e a identidade cultural.
As técnicas e saberes também vão sendo exercidas em conjunto e naturalmente os Mestres vão coordenando os trabalhos, mostrando os nós, dando e executando comandos, respondendo perguntas, explicando os "porquês" e assim a Cultura não escrita, vai sendo transmitida pela oralidade.
foto: Peter S. Németh
Sábado último, dia 5 de outubro de 2013, houve uma roda de prosa em São Paulo, capital sobre o Fandango Caiçara. Estiveram presentes alguns Mestres Fandangueiros de Cananéia representados pela Família Pereira, o Prof. Doutor Antonio Carlos Diegues, do Nupaub-USP, e cerca de 20 jovens pesquisadores e extensionistas focados e engajados política/filosoficamente nos aspectos socioculturais das Comunidades Caiçaras do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.
Foi impressionante perceber durante o encontro que nas várias linhas de frente regionais onde os pesquisadores atuam é tema recorrente o impacto negativo da legislação ambiental vigente sobre a reprodução sociocultural Caiçara, a ponto de ameaçar de extinção esse modo de vida que permanece praticamente inalterado desde o século 16.
Questões fundamentais foram levantadas:
1- Um Caiçara que fez uma viagem pra Curitiba notou que "pra lá num tem um pé de pau, só campo de soja..."; se nos 500 anos em que o Caiçara vive na mata, ela ainda existe, pra que ou pra quem foi feita a lei da mata atlântica? Deve ser pro rei da soja ter sua casa de praia com vista pra floresta e um Caiçara, sem de onde tirar tradicionalmente seu sustento, trabalhando de caseiro para ele.
2- RDS e RESEX, que antes eram vistas como uma solução para que as comunidades pudessem formalizar seu modo tradicional de gerir o próprio espaço territorial e os recursos naturais que utilizam, hoje, com a forma "democrática" de instituir as unidades de conservação, "só participam figurão e seus cupinchas... pois o Caiçara não vai largar seu dia de serviço pra ir..." virou uma ferramenta para o especulador mercantilista. (leia)
3- Uma roça Caiçara (e também a maricultura) atrai e sustenta maior diversidade de fauna e na ausência da roça os animais somem e em menos de 10 anos a floresta já está fechada novamente.
4- Uma roça com milhares de pés de palmito Jussara plantada por um Caiçara em sua própria terra não pode ser cortada; mas e se ele "contratar" para a colheita integrantes de alguma etnia indígena, pode? Aliás foi identificado uma espécie de "ciúme" entre o caiçara e o indígena já que embora ambos sejam "tradicionais" perante a legislação, o índio pode tudo e o caiçara pode nada.
5- Perante a Constituição Federal o Caiçara tem o direito de exercer sua cultura, e esse direito lhe é negado pelas diversas leis ambientais. É urgente enfrentar a legislação inconstitucional trazendo juristas para o embate, criando um "marco legal" que garanta ao Caiçara o direito constitucional de exercer sua cultura, já que seus direitos atuais flutuam ao sabor do entendimento de cada gestor de parque. Mudou o gestor, muda o entendimento e muitas vezes as permissões para trocar uma telha, fazer uma coivara, ou dar um peido sequer demoram seis meses. Qual a dificuldade com a tecnologia atual de tablets, celulares com gps e internet de fazer in loco a autorização? Até a Sabesp e Electro imprimem a conta de água ou luz na hora!
6- Desobediência civil talvez seja a forma de protesto que deva ser iniciada face a urgência de uma solução. Não há mais tempo para discussões, fóruns ou reuniões pois está acabando em diversas regiões a última geração de Mestres Caiçaras que ainda lembra, sabe, faz e transmite a Cultura Caiçara.
7- No entanto, o Caiçara tradicional tende a sempre respeitar a lei, mesmo que seja uma regra em desacordo com o seu universo existencial, ou mesmo que ameacem sua própria existência como são as legislações ambientais. Foi relatado o caso de um Caiçara que foi preso por estar com dois palmitos embarcados em sua canoa. Os palmitos foram plantados por ele próprio, dentro do seu quintal e estavam sendo levados como presente para um parente. O Caiçara tentou suicídio na cadeia, pois seu universo cultural de gerações foi pulverizado em segundos.
8- A agilidade em "oficiar" os órgãos ambientais durante audiências públicas, reuniões e afins, também foi citada como uma estratégia eficiente. Houve um caso em que foi utilizada uma impressora e notebook durante uma audiência pública para gerar documentos e abaixo-assinados protocolados como "contraditório" no mesmo instante.
9- Além da desobediência civil proposta, talvez as recentes decisões do IPHAN reconhecendo o Fandango Caiçara como patrimônio cultural imaterial do Brasil e o pedido de registro dos saberes e fazeres da Canoa Caiçara também possam garantir o direito constitucional dos Caiçaras a sua terra, seus recursos e sua cultura, pois o Fandango é o elemento comum que "amarra" e a Canoa é o veículo que transporta, de uma geração até a outra, todas essas manifestações culturais Caiçaras.

O GALO CANTA (Família Gangsters) veja o vídeo clipe
Conquistar o céu
Ver o Sol de outro planeta
Decifrar a natureza
A fonte do segredo está dentro de nós

O homem busca há tanto tempo
O sopro do vento, um passo maior
Seu caminho, atrás de ciência
Perdeu a inocência
Gastou seu suor

Sonhou com o céu,
De cá, da terra

Conquistar o Sol,
De outro planeta ver o céu
Se sentir um grão de areia
Nas diferenças tão iguais

Respeito... para confrontar
Conceitos que nunca vão mudar
Enquanto sobe o concreto
E as luzes para confundir....
O galo canta!

O galo canta
O dia amanhece
O Sol esquenta
Meu jardim floresce.

fontes:
Blog Canoa Caiçara: http://canoadepau.blogspot.com.br/
Ponto de Cultura Caiçaras - Cananéia: http://galerialagamar.matimperere.com.br/
Enciclopédia Caiçara - Nupaub-USP: http://nupaub.fflch.usp.br/
Projeto O Galo Canta: http://catarse.me/pt/projects/674-o-galo-canta

sábado, 22 de outubro de 2011

CANOA CAIÇARA DE UBATUBA NO YOUTUBE

Novo canal no youtube em que estamos reunindo vídeos sobre a cultura caiçara. Acompanhe: http://www.youtube.com/user/canoacaicara?feature=BF#p/f

foto: Peter Santos Németh - Trio de Guardiões/Ubatuba-SP
(Julinho Mendes, Ostinho e Mário Gato)

 
Como diria meu amigo canoeiro e rabequeiro Mário Gato: "Caiçara, uma cultura que resiste!"