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terça-feira, 12 de junho de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro João Francisco - Mamanguá.

PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 01 em 5 de maio 2018
MESTRE CANOEIRO:
JOÃO FRANCISCO DO NASCIMENTO, BAIRRO DO BAIXIO, MAMANGUÁ, PARATY
IDADE: 60 ANOS, CASADO
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA E PESCADOR
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues

Inicio da atividade de construtor de canoas com cerca de 20-25 anos, observando o Mestre Leonel, seu primo do Bairro do Cruzeiro em Mamanguá. “Só via ele trabalhá na canoa, mas não perguntava nada.” Depois começou a trabalhar na profissão com o irmão mais velho, seu Acácio, que já sabia fazer a canoa. A primeira canoa foi feita com “timbuíva” com 50-60 cm. de boca.
As madeiras mais usadas eram as de timbuíva, ingá ( a mais usada,  pesada) caquera,  canafístula, jequitibá (para canoas maiores, com motor), guapuruvú ( madeira leve, dura menos que as outras).

Ferramentas usadas: machado, enxó, plaina, arco de pua

Processo de produção:
1.Escolha da  árvore no mato.
2.Derrubada da arvore e desgalhamento, preparo do tronco para a retirada da mata e transporte até o rancho onde se continua o feitio da canoa. O transporte é feito com a ajuda de vizinhos e parentes através do mutirão
3.Nivelamento da parte superior do tronco com machado
4.Colocação da linha de centro, fixada na proa e na popa. Coloca também duas linhas laterais, uma de cada lado, retirando a casca.
5.Prepara o “bergado” ou a “subida“ da proa e da popa.
7.Vira o tronco de bruço e cavuca o miolo do tronco
8.Para medir a espessura faz três buracos no fundo dianteiro, traseiro e meio.
9.O acabamento é feito com enxó e plaina.

Destino da canoa: quase sempre para uso próprio mas pode ser vendida se houver comprador.
Mudanças na profissão.
No Saco do Mamanguá as canoas eram feitas por ele, seu irmão Acácio, seu Tonico do Fundo do Saco, o Ditinho do Baixio. Só o seu João continua, mas somente faz alguma reforma de canoa pois é aposentado e já não tem forças para o trabalho mais pesado de retirada do tronco da mata.

A partir da implantação do “ parque” (Reserva Ecológica da Juatinga) em 1992, a atividade ficou mais difícil pela proibição da  derrubada das árvores pelo órgão gestor(hoje Eneia). “A gente tirava alguma madeira pra canoa, mas ia assustado”. Só era permitido usar árvores caídas ou derrubadas pelo vento, pela idade, mas em geral a madeira já vinha com defeito, partes podres, etc. Até então a maioria das embarcações eram canoas a remo usadas na pesca, canoas bordadas com motor de centro para transporte, baleeiras compradas do sul, barcos a motor de centro e algumas poucas lanchas de alumínio, depois de fibra para transporte de turistas. O modo de vida já estava mudando, o pessoal trabalhando na construção civil e no transporte de veranistas/turistas. A lavoura foi desaparecendo junto com as casas de farinha, sobrando hoje somente uma ou duas. A pesca, apesar de ter diminuído, garante ainda a mistura na comida das famílias e alguma venda para restaurantes locais e visitantes. As mulheres também passaram a  pescar o siri com  as “fisgas” na praia ou com os “covos”, transportados em canoas e deixadas com isca para serem retirados na manhã seguinte. As mulheres também retiram a carne do siri que é vendida a restaurantes, assim como vendem ostras e mexilhões retirados das pedras das “costeiras” e vôngole retirados também pelas mulheres na maré baixa.

Futuro dos mestres e da canoa caiçara: Para seu João a canoa caiçara do Mamanguá tende a desaparecer pois os jovens não se interessam pela profissão e usam cada vez mais as lanchas de alumínio com motores maiores e mais rápidos no transporte de turistas. Alguns desses turistas, no entanto, preferem alugar os barcos de madeira com motor de centro, mais vagarosos mas que permitem apreciar a paisagem durante a viagem.
Pescador do Mamanguá em sua canoa. Foto: Paulo Nogara.


quarta-feira, 7 de março de 2018

Projeto Registro da Canoa Caiçara - 2018

Logo oficial do Projeto de Registro. Arte: Peter santos Németh 2018.

Amigos da Canoa Caiçara apresentamos o novo logo do Projeto Registro dos Saberes associados a Canoa Caiçara. O Projeto atualmente está sediado no NUPAUB-USP dentro do Projeto Embarcações Tradicionais do Brasil.
Nosso logo foi inspirado em uma placa de "trânsito" utilizada na Praia da Enseada em Ubatuba desde o ano de 2005 no Rancho Meu Chamêgo, para sinalizar aos turistas que naquele local é proibido estacionar pois é local de manejo tradicional da Canoa Caiçara.

Placa original. Foto: Peter Santos Németh - 2005.

Foto do local de manejo tradicional, percebam a semelhança com o logo. Foto: Peter Santos Németh - 2005.
Nossa ideia é que este logo além de identificar o Projeto e a equipe do Registro, também identifique os locais de manejo tradicional da Canoa Caiçara, assim como na Praia da Enseada.
Assim, os interessados em reproduzir nossa placa receberão a arte do logo para confeccionarem sua própria sinalização local.

sábado, 7 de outubro de 2017

MAPA DA CANOA CAIÇARA

Apresentamos o Mapa Colaborativo da Canoa Caiçara (CLIQUE AQUI PARA ACESSAR).

A Canoa Caiçara, como toda embarcação tradicional, é expressão material da inventividade e personalidade cultural da comunidade que a produziu. Para construir uma Canoa Caiçara é preciso dominar um sofisticado sistema de saberes associados às artes da pesca, navegação e carpintaria naval, modeladas ao longo de gerações especialmente para as condições náuticas locais, com a matéria prima disponível e adaptada aos usos e necessidades sociais específicas de um território.

"Consideramos território caiçara o espaço litorâneo entre o sul do Rio de Janeiro e o Paraná onde se desenvolveu um modo de vida baseado na pequena produção de mercadorias que associa a pequena agricultura e a pesca, além de elementos culturais comuns, como o linguajar característico, festas e uma forma específica de ver o mundo. Apesar das características comuns a todas as comunidades caiçaras, existem variações culturais importantes entre o litoral sul do Rio de Janeiro, norte de São Paulo e sul de São Paulo e Paraná que se explicam pelos tipos e graus de inserção nas economias regionais e pela contribuição, em grau variado, das diversas matrizes culturais. Essas diferenças se refletem, por exemplo, nos tipos de embarcações usadas e que se distinguem pela função e tipo de ambiente em que são utilizadas (mar, estuário, rios) bem como pelo diferente aporte de outras culturas (como a baleeira trazida pelos catarinenses açorianos) vizinhas como a caipira e a açoriana". (DIEGUES, Enciclopédia Caiçara, Vol. 1, pg. 25)


Mapa do território Caiçara por Diegues (2005): Enciclopédia Caiçara, Vol. 4, pg. 320. 

 O registro do Complexo Cultural da Canoa Caiçara deve portanto abranger as diferentes dimensões de seu papel na cultura local, os múltiplos saberes artesanais envolvidos em sua construção e uso, assim como o universo simbólico - festas, lendas, lugares de uso e de memória -, que a envolve.
Acreditamos que o reconhecimento institucional, pelo Estado brasileiro, da cultura Caiçara, é instrumento fundamental para a garantia de direitos constitucionais reservados aos grupos e comunidades tradicionais. Assim contribuindo para a formulação de políticas públicas de planejamento territorial, ambiental e fundiário, em um projeto de desenvolvimento que abrigue os produtores e detentores desta importante e ameaçada parcela da cultura nacional.
Neste sentido, o Mapa da Canoa Caiçara se constitui não apenas como um banco de dados mas também como instrumento de divulgação e mobilização em torno do reconhecimento da Cultura Caiçara. 
Para tanto, convidamos a todos os interessados a participar, com a elaboração do MAPA DA CANOA CAIÇARA (clique) através do facebook. Onde todas as informações serão recebidas, filtradas e depois plotadas por nossa equipe de colaboradores.

Texto por Adrian Ribaric e Peter Santos Németh.

Mais informações em: 


MAPA DA CANOA CAIÇARA Google Maps 



Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada, Ubatuba, SP

sábado, 8 de abril de 2017

THE MYTH OF UNTAMED NATURE IN THE BRAZILIAN RAINFOREST

Existe uma versão em inglês do "bestseller" do Prof. Antonio Carlos Diegues, O Mito Moderno da Natureza Intocada. Esta edição de 1998 está disponível em pdf (TEXTO COMPLETO) no site do NUPAUB-USP. Segue o sumário em inglês.


 SUMMARY (COMPLETE BOOK)
Among some Brazilian conservationists and Governmental
Agencies, such as IBAMA (Brazilian Institute for Environment), there
is still the concept that protected areas (National Parks, Ecological
Stations) should be empty spaces, with no human dwellers.
According to the existing law, the presence of any human group,
traditional or not, is a threat to conservation and therefore, traditional
communities living in areas before the establishment of the
restrictive protected areas should be expelled. It is known however
that the traditional communities (mainly artisanal fishermen,
riverine and extractive groups) have lived for long time and due to
their type of livelihood are, to a large extent, responsible for the
conservation of the area. In many cases, the expulsion of these
groups has induced the arrival of powerful economic groups such
as sawmill processors, land speculators that are responsible for
the degradation of protected areas.
In some cases, after the transfer of the traditional population to
the surrounding regions, the protected area is considered to belong
the government environmental authorities and not to the original
dwellers. In this case, very often, the expelled traditional groups
also start predatory practices. In the cases these communities have
not been officially expelled, the constraints on the use of natural
resources are so restrictive that part of the population migrates in
order to make their living elsewhere.
In order to understand the cause of this unjust treatment against
traditional populations it is important to understand the origins of
the North-American conservationism concerning the creation of
national parks in the late 19th century, when the Yellowstone Park
was created. These ideas have deeply influenced the establishment
of national parks in Brazil.
In the second half of the 19th century, industrialization and
urbanization in U.S.A. were an advanced process, and colonization
was going on in the western regions. However, in that period there
were vast empty or wild areas. Conservationists, like Muir, Thoreau,
Marsh were influential in putting aside these areas for recreation
and admiration of natural beauty by urban population. This
ideology of “wilderness” considered that there is an inverse
relationship between human action and the well-being of the natural
environment. The natural environment and the urban world
were viewed as enemies. In this context, mountains and forested
regions and related wildlife were considered as wilderness, an
area enhanced and maintained in the absence of people. There
areas were seen as pristine environments, similar to those that
existed before human interventions. Very few north-American
conservationists considered that indians were part of the
“wilderness”. George Catlin was an exception and suggested that
not only the grazing lands but also the buffaloes and the indians
should be protected.
These ideas have deeply influenced the first Brazilian
conservationists. Vast areas were considered “empty” and “wild”,
although most of them were sparsely populated by traditional
communities of small scale fishermen, shifting cultivators, extractive
groups. These human groups were not so common in the areas
proposed as national parks in the US. Very often parts of the tropical
forests in Brazil were and in some case still are maintained in a
“wild” state because of the type of livelihood of the traditional
population that need to use the natural resources in a wise way in
order to survive. However, because of imported conservationist ideas
these traditional human groups should be transferred, by law, from
the land their ancestors have inhabited for a long time. Recent
studies undertaken by IUCN (Amend, 1992) have shown that only
14% of the national parks in Latin America are inhabited and
around 50% of them have traditional dwellers (small farmers,
artisanal fishermen). According to the same study inside or around
80% of the Brazilian national parks there are human communities
that use natural resources. The NUPAUB/USP — Research Center
on Human Populations and Wetlands in Brazil is undergoing an
overall survey on traditional communities and protected areas in
the Atlantic Forest. In the first phase, four states (São Paulo, Paraná,
Rio de Janeiro and Espírito Santo) are studied. Only in São Paulo
in 40% of the parks there is population (traditional or not) living
inside the protected areas.
Conservationist ideas concerning the role of traditional
populations have evolved, as it can be seen from the various
international meetings of IUCN — World Conservation Union in
the last 20 years. Many Brazilian conservationists however opposed
any change concerning the need for maintaining traditional
population in their habitat. Since the IUCN Meeting in Delhi and
particularly in the IV International Congress on National Parks and
Protected Areas, in Caracas (1992), called Peoples and Parks, the
positive role of traditional population in national parks
conservation has been recognized. Deep knowledge of the
ecosystem, long-standing sustainable management practices,
dependence on the use of natural resources, ancestral territorial
rights were recognized as important arguments to maintain and
associate traditional communities with protected areas management.
Recent studies (Balée, 1988; Gomez-Pompa, 1971, 1972; Posey,
1987; Brown, 1992) have shown the role of the traditional
communities (indians, small-scale fishermen, traditional peasants)
in conserving flora biodiversity in the tropical forests. These
researchers claim that it is important to take into consideration the
knowledge and expertise of these populations in conserving
biodiversity. These studies are relevant as today conservation of
biodiversity has become one of the most important functions of the
protected areas.
The acceptance of the presence and awareness of the contribution
of traditional population to national parks conservation is growing
among conservationists and researchers in Brazil, in spite of the
fierce opposition of some governmental and non-governmental
sectors. The creation of the extractive reserves, result of the struggle
of the rubber-tappers (seringueiros) is an important step to the
recognition of the role of the traditional communities. Other
categories involving the contribution of traditional population
should also be added to the existing protected area system managed
by IBAMA. NUPAUB/USP is proposing a new category entitled:
Ecological and Cultural Reserve as a Strategy to Protect both Biological
and Cultural Diversity.
A new system of protected areas (Sistema Nacional de Unidades
de Conservação) is being proposed but unfortunately this
discussion is restricted to narrow conservationist circles. In the
first proposal made by the IBAMA there is barely a place for the
traditional population in the system, and this should be changed.
The new system is an important issue and should not be handled
only by a few conservationist agencies. It should be an issue of
interest to be thoroughly discussed within the Brazilian civil society.

You may also likeAncient peoples shaped the Amazon rainforest. Trees domesticated by pre-Columbian peoples remain more common in forests near ancient settlements.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A Biblioteca Municipal Ateneu Ubatubense já tem.

Uma das formas de retribuir toda a generosidade do povo caiçara ubatubano em comigo compartilhar seu valiosos conhecimentos foi deixar um exemplar original da dissertação por mim elaborada disponível para consulta na Biblioteca Municipal de Ubatuba. Quem quiser é só passar lá e pesquisar: SITE DA BIBLIOTECA


RESUMO

NÉMETH, Peter Santos. A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta: a interdição dos territórios pesqueiros ancestrais e a reprodução sociocultural local. 2016. 248 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental) – Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental – Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.


O presente estudo analisa os saberes e técnicas patrimoniais utilizadas pela população dos pescadores caiçaras que atuam na região da Ilha Anchieta e Enseada do Flamengo, em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Este corpo cumulativo de habilidades especiais, transmitidas oralmente, compõe o conhecimento tradicional pesqueiro local, patrimônio imaterial sobre o qual fundamentam sua reprodução sociocultural e o manejo de seus pesqueiros[1] tradicionais. Abordamos através de pesquisa qualitativa não dirigida, as relações entre a apropriação social do ambiente marinho e os conflitos decorrentes do embate entre essa noção ancestral de propriedade por parte dos pescadores artesanais locais frente às questões legais do gerenciamento territorial desses pesqueiros pelos órgãos oficiais, utilizando uma abordagem etnográfica em nosso trabalho de campo, seguindo preceitos etnocientíficos, aspectos da etno-oceanografia e da socioantropologia marítima. Hoje, a disputa pelo domínio sobre esses recursos pesqueiros comuns (seja por órgãos governamentais conservacionistas ou de fomento à pesca, seja pela pressão política da pesca capitalista de escala industrial e da pesca esportiva amadora) cria frágeis mecanismos de regulação do acesso a esses pesqueiros tradicionais e aos recursos que neles ocorrem, quase sempre excluindo o pequeno pescador artesanal do processo de tomada de decisão e governança. Concluímos que esta regulação pesqueira, federal ou estadual, feita “de cima para baixo” ignorando deliberadamente as peculiaridades locais e os processos e mecanismos pelos quais os pescadores estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços marítimos, confirma a hipótese de que este sistemático des-respeito atropela as regras tradicionais baseadas no direito consuetudinário e põe em risco a característica fundamental que rege e sustenta todo o universo sociocultural e simbólico dessas populações tradicionais locais: a sua liberdade e autonomia, ou seja, a capacidade de governarem a si próprios. 


Palavras-chave: conhecimento tradicional, territórios pesqueiros, apropriação social do ambiente marinho, direito consuetudinário caiçara.



[1] Além das palavras estrangeiras, utilizar-se-á também o itálico para destacar as expressões especiais do vocabulário técnico tradicional caiçara local. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O papel da Socioantropologia Marítima.

Essa disciplina do NUPAUB/PROCAM/USP será ministrada agora no segundo semestre de 2015 pelos professores: Dr. Antonio Carlos Sant'ana Diegues e Dr. Adrian Ribaric.

Objetivos: O curso pretende apresentar uma visão interdisciplinar no estudo do mar, incluindo a contribuição das ciências sociais para a análise das relações entre sociedades e ambientes marinhos.

Justificativa: O mar, até recentemente foi considerado o espaço exclusivo de estudo das ciências naturais. Com o aumento das atividades marítimas, seja pela pesca, pelo transporte e pelo turismo, o mar começou a ser objeto de estudo de diversas disciplinas das ciências humanas, entre as quais a história, a antropologia e a sociologia. Nos últimos anos, no Brasil, a socioantropologia marítima tem contribuído para o aprofundamento dos estudos que relacionam as sociedades e o mar.

Período: 2º semestre de 2015 – Concentrada: 05 a 16 de outubro. Créditos: 04.

Horário: 19 às 22:30. Vagas: 20 alunos de pós-graduação e 10 alunos especiais.

Local: NUPAUB, Rua do Anfiteatro 181, Colméias, Favo 6.

Fone: (11) 3091-3307(11) 3091-3307

Acesse a ementa, CLIQUE AQUÍ.

E a valiosa bibliografia que será utilizada já está disponível, CLIQUE AQUÍ.


Prof. Diegues, foto: Peter Santos Németh

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A TRADIÇÃO CAIÇARA

Para as comunidades tradicionais que vivem sob regras tácitas de convívio social baseadas na reciprocidade e na confiança entre seus pares, não existe nada pior do que desobedecer a um regramento estabelecido.
Todos conhecem os limites do que é permitido ou não na comunidade e as consequências da desobediência.
Nada pior pra quem depende da instituição comunitária, seja para um mutirão ou para a pesca, do que ser banido do grupo. Perde-se o apoio da comunidade, o convívio grupal, fica-se isolado, sozinho. É uma questão simples de sobrevivência, pois isolado, é muito mais difícil enfrentar as duras tarefas diárias.
O mutirão, também conhecido como putirão, puxirão, adjutório ou troca dia, é uma verdadeira instituição Caiçara de imenso valor social e cultural. Através dele congregam-se várias famílias a fim de ajudar numa tarefa ou empreitada penosa de ser feita em solitário e quem solicitou a ajuda faz a "paga" com bebidas, comida e um baile de Fandango Caiçara.
Durante o mutirão seja para a puxada de uma Canoa Caiçara, para o preparo ou limpeza de uma roça, para a colheita ou para o plantio, estreitam-se as relações sociais. A cachaça que injeta ânimo para o esforço físico, também facilita muito a contação de causos e histórias ocorridas em tempos passados, transmitindo assim a tradição oral de uma geração para outra e reforçando os laços e a identidade cultural.
As técnicas e saberes também vão sendo exercidas em conjunto e naturalmente os Mestres vão coordenando os trabalhos, mostrando os nós, dando e executando comandos, respondendo perguntas, explicando os "porquês" e assim a Cultura não escrita, vai sendo transmitida pela oralidade.
foto: Peter S. Németh
Sábado último, dia 5 de outubro de 2013, houve uma roda de prosa em São Paulo, capital sobre o Fandango Caiçara. Estiveram presentes alguns Mestres Fandangueiros de Cananéia representados pela Família Pereira, o Prof. Doutor Antonio Carlos Diegues, do Nupaub-USP, e cerca de 20 jovens pesquisadores e extensionistas focados e engajados política/filosoficamente nos aspectos socioculturais das Comunidades Caiçaras do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.
Foi impressionante perceber durante o encontro que nas várias linhas de frente regionais onde os pesquisadores atuam é tema recorrente o impacto negativo da legislação ambiental vigente sobre a reprodução sociocultural Caiçara, a ponto de ameaçar de extinção esse modo de vida que permanece praticamente inalterado desde o século 16.
Questões fundamentais foram levantadas:
1- Um Caiçara que fez uma viagem pra Curitiba notou que "pra lá num tem um pé de pau, só campo de soja..."; se nos 500 anos em que o Caiçara vive na mata, ela ainda existe, pra que ou pra quem foi feita a lei da mata atlântica? Deve ser pro rei da soja ter sua casa de praia com vista pra floresta e um Caiçara, sem de onde tirar tradicionalmente seu sustento, trabalhando de caseiro para ele.
2- RDS e RESEX, que antes eram vistas como uma solução para que as comunidades pudessem formalizar seu modo tradicional de gerir o próprio espaço territorial e os recursos naturais que utilizam, hoje, com a forma "democrática" de instituir as unidades de conservação, "só participam figurão e seus cupinchas... pois o Caiçara não vai largar seu dia de serviço pra ir..." virou uma ferramenta para o especulador mercantilista. (leia)
3- Uma roça Caiçara (e também a maricultura) atrai e sustenta maior diversidade de fauna e na ausência da roça os animais somem e em menos de 10 anos a floresta já está fechada novamente.
4- Uma roça com milhares de pés de palmito Jussara plantada por um Caiçara em sua própria terra não pode ser cortada; mas e se ele "contratar" para a colheita integrantes de alguma etnia indígena, pode? Aliás foi identificado uma espécie de "ciúme" entre o caiçara e o indígena já que embora ambos sejam "tradicionais" perante a legislação, o índio pode tudo e o caiçara pode nada.
5- Perante a Constituição Federal o Caiçara tem o direito de exercer sua cultura, e esse direito lhe é negado pelas diversas leis ambientais. É urgente enfrentar a legislação inconstitucional trazendo juristas para o embate, criando um "marco legal" que garanta ao Caiçara o direito constitucional de exercer sua cultura, já que seus direitos atuais flutuam ao sabor do entendimento de cada gestor de parque. Mudou o gestor, muda o entendimento e muitas vezes as permissões para trocar uma telha, fazer uma coivara, ou dar um peido sequer demoram seis meses. Qual a dificuldade com a tecnologia atual de tablets, celulares com gps e internet de fazer in loco a autorização? Até a Sabesp e Electro imprimem a conta de água ou luz na hora!
6- Desobediência civil talvez seja a forma de protesto que deva ser iniciada face a urgência de uma solução. Não há mais tempo para discussões, fóruns ou reuniões pois está acabando em diversas regiões a última geração de Mestres Caiçaras que ainda lembra, sabe, faz e transmite a Cultura Caiçara.
7- No entanto, o Caiçara tradicional tende a sempre respeitar a lei, mesmo que seja uma regra em desacordo com o seu universo existencial, ou mesmo que ameacem sua própria existência como são as legislações ambientais. Foi relatado o caso de um Caiçara que foi preso por estar com dois palmitos embarcados em sua canoa. Os palmitos foram plantados por ele próprio, dentro do seu quintal e estavam sendo levados como presente para um parente. O Caiçara tentou suicídio na cadeia, pois seu universo cultural de gerações foi pulverizado em segundos.
8- A agilidade em "oficiar" os órgãos ambientais durante audiências públicas, reuniões e afins, também foi citada como uma estratégia eficiente. Houve um caso em que foi utilizada uma impressora e notebook durante uma audiência pública para gerar documentos e abaixo-assinados protocolados como "contraditório" no mesmo instante.
9- Além da desobediência civil proposta, talvez as recentes decisões do IPHAN reconhecendo o Fandango Caiçara como patrimônio cultural imaterial do Brasil e o pedido de registro dos saberes e fazeres da Canoa Caiçara também possam garantir o direito constitucional dos Caiçaras a sua terra, seus recursos e sua cultura, pois o Fandango é o elemento comum que "amarra" e a Canoa é o veículo que transporta, de uma geração até a outra, todas essas manifestações culturais Caiçaras.

O GALO CANTA (Família Gangsters) veja o vídeo clipe
Conquistar o céu
Ver o Sol de outro planeta
Decifrar a natureza
A fonte do segredo está dentro de nós

O homem busca há tanto tempo
O sopro do vento, um passo maior
Seu caminho, atrás de ciência
Perdeu a inocência
Gastou seu suor

Sonhou com o céu,
De cá, da terra

Conquistar o Sol,
De outro planeta ver o céu
Se sentir um grão de areia
Nas diferenças tão iguais

Respeito... para confrontar
Conceitos que nunca vão mudar
Enquanto sobe o concreto
E as luzes para confundir....
O galo canta!

O galo canta
O dia amanhece
O Sol esquenta
Meu jardim floresce.

fontes:
Blog Canoa Caiçara: http://canoadepau.blogspot.com.br/
Ponto de Cultura Caiçaras - Cananéia: http://galerialagamar.matimperere.com.br/
Enciclopédia Caiçara - Nupaub-USP: http://nupaub.fflch.usp.br/
Projeto O Galo Canta: http://catarse.me/pt/projects/674-o-galo-canta

terça-feira, 14 de maio de 2013

LIVROS SOBRE CULTURA TRADICIONAL E MEIO AMBIENTE

O NUPAUB, Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas em Áreas Úmidas Brasileiras foi criado em 1988 (inicialmente um Programa de Pesquisa) para estudar as relações entre populações humanas e áreas periodicamente inundáveis do Brasil. Estes ecossistemas, de alta produtividade natural e freqüentemente utilizados por populações humanas de grande diversidade cultural, como o Pantanal Matogrossense, as várzeas da Amazônia, as regiões costeiras sofrem hoje um rápido e intenso processo de degradação, com impactos negativos sobre a diversidade biológica cultural.

O Professor Doutor Antonio Carlos Sant'Ana Diegues, caiçara e Nobel da Paz, atualmente exerce a função de Diretor Científico do NUPAUB e possui vasta pesquisa publicada na área de planejamento ambiental e conservação da natureza, com ênfase em Ciências Humanas, principalmente nos seguintes temas: meio ambiente, planejamento costeiro, áreas protegidas marinhas, cultura caiçara, conhecimento tradicional e comunidades tradicionais. São mais de trinta títulos publicados.
Esse importante acervo de livros está disponível para aquisição diretamente do NUPAUB através do link:  http://nupaub.fflch.usp.br/pt-br/publicacoes, através do qual alguns exemplares esgotados nas livrarias ainda podem ser encontrados, como por exemplo: O Mito Moderno da Natureza Intocada, Pescadores Camponeses e Trabalhadores do Mar, A Imagens das Águas, A Pesca Construindo Sociedades, Enciclopédia Caiçara completa (5 volumes em promoção especial) e outros.
Preços entre 45 e 40 reais mais o envio.
Maiores informações Fone (11) 3091-3142
E-mail: bambuluz@yahoo.com.br