Chegou a vez da Canoa RIFA passar por uma reformazinha. Colocar pedaços onde está "pijuca", alargar a boca para deixar o bordo retinho, trocar os bancos e acertar a linha da "táboa do fundo". Depois de 10 anos de feita pelo Mestre Renato Bueno essa canoa de guapuruvu merece um tratamento especial.
Fotos e trabalho de reparo por Peter Santos Németh, Praia da Enseada, julho de 2017.
O mestre canoeiro Renato Bueno de Ubatuba demonstrando toda sua criatividade e técnica ao restaurar esta canoa caiçara que estava com o fundo comprometido. Esta canoa veio de Paúba, São Sebastião. Cortou-a ao meio longitudinalmente e inseriu uma nova prancha no fundo, uma proa com garra e sobreproa em peça única e um espelho de popa para instalação de motor de popa. A canoa restaurada voltou navegando até Paúba com um motor de 25 hp. Veja as fotos.
Aqui na Praia da Enseada, mais uma Canoazinha Caiçara conheceu o mar.
Essa feita sob encomenda pelo Mestre Renato Bueno especialmente para o mais novo remador da Enseada.
Depois de muito trabalho para terminar o acabamento fino e várias camadas de resina epóxi diluída em dez partes de etanol para selar definitivamente a madeira (técnica desenvolvida por nós), ficou pronta a Canoa para o batismo.
Seguindo nossa tradição do Rancho Meu Chamêgo, a mulher diz: "Em nome de Netuno eu te batizo VôVó", enquanto derrama um bocadinho de cachaça de boa qualidade na proa. O remo foi um presente do amigo Lucas Borsatto que o ganhou de troféu durante a Caiçarada, feito de guacá e também resinado, ficou muito bonito.
Dia 15 de janeiro de 2013, esteve visitando os Mestres Canoeiros de Ubatuba o Sr. Luiz Phelipe Andrès, conselheiro consultivo do IPHAN, e integrante da Câmara do
Patrimônio Imaterial por onde passa o processo de registro da Canoa Caiçara como bem cultural imaterial brasileiro.
Para o encontro estavam presentes a os Mestres Agricio Neri Barbosa, seu filho Manoel Neri Barbosa, (o Baéco), e Renato Bueno que debateram(veja aqui) longamente com o Sr. Luiz Phelipe sobre os elementos constitutivos da cultura caiçara implicados na fabricação da canoa. A visita teve o intuito de coletar informações para adiantar o processo de avaliação do pedido de registro feito pelo pesquisador Peter Santos Németh que deverá ser avaliado pelo IPHAN em abril próximo.
Este é o primeiro pedido de registro de bem cultural imaterial relacionado à embarcações brasileiras já feito. Caso seja aprovado o requerimento inicial, o registro efetivo dos saberes e fazeres do Mestres Canoeiros Caiçaras como patrimônio cultural do Brasil ainda necessitará de um inventário e de um plano de salvaguarda(veja) que assegure a transmissão deste conhecimento para as futuras gerações.
Apoiam esta iniciativa a Associação Pescadores da Enseada - APE, FUNDART - Prefeitura de Ubatuba, Nupaub-USP, Museu Caiçara de Ubatuba, APA Marinha - LN, Fundação PróTamar - Ubatuba, Instituto Costa Brasilis, União dos Moradores da Juréia, Amyr Klink Projetos Especiais, os remadores das corridas de canoas do Litoral Norte, além de vários colaboradores e admiradores da Canoa Caiçara.
As ferramentas utilizadas no feitio de uma canoa caiçara são
as mais simples e fundamentais da carpintaria, com exceção da motosserra e das
ferramentas elétricas, que apareceram para facilitar o trabalho e diminuir o
tempo de feitio da canoa, podendo encurtar de um mês para até uma semana,
inclusive barateando seu custo de produção. São utilizadas basicamenteo machado, o facão, o enxó goiva, o enxó chato, a
linha de bater, o prumo, o nível de água, a verruma, o arco de pua, o martelo,
o serrote, o formão chato, o formão goiva, as limas, a motosserra, a plaina
elétrica e a lixadeira elétrica.
No entanto é o enxó (fig. 33), a ferramenta símbolo do
ofício de confeccionar canoas. Como visto anteriormente o enxó é uma das
primeiras ferramentas inventadas pelo homem, hoje as lascas de pedra ou conchas
foram substituídas pela lâmina de metal. Quase sempre o enxó é forjado pelo
próprio mestre canoeiro, que molda a ferramenta de acordo com o seu estilo de
trabalhar, e tipo de uso. Vários tipos de enxó (fig. 33.1) são confeccionados
para cada etapa do feitio da canoa, os pesados e de cabo longo para cavucar, os
leves e de cabo curto para os detalhes, os chatos para aplainar, os “goivados”
para escavar e até vincados para fazer a linha do “beque da proa”.
33.1
Trecho extraído do Dossiê Canoa Caiçara, autor Peter Santos Németh.