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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sebastião Lourenço, um grande Mestre Caiçara.

Hoje infelizmente recebo a notícia que meu grande amigo e Mestre Caiçara, o Tião Lourenço, faleceu.
Mais um arquivo vivo da cultura caiçara de Ubatuba nos deixou, uma enorme biblioteca de memórias haliêuticas que se perdeu.
Colocando o sobrenício na canoa. Foto: Peter santos Németh, 2010.

Tive o privilégio de conviver como Tião por mais de 10 anos e aprender com ele uma ínfima partezinha de tudo o que ele sabia: provar o bacupari, aprender a colocar o sobrenício, fazer um alegre. Outras mais misteriosas tentei entender como: o responso, o carvão vivo da fogueira de São João e a pedra de cevá.
Quantas histórias fantásticas de ouro encantado, boitatá, assombração ele me contava com tanta vivacidade que seria impossível dizer que não fossem verdade.
Em maio de 2009 cumprindo a missão de Capitão da Fogueira, trazendo lenha da costeira para a fogueira da Igrejinha. Foto: Peter Santos Németh 

Tive ainda a sorte de poder registrar em vídeos e áudios muitos destes fragmentos.
Em nosso último encontro, já no hospital, levei-lhe 15 páginas de transcrições retiradas de quase duas horas de gravação: "Dá quase um livro Tião!" lhe falei. (Apenas 2 horas, 15 páginas, quanto não dariam 70 anos de sabedoria!?)
Nesse dia pude dar-lhe um forte abraço sem o gosto de despedida, mas de um até breve.
Até breve Tião, muito obrigado por me tornar um ser humano muito melhor do que eu era antes de te conhecer. 03/08/1945 - 28/04/2015.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

OS ÚLTIMOS MESTRES CAIÇARAS

Em todos esses anos em que compartilhei saberes com as comunidades Caiçaras por onde passei, algo que me pareceu mais evidente em quase todos esses lugares foi a descontinuidade da transmissão da cultura Caiçara entre gerações. É óbvio que a cultura não é algo estático, ela vai incorporando elementos através do tempo e se modificando. No entanto, principalmente nas comunidades mais próximas do centro urbano, o grau de influência de elementos culturais alienígenas (música, televisão, internet, modo de falar) são tão absurdamente gritantes a ponto de não ser mais possível reconhecer um neto de Caiçara pelo seu sotaque ou linguajar característico.
Acredito ser o modo de falar Caiçara uma das características mais marcantes desta cultura praiana, e é justamente este aspecto o mais ameaçado. Hoje expressões vindas de fora como "meu", "véio", "tá ligado" domina o linguajar dos jovens Caiçaras.
Outro conhecimento muito importante que está sumindo é aquele referente aos pesqueiros.
Pra quem não sabe, cada pedra de costeira tem um nome próprio que designa aquele local específico onde é bom de pescar. É como se fosse um endereço completo, que através do nome, mentalmente o pescador localiza o lugar, o tipo de peixe que lá existe e qual o equipamento de pesca ideal a ser usado.
Esse sistema de marcação ocorre em toda a costeira do litoral, e é través dele que os pescadores organizam suas pescarias para que uma rede não atrapalhe a do outro, são as regras do respeito.
Durante minhas pesquisas identifiquei dezenas de nomes, principalmente na região da Praia da Enseada, que é onde mais pesquei. Mas em todas as costeiras de todas as comunidades esse sistema antigo existe, ainda que restrito a alguns poucos Mestres Caiçaras.
Seu Dito Pú, na Picinguaba, me ensinando alguns pesqueiros. 

Por exemplo se eu falar em "Cana do Elpídio" ou "Furado", o Seu Dito Pú lá da picinguaba, vai saber onde fica; se falar em "Pedra do Cabrito" o Seu Gino da Barra-Seca me dirá onde é; se perguntar da "Mesa Pobre" e da "Piteira", o Antenor da Enseada ou o Tião Giraud vão saber me explicar que o primeiro é na Ilha Anchieta e o segundo fica na Enseada. E assim será em cada comunidade Caiçara.
Junto com cada pesqueiro desse, também existem dezenas de histórias referentes a pescarias bem ou mal sucedidas, peixes enormes que escaparam, "causos" de assombração, que geralmente são lembrados e recontados quando os pescadores visitam esses locais. É muito importante portanto preservar a manutenção desse método de transmissão cultural, garantindo o acesso desses pescadores a esses territórios pesqueiros ancestrais, pois é através deles que se garante a transmissão sociocultural e simbólica da Cultura Caiçara local. Infelizmente restam poucos Mestres Caiçaras para nos transmitir esse saber antigo, e menos interesse ainda dos mais jovens em aprender.
Mestre Antenor dos Santos, na "Itapeva". Meu maior professor, ensinando a mais um aprendiz seus segredos. A sua bença Antenor!