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sexta-feira, 10 de maio de 2013

OS ÚLTIMOS MESTRES CAIÇARAS

Em todos esses anos em que compartilhei saberes com as comunidades Caiçaras por onde passei, algo que me pareceu mais evidente em quase todos esses lugares foi a descontinuidade da transmissão da cultura Caiçara entre gerações. É óbvio que a cultura não é algo estático, ela vai incorporando elementos através do tempo e se modificando. No entanto, principalmente nas comunidades mais próximas do centro urbano, o grau de influência de elementos culturais alienígenas (música, televisão, internet, modo de falar) são tão absurdamente gritantes a ponto de não ser mais possível reconhecer um neto de Caiçara pelo seu sotaque ou linguajar característico.
Acredito ser o modo de falar Caiçara uma das características mais marcantes desta cultura praiana, e é justamente este aspecto o mais ameaçado. Hoje expressões vindas de fora como "meu", "véio", "tá ligado" domina o linguajar dos jovens Caiçaras.
Outro conhecimento muito importante que está sumindo é aquele referente aos pesqueiros.
Pra quem não sabe, cada pedra de costeira tem um nome próprio que designa aquele local específico onde é bom de pescar. É como se fosse um endereço completo, que através do nome, mentalmente o pescador localiza o lugar, o tipo de peixe que lá existe e qual o equipamento de pesca ideal a ser usado.
Esse sistema de marcação ocorre em toda a costeira do litoral, e é través dele que os pescadores organizam suas pescarias para que uma rede não atrapalhe a do outro, são as regras do respeito.
Durante minhas pesquisas identifiquei dezenas de nomes, principalmente na região da Praia da Enseada, que é onde mais pesquei. Mas em todas as costeiras de todas as comunidades esse sistema antigo existe, ainda que restrito a alguns poucos Mestres Caiçaras.
Seu Dito Pú, na Picinguaba, me ensinando alguns pesqueiros. 

Por exemplo se eu falar em "Cana do Elpídio" ou "Furado", o Seu Dito Pú lá da picinguaba, vai saber onde fica; se falar em "Pedra do Cabrito" o Seu Gino da Barra-Seca me dirá onde é; se perguntar da "Mesa Pobre" e da "Piteira", o Antenor da Enseada ou o Tião Giraud vão saber me explicar que o primeiro é na Ilha Anchieta e o segundo fica na Enseada. E assim será em cada comunidade Caiçara.
Junto com cada pesqueiro desse, também existem dezenas de histórias referentes a pescarias bem ou mal sucedidas, peixes enormes que escaparam, "causos" de assombração, que geralmente são lembrados e recontados quando os pescadores visitam esses locais. É muito importante portanto preservar a manutenção desse método de transmissão cultural, garantindo o acesso desses pescadores a esses territórios pesqueiros ancestrais, pois é através deles que se garante a transmissão sociocultural e simbólica da Cultura Caiçara local. Infelizmente restam poucos Mestres Caiçaras para nos transmitir esse saber antigo, e menos interesse ainda dos mais jovens em aprender.
Mestre Antenor dos Santos, na "Itapeva". Meu maior professor, ensinando a mais um aprendiz seus segredos. A sua bença Antenor!  
    

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O CAIÇARA E A ETNOCIÊNCIA

Dia amanhecendo na Picinguaba e o "Seu Pú" (Benedito Correia da Silva), do alto de suas décadas de sabedoria, após um bom dia e um aperto de mão, regride no tempo e espaço levando-me junto na jornada.
Penetramos na Picinguaba de outrora, nomes de pesqueiros hoje quase esquecidos: cana do Elpídio, aguada, toca da velha, furado. Artes de pesca em desuso, relatos de pescarias memoráveis.
Um rol de nomes de pescadores do "tempo antigo" e suas aventuras.
Um tom de amargura também pelo descaso das autoridades com o "pescadô miúdo" que sofre com a pressão dos barcos grandes "de fora" que invadem a enseada em saques constantes.

Dito Pú, foto Peter Santos Németh.  


“(...)foi possível perceber que, embora por lógicas distintas, os pescadores detêm um conhecimento fundado em operações mentais semelhantes ao conhecimento científico formal mediante a observação, classificação e experimentação de suas práticas produtivas derivadas da inter-relação com o ambiente natural ao longo do tempo.
Assim, os saberes dos pescadores artesanais acumulado secularmente para fazer face aos imperativos da vida do mar – principalmente às desordens naturais – revelaram não só ser elemento mediador da inter-relação cultura e natureza, como condição sine qua non para a viabilidade da pesca artesanal em seus componentes materiais e imateriais. É mediante esse saber que os pescadores definem estratégias adaptativas às flutuações do ecossistema marítimo para assegurar a sua reprodução social no tempo. E, é nesse processo de adaptação inteligente diante das condições bioclimáticas e naturais, que esse sujeito social constrói o espaço marítimo como um espaço sociocultural próprio.” (CUNHA, 2008:5) 1

Obrigado Seu Pú, pela amizade generosa.

Mais informações:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cade-o-peixe-que-estava-aqui,840556,0.htm

http://www.youtube.com/watch?v=kudJuC6M_-M&list=PL47A10ABFC600C883&index=3&feature=plpp_video

1- CUNHA, Lúcia Helena de Oliveira. Diálogo de saberes entre tradição e modernidade: ordens e desordens. 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia 2008 Porto Seguro, Bahia, Brasil p. 18. Consulta na internet, endereço http://www.abant.org.br/conteudo/ANAIS/CD_Virtual_26_RBA/grupos_de_trabalho/trabalhos/GT%2021/lucia%20helena%20de%20oliveira%20cunha.pdf, em 20 de abril de 2012.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

PICINGUABA - Paula Saldanha acompanha a pesca artesanal e abusos da pesca industrial

A pesca artesanal no litoral do paísA pesca artesanal no litoral do paísA pesca artesanal sempre garantiu a sobrevivência de milhares de brasileiros nos mais de oito mil quilômetros da costa brasileira. As diversas pressões da vida moderna têm mudado esse modo de viver característico do povo do litoral. A degradação ambiental, a pesca industrial e a pressão urbana fecham o cerco sobre essas populações.
Vivendo ao longo do litoral brasileiro há mais de 500 anos, comunidades de pescadores sofrem com o impacto da pesca industrial e têm o estilo de vida ameaçado. Neste Expedições, Paula Saldanha e Roberto Werneck acompanham de perto a vida e os costumes dos pescadores artesanais que denunciam abusos da pesca industrial, onde grandes barcos entram em enseadas e estuários de rios, arrastando, com redes de malha fina, cardumes dos berçários naturais.
Como controlar o impacto da pesca industrial sobre os milhões de brasileiros que dependem da pesca artesanal? As políticas de conservação têm sido suficientes? Quais os problemas que provocam o desaparecimento de várias espécies de peixes e camarões em nossa costa? A pressão é grande enquanto o que se pesca diminui. As propostas e o apelo dessas populações que desde sempre contam o doce viver no mar.
O programa ainda mostra o belíssimo litoral sul da Bahia, o litoral norte do Rio de Janeiro e o norte de São Paulo: praias paradisíacas, pequenas comunidades pesqueiras, um estilo de vida de baixo impacto ambiental e um jeito leve e cuidadoso com a natureza.
ASSISTA EM: https://www.youtube.com/watch?v=QO9Q2BtxN3w&list=PL47A10ABFC600C883
Fontes: http://tvbrasil.ebc.com.br/expedicoes/episodio/pesca-artesanal
e https://www.youtube.com/user/canoacaicara?feature=mhee

sábado, 3 de dezembro de 2011

CANOA CAIÇARA: BEM CULTURAL IMATERIAL DO BRASIL-IPHAN

A Canoa Caiçara é uma embarcação especialmente desenvolvida e adaptada para a pesca costeira de subsistência que ocorre no litoral sul fluminense, paulista, até o litoral norte paranaense. Sua produção totalmente artesanal é de domínio exclusivo de poucos mestres canoeiros ainda em atividade, que utilizando saberes e fazeres ancestrais transmitidos de geração em geração através da oralidade[1], conservam este patrimônio cultural capaz de assegurar a autonomia desta população tradicional em plena harmonia com o ambiente marinho e terrestre em que vivem.

 A cultura caiçara relacionada a construção de canoas corre o risco de desaparecer devido à falta de interesse de seus herdeiros em continuar a atividade, seja pela baixa remuneração, pela dificuldade do trabalho ou pela legislação ambiental que dificulta o acesso às matérias-primas.

 Torna-se necessário portanto não apenas garantir o acesso sustentado do caiçara aos grandes troncos de árvores, mas também resgatar e valorizar seu universo cultural tradicional para que as novas gerações se interessem, se envolvam, ampliem o conhecimento e o reproduza, perpetuando-o.

A canoa esculpida em um único tronco de árvore denominada canoa caiçara, é uma embarcação que carrega em suas linhas habilmente entalhadas a associação direta à população dos pescadores caiçaras que habitam a faixa litorânea que vai do litoral sul fluminense, paulista, até o norte paranaense.[2]

Seu design especial com características próprias, desenvolvidas e aperfeiçoadas visando garantir para esta atividade pesqueira tradicional a máxima funcionalidade e segurança com a mínima manutenção e gasto energético, garantiu a sobrevivência desta população caiçara em perfeita harmonia com o ambiente natural em que se inserem até os dias atuais.

A canoa caiçara desperta a curiosidade e admiração naqueles que a conhecem pela primeira vez, pelo fato de ser construída a partir de um único tronco de madeira. Também é motivo de veneração quase mística por aqueles que conhecem profundamente suas qualidades e segredos, que se revelam apenas durante os anos de intimidade diária nas pescarias de subsistência.

Objeto de raros estudos sobre suas características e técnicas construtivas, reunindo aspectos simbólicos, étnicos, técnicos e ergológicos, cujos únicos detentores destes saberes tácitos são os mestres caiçaras construtores de canoas de um só tronco, a canoa caiçara ainda carece do reconhecimento oficial como patrimônio cultural do povo caiçara.

Este dossiê reunindo fotos, relatos, estudos, pesquisas, vídeos e documentos relativos à descrição sistemática e pormenorizada do modo de fazer e dos saberes, junto com técnicas de uso de ferramentas, relacionados à canoa caiçara, tem por objetivo instruir o processo de tombamento dos saberes e fazeres relacionados à canoa caiçara de um só tronco produzida em território caiçara, para registro no Livro de Registro de Saberes junto ao IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como bem cultural de natureza imaterial do Brasil, baseando-se nos artigos 215 e 216 da Constituição Federal de 1988, Decreto nº 3.551 de 4 de agosto de 2000 e no Decreto Federal nº 6.040 de 7 de fevereiro de 2007.   



[1] Roberto Verschleisser, Com quantos paus se faz uma canoa um estudo de casos 1990.  Dissertação Escola de Belas Artes-UFRJ.
[2] Antonio Carlos Diegues, Diversidade biológica e culturas tradicionais litorâneas: o caso das comunidades ciçaras 1988. NUPAUB-USP e Wanda Maldonado, Da mata para o mar: a construção da canoa caiçara em Ilhabela/SP  2001.  Dissertação PROCAM-USP.

Foto: Peter Santos Németh, Praia do Ubatumirim, Ubatuba, SP.