quinta-feira, 6 de setembro de 2012

AS FERRAMENTAS DO OFÍCIO DE MESTRE CANOEIRO


AS FERRAMENTAS DO OFÍCIO

As ferramentas utilizadas no feitio de uma canoa caiçara são as mais simples e fundamentais da carpintaria, com exceção da motosserra e das ferramentas elétricas, que apareceram para facilitar o trabalho e diminuir o tempo de feitio da canoa, podendo encurtar de um mês para até uma semana, inclusive barateando seu custo de produção. São utilizadas basicamente o machado, o facão, o enxó goiva, o enxó chato, a linha de bater, o prumo, o nível de água, a verruma, o arco de pua, o martelo, o serrote, o formão chato, o formão goiva, as limas, a motosserra, a plaina elétrica e a lixadeira elétrica.
No entanto é o enxó (fig. 33), a ferramenta símbolo do ofício de confeccionar canoas. Como visto anteriormente o enxó é uma das primeiras ferramentas inventadas pelo homem, hoje as lascas de pedra ou conchas foram substituídas pela lâmina de metal. Quase sempre o enxó é forjado pelo próprio mestre canoeiro, que molda a ferramenta de acordo com o seu estilo de trabalhar, e tipo de uso. Vários tipos de enxó (fig. 33.1) são confeccionados para cada etapa do feitio da canoa, os pesados e de cabo longo para cavucar, os leves e de cabo curto para os detalhes, os chatos para aplainar, os “goivados” para escavar e até vincados para fazer a linha do “beque da proa”.





 33.1

Trecho extraído do Dossiê Canoa Caiçara, autor Peter Santos Németh.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O TRAQUETE


A propulsão à vela foi uma das primeiras adaptações feitas pelos índios em suas canoas, imitando esta tecnologia trazida pelos primeiros colonizadores.(1)

 O traquete, como é genericamente chamado pelos caiçaras o conjunto de mastro e velas para a navegação “à pano”, hoje quase já não se usa mais.

 Foto de um traquete tradicional.
Herança dos heróicos tempos das grandes canoas de voga do início do século XX (fig. 41)(2). As vogas eram especificamente canoas de transporte de carga que levavam mercadorias das comunidades caiçaras isoladas economicamente até os grandes portos da época. Podiam facilmente transportar 6.700 litros de aguardente, mais até 08 passageiros, e ainda os remeiros que podiam ser de 04 até 08 contando com o “patrão” que era o mestre comandante da voga.
 fig 41

A canoa de voga é o tipo de canoa mais citado por diversos autores, em muitos relatos e estudos de várias épocas(3).

Esta recorrência talvez se deva não só ao gigantismo de suas dimensões, mais de 20 metros de comprimento por 2,2 metros de largura, que muito impressionavam os cronistas por serem esculpidas em um só tronco de árvore, mas também pela importância vital das vogas, já que eram os únicos meios de ligação disponíveis entre os caiçaras e os grandes centros, levando e trazendo mercadorias e “quitandas”, garantindo a sobrevivência das comunidades.

Estas viagens em meio a ventos e tempestades criaram histórias de eventos fantásticos e heroicos que atravessaram gerações até os dias de hoje.

Os panos(4) permitiam encurtar as viagens com o vento a favor. Com o vento contra, as mezenas,(vela latina colocada a popa), entrava em ação, sendo responsável pelo rumo da canoa em ventos laterais. Quando não havia vento, então entravam em ação os remos de voga (fig. 42).

Até hoje o nome “canoa de voga” está associado e algumas vezes confunde a tipificação da embarcação que neste trabalho definimos como Canoa Caiçara.

 fig.42 (Verschleisser-1990)


Trecho extraído do Dossiê Canoa Caiçara, para registro de bem cultural imaterial junto ao IPHAN.



(1) Verschleisser 1990:89; Maldonado 2001:86 e Museu Nacional do Mar em: http://www.museunacionaldomar.com.br/estrutura/canoas.htm.
(2) Comissão geographica geologica 2ª ed. 1919, capa Enc. Caiçara vol IV 2005 NUPAUB-USP.
(3) John Mawe 1944. Schmidt 1947, Mussolini 1980, França 1951, Maldonado 2001, Klink 1983, Verschleisser 1990, Oliveira 1983, Denadai 2009, Noffs 2004, Diegues 2004. 

(4)Traquete e Mezena, assim chamadas as velas das vogas de dois mastros, o primeiro, vela “quadrada” de formato retangular, armada no banco da proa, e a segunda, vela “latina” de formato triangular (fig. 41), armada no banco do meio.
Fonte sobre mastreação: sp modelismo.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

CORRIDA DE CANOAS ENSEADA 2012 - UBATUBA

Finalmente o sol deu as caras durante a 3a Corrida de Canoas Pescadores da Enseada.
Após dois anos consecutivos de muita chuva, a festa ficou completa.
Foram 6 provas nas categorias masculino, feminina e aprendiz e mais de 40 inscritos.
Tivemos o apoio da Pousada Maanaim que ofereceu um delicioso almoço aos remadores, do Projeto Tamar-Ubatuba que promoveu a soltura de tartarugas e premiou os ganhadores, prefeitura de Ubatuba através da Secretaria de pesca e obras, Fundart, pousada Maravista e Farmarys manipulação que ofereceu os Biotônicos.
Este ano foram homenageados o Sr. Élvio Damásio, caiçara tradicional e o narrador oficial das corridas de canoas de Ubatuba, o Sr. Alaor Guedes Sampaio, motorista responsável pelo caminhão que transporta as canoas das comunidades até o local da corrida e o Sr. Roberto Prochaska, que completou 70 anos "de praia".
Foram também comercializados mexilhões produzidos pelos caiçaras locais em suas fazendas marinhas de modo sustentável a preços promocionais.

Assista mais em:  http://youtu.be/MkKJD9qhsgY
                             http://youtu.be/GUU3X2hm_8o



                                                                                                                                 foto: Zsolt Németh


Sr. Elder dos Santos Giraud, caiçara e maricultor manipulando os mexilhões de cultivo sustentáveis.
 foto: Peter Santos Németh

foto: Peter Santos Németh


Sr. Alaor, sendo homenageado.
 foto: Lilian Prochaska


Sr. Élvio recebendo os agradecimentos de todos os remadores.
 foto: Lilian Prochaska


quinta-feira, 5 de julho de 2012

CANOA CAIÇARA "MARIA COMPRIDA" COMEMORA 40 ANOS

Dia 1º de julho último, um domingo de corrida de canoas da 89ª Festa de São Pedro Pescador em Ubatuba, a canoa Maria Comprida, construída de um tronco de louro pelos maiores mestres canoeiros do nosso litoral, o Sr. Agrício Néri Barbosa, e seu filho Manoel (Baéco) em 1972, voltou a navegar suas linhas graciosas em comemoração dos seus 40 anos de existência.
Para quem não conhece sua história,  ela  foi construída especialmente para as corridas de canoas entre as cidades de Ubatuba e São Sebastião, na categoria cinco remadores. A árvore que originou a famosa canoa, foi encontrada na curva da batata na rodovia Oswaldo Cruz que liga Taubaté à Ubatuba, pelo caçador Vergílio Alexandre. O acabamento e a pintura da canoa foram feitos pelo Sr. Dito Balbino, do bairro da Estufa, ela tem 9,20 metros de comprimento, apenas 82 cm de "boca", pesando aproximadamente 200 quilos.

Na comemoração de seus 40 anos, a canoa foi conduzida por remadores representando as praias de ubatuba: Joanilson da Praia da Justa, "Xico" Parú da Praia da Enseada, Dionísio e Nelsinho da Barra Seca, Seu Domingos da Praia das Sete Fontes e Marta do Centro.
Assista em: https://www.youtube.com/watch?v=4543Vbb3Bm8&feature=plcp


                                                            foto: Cristina Prochaska

Para esta ocasião a Maria Comprida foi totalmente restaurada pelo canoeiro Renato Bueno, filho do Seu Domingos da Sete Fontes, que colocou vários pedaços novos em seu bojo, esculpidos no enxó e colados com araltec e serragem,  numa técnica chamada sobrenício.

                                                        foto: Lilian Prochaska Németh

Em 1973, no dia 1º de junho, pela primeira vez aconteceu a "Jornada Marítima Ubatuba-Santos", uma prova com percurso longo, com cinco remadores, porém sem caráter de competição. Mais uma vez, o grande incentivador foi o professor Joaquim Lauro. Comandada por Artur Alexandrino dos Santos, a Maria Comprida foi rasgando as águas com os remos de Carlos Alves de Morais (Carrinho), João Correa Leite (Jango), Antonio Barroso Filho (Barrosinho) e Nilo Vieira, rumo à Santos. Os cinco remadores faziam parte do Esporte Clube Itaguá.
Percurso, de aproximadamente 215 quilômetros em linha reta, idealizado para lembrar um fato da história do Brasil, a Paz de Iperoig, assinada em 14 de setembro de 1563. Antes de ser estabelecida a paz entre os índios e os portugueses, os índios de nossa região se uniram para combater os portugueses no que foi denominado "Confederação dos Tamoios", quando então, comandados por Cunhambebe, se deslocavam principalmente até Bertioga nesse tipo de canoa. Em comemoração aos 410 anos da Paz de Iperoig, foi realizada a viagem da canoa Maria Comprida de Ubatuba a Santos.

A saída da Maria Comprida foi no dia 1º de junho, às 4h 45min, tripulada pelos cinco remadores, em frente à Capela Nossa Senhora das Dores no Itaguá, chegando em São Sebastião às 13h05 do mesmo dia. De lá saíram às 04h15, chegando em Bertioga às 14h45 do dia 2 de junho. De Bertioga continuaram a viagem, saindo às 06h30 e chegando finalmente à Santos às 10h15 do dia 3 de junho, atracando na Ponta da Praia, em frente ao Clube de Regatas Saldanha da Gama.

Em 1975, a Maria Comprida volta ao mar para fazer a trajetória Ubatuba-Parati, cidade sul fluminense, com o objetivo de incentivar remadores da região para participarem das corridas de canoa realizadas em Ubatuba. Tripulada por Artur, Carrinho, Salvador Mesquita dos Santos, Barrosinho e João Grande, Maria Comprida deixou a cidade às 05h35 e às 17h15 estava atracando em um pequeno porto ao lado da Igreja Matriz de Parati.

Anos mais tarde, o Tamoios Iate Clube adquiriu a canoa, já bastante danificada, e posteriormente o Comodoro José de Magalhães Netto cedeu a Maria Comprida à FUNDART. Em agosto de 1997, a canoa finalmente foi restaurada e no dia 15 do mesmo mês a doação foi oficializada, ficando a Maria Comprida em exposição no Centro de Informações Turísticas na Avenida Iperoig. Nesse mesmo dia, os remadores foram homenageados pela FUNDART e pela Prefeitura Municipal de Ubatuba.

QUE VENHAM MAIS 40 ANOS DE HISTÓRIA!!

fonte: http://www.ubaweb.com/ubatuba/esportes/index_esp_masc.php?espo=canoamc, acesso em 3/07/12

Atualizado em 27 de julho de 2016:
Completando sua história, a canoa Maria Comprida conduziu a tocha olímpica nas águas da Enseada de Ubatuba. Empunhada na proa pelo Nelson da Barra Seca, outros três remadores e uma remadora ubatubanos, entre eles Seu Domingos das Sete Fontes e Edinho do Ubatumirim na popa.
Foto: Irismar Clarindo Silva Clarindo
Foto: Luiz Correia



quarta-feira, 27 de junho de 2012

SER CAIÇARA: UMA CIÊNCIA ECOLÓGICA.


As práticas tradicionais são hoje reconhecidas por parte da comunidade científica como sustentáveis e de certo modo possuidoras de valor científico.

Para Sanches, dois dos aspectos que fundamentam os pressupostos políticos-ambientais a favor da permanência de determinados grupos em áreas protegidas são: ... [o] conhecimento inerente de suas experiências ancestrais sobre a ecologia das espécies e tipos de tecnologia apropriada que lhes permitiram se adaptar e reproduzir-se cultural e materialmente;... pela existência de uma relação de equilíbrio entre as práticas de manejo e o meio ambiente e de mecanismos culturais conservacionistas que impediriam a depleção dos recursos naturais em níveis comprometedores à manutenção dos mesmos. As populações tradicionais seriam, portanto, responsáveis inclusive pela preservação da biodiversidade.(1997: 27) (ADAMS, 2000:161).


Sobre este aspecto, Lúcia Helena Cunha postulou:

A importância das sociedades tradicionais aparece também no pensamento de Vieira (1995, p. 304) afirmando que suas lições nos processos de apropriação, uso e gestão de recursos renováveis litorâneos, podem se constituir em pontos de referências relevantes na construção da proposta de gestão patrimonial. Para ele, [...] se o respeito pelo uso sustentado dos recursos tornar-se algo compartilhado pela comunidade, aumenta as chances de êxito de formas de gestão capazes de favorecer o alcance simultâneo de uma distribuição mais eqüitativa da riqueza gerada e de aumento das margens de sustentabilidade dos recursos da comunidade”. Nessa direção, preocupado com os processos que tendem a desarticular as formas tradicionais de organização da pesca artesanal, esse autor coloca que: “em termos concretos caberia empreender, num primeiro momento, a diversificação do potencial dos recursos existentes em cada micro-região litorânea, em sintonia com a valorização de formas tradicionais detida pelo pescador” (Vieira, 1995, p. 306-312). Assim, esse conhecimento ungido de diálogos e duelos com os próprios movimentos da natureza deve ser atualizado, restaurado e revigorado para a sua própria permanência no tempo; em particular em face da premência de novos paradigmas de uso sustentável dos recursos naturais que, sem abstrair a importância do conhecimento tradicional das comunidades pesqueiras nas localidades pesquisadas, deve colocar em outro patamar as suas condições de vida. (CUNHA, 2008:10).

BIBLIOGRAFIA:
ADAMS, Cristina. “As populações caiçaras e o mito do bom selvagem: a necessidade de uma nova abordagem interdisciplinar”. Revista de Antropologia, vol.43, n.1, São Paulo, 2000. Consulta na internet, endereço http://www.scielo.br/pdf/ra/v43n1/v43n1a04.pdf, em 20 de abril de 2012
CUNHA, Lúcia Helena de Oliveira. Diálogo de saberes entre tradição e modernidade: ordens e desordens. 26ª. Reunião Brasileira de Antropologia 2008 Porto Seguro, Bahia, Brasil p. 18. Consulta na internet, endereço http://www.abant.org.br/conteudo/ANAIS/CD_Virtual_26_RBA/grupos_de_trabalho/trabalhos/GT%2021/lucia%20helena%20de%20oliveira%20cunha.pdf, em 20 de abril de 2012.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

CORRIDA DE CANOAS CAIÇARAS 2012, ENSEADA-UBATUBA

Mais uma vez temos a honra de convidar a todos os amigos da Canoa Caiçara para a III Corrida de Canoas - Pescadores da Enseada, 2012.
Este ano além das tradicionais provas de 1, 2 e 3 remos, também estaremos promovendo a super-oferta de inverno do nosso mexilhão de cultivo que será vendido "in natura" com 50% de desconto.  

Veja como chegar no link ao pé da página




fotos:  Marcelo Ambrogi e Janaína Zimmermann 
Praia da Enseada - Ubatuba

segunda-feira, 11 de junho de 2012

DOCUMENTÁRIO "CANOA CAIÇARA" REGISTRA O UNIVERSO DA CANOA DE UM SÓ PAU

Dentro do projeto Com Quantas Memórias se Faz uma Canoa, foi realizado o documentário Canoa Caiçara que de maneira poética registra o universo material e simbólico dos pescadores artesanais de canoa a remo.
A importância da canoa como veículo que carrega em suas linhas habilmente entalhadas por poucos mestres canoeiros ainda em atividade em Ubatuba, São Paulo, é capturada por depoimentos de vários mestres, Seu Domingos da Sete Fontes e seu Filho Renato Bueno, Maximiliano do Cambury, Seu Filhinho da Picinguaba, Seu Gino da Barra Seca e Nélio, e o grande mestre do litoral norte o Baéco, filho do Seu Agrício Neri Barbosa do Ubatumirim, o mais renomado mestre canoeiro da região.


Foto: Peter Santos Németh - Ico/Enseada

De modo quase didático, o diretor Luiz Bargmann extrai naturalmente destes mestres, técnicas empíricas que só podem ser passadas de geração em geração através da oralidade.
O vídeo completo está disponível no endereço:
http://www.fau.usp.br/intermeios/pagina.php?id=43
Atualmente o modo de fazer da canoa caiçara e os saberes e fazeres dos Mestres Canoeiros estão em fase de registro junto ao IPHAN para serem reconhecidos como Bem Cultural Imaterial Brasileiro.