terça-feira, 10 de março de 2026

Uma ferramenta lítica ou a minha imaginação?

Há cerca de uns 30 anos, meu amigo pescador da Praia da Enseada, João Batista, nascido e criado naquela costeira, estava arrastando camarão no Largo das Toninhas, entre a Ilha Anchieta e a Ponta das Toninhas e um objeto inusitado veio em meio aos camarões. Enquanto fazia a escolha do lance ele encontrou uma pedra muito diferente, com formato ovalado, perfeitamente simétrica, pesada e bem polida. 

O João Batista então a guardou no barco e vez em quando a usava para amolar suas facas a bordo.

Certa vez, durante uma das puxadas para manutenção do Arcanjo Miguel (nome do barco), eu o estava ajudando com a pintura e lhe perguntei sobre aquela pedra de amolar, como devia ser antiga por estar tão gasta pelo uso (ela realmente se assemelha a uma pedra de Carborudum).


Foi então que ele me respondeu: "Não Alemão.... isso aí não é Carborundum não.... isso aí eu achei no arrasto de camarão". Eu já respondi admirado: "Não é uma pedra de amolar"??! E logo fui observar a pedra melhor e vi realmente que ela possuía "camadas" e "veios" como os de uma pedra qualquer.

Empolgado com a minha curiosidade e espanto ele falou: "Pode levar pra você Alemão".

Desde então tenho essa pedra curiosa guardada. Esses dias eu a encontrei numa das minhas gavetas e tive um lampejo, quase um delírio... E se for um artefato lítico?! Uma ferramenta confeccionada pelos sambaquieiros que habitaram a região de Ubatuba há cerca de 1650 anos atrás, com permanência contínua naquelas paragens pelo período de mais ou menos 900 a 1000 anos?!

Dezenas de estudos científicos identificaram na região diversas oficinas líticas nas praias e ilhas da região, Ilha do Mar Virado, Ilha Anchieta, Tenório, Picinguaba, Ilha das Couves.

Quem sabe esse povo antigo não estaria em uma travessia costeira a bordo de uma de suas canoas e uma refrega de Sudoeste tenha virado a embarcação no meio da viagem?! Ou quem sabe uma batalha entre "tribos" rivais e o artefato tenha sido perdido durante a disputa?! 

Impactado por essa hipótese absurda, consultei informalmente uma pesquisadora que trabalhou em alguns desses estudos e ela me disse com muita cautela que "parece sim um artefato lítico", mas como ela foi achada no fundo do mar, a pedra está "descontextualizada" e embora os gumes pareçam ter sido feitos intencionalmente pelo homem apenas uma análise mais profunda e científica poderia concluir algo. Disse-me também que em nenhuma escavação da região, das quais participou, ela encontrou algum objeto fusiforme do mesmo tamanho, já menores, entre 3 e 4 centímetros, sim, ela já havia encontrado.

Deixo aqui algumas fotos do "objeto", ainda com alguns respingos de tinta do Arcanjo Miguel.





sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

ANDOR DA CAPELA DE SANTA RITA DA ENSEADA

Por volta do ano de 2011 fizaram uma limpeza na Capela de Santa Rita da Praia da Enseada e no lixo encontrei este andor jogado fora na rua.
Analisei a construção bem artesanal que deve ter sido obra de algum morador da comunidade. Percebi que haviam alguns berços no centro que pareciam ter sido feitos para apoiar uma embarcação e deduzi que o andor deve ter sido feito para levar São Pedro Pescador. Não pensei duas vezes e resgatei o andor do lixo.
15 anos depois deste resgate estou eu aqui estabilizando o andor com o mínimo de intervenção possível para que permaneçam suas características originais preservadas. Manterei os berços originais (que ainda possuem algum vestígio da tinta marrom usada para pintar a embarcação) e também os berços de pinus que claramente foram feitos depois para algum ajuste, estes de pinus tive que recompor com cola pois os pregos incharam com a ferrugem e os estouraram.
Passei de leve uma lixa 180 só pra tirar a sujeira superficial das madeiras e também as farpas. Mantive os restos de papel crepom colados que mostram como era enfeitado o andor.
Perecebe-se no andor as várias tentativas de melhora da estrutura como o uso de parafusos de inox e arame de cobre para tentar fixar melhor o Santo e sua embarcação.
A idéia é o mínimo de intervenção possível mas deixando a estrutura firme e coesa. Depois de tudo pronto pensei que seria bacana estudar o interesse do Museu Caiçara de Ubatuba em expor a peça como um testemunho da religiosidade da Comunidade da Praia da Enseada. Seria bacana também verificar se existe ainda na Capela de Santa Rita algum São Pedro com embarcação, e se esta embarcação tem o casco pintado de marrom conforme os vestígios de tinta no andor.
(Todas as fotos são de Peter Santos Németh)

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

INVENTÁRIO DE REMOS CAIÇARAS

As fotos a seguir documentam uma coleção de Remos Caiçaras juntados entre 1993 e 2011. O primeiro par, feito da madeira Guacá, foi adquirido do Mestre Benedito Barbosa, mais conhecido como Baeco em 1993 lá no Ubatumirim, Ubatuba. Foto abaixo: Peter Santos Nemeth
Depois disso só fui adquirir outros remos por volta do ano de 2008, quando encomendei mais 2 remos com o Mestre Dito Costa, morador ilhéu da Vitória, Ilhabela. São dois exemplares, um de Guacá e outro de Canelinha da amarela. Mais tarde, por volta do ano 2009, aproveitei um tronco morto de Goiabeira, isso mesmo, Goiabeira da vermelha que secou aqui em casa, e encomendei com o Dito Costa outro remo. Foto abaixo: Peter Santos Németh. Seu Dito da Vitória com o remo de goiabeira, ao fundo o barco dele "TRÊS IRMÃOS".
Em 2009, nas minhas andanças com o Élvio Damásio pela Praia do Cambury no Norte de Ubatuba, encontrei o Mestre Maximiliano e encomendei outro par de remos de Guacá. Mais ou menos na mesma época encomendei 3 remos com o Mestre Zeca Moisés, morador do Sertãozinho da Boa Esperança, lá no Prumirim. Tenho inclusive publicada uma reprodução de um texto do Mestre Julinho Mendes, muito bem elaborado, onde ele descreve tecnicamente a "esculturação" do Remo Caiçara. Foto abaixo: Julinho Mendes. Seu Zeca Moisés.
Tenho um remo também, feito pelo saudoso Mestre Josias de Matos, do Toque Toque Pequeno, São Sebastião. Este remo foi encomendado por volta de 2010. Foi feito de Canelinha da amarela, no entanto, como disse o próprio Mestre quando fui buscar, "achei que você quisesse um remo de enfeite, não um remo pra usar!" Na verdade a única diferença do "remo de enfeite" que ele fez, é que tem um nó (defeito) bem na parte do cabo que recebe mais carga durante a remada, tornando-o mais frágil e fácil de quebrar. O acabamento também ficou um pouco mais grosseiro também, mas todas as linhas do feitio do Mestre Josias estão nele. Foto abaixo: Peter Santos Németh. Seu Josias me entregando o remo.
Tenho um outro remo de Canelinha da amarela, que quem retirou o corte foi o Mestre Pedro Costa, irmão do Mestre Dito da Vitória. Mas quem esculpiu o remo foi o pescador Olimpio de Jesus, (Chico Parú) lá da Praia da Enseada. Restaram alguns remos os quais ganhei e não conheço o Mestre que os construiu. Um foi adquirido pelo meu sogro Roberto Prochaska no Mercado de Peixes de Ubatuba, na loja do Pato Louco por volta de 2011. Disse ele à época que era uma senhora do norte de Ubatuba quem o fez, não tenho certeza disso. Tenho também uma pá de remo que pertenceu ao Mestre Higino da Praia da Barra Seca. Era de um remo "famoso", no qual ele gravou o nome "GINO" com uma colher em brasa e usava nas Corridas de Canoa, esculpido lá no Saco do Mamanguá, Paraty, em Caixeta. Esses remos do Mamanguá foram por alguns anos vendidos numa loja náutica do centro de Ubatuba, eram extremamente leves e com uma pá enorme muito bem esculpida, linda. Outro remo que desconheço o escultor é um remo pintado de verde, que ganhei do Mestre Antenor dos Santos, bem usado por ele na Praia da Enseada. Fora estes tenho várias pás de remos quebrados que a maré jogava no lagamar da Praia da Enseada ou na costeira que fui juntando ao longo do tempo como um registro da árdua faina pesqueira.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Canoa Caiçara BONETEIRA no passaporte brasileiro?

José Carlos Braga, funcionário da Casa da Moeda do Brasil, é responsável pela imagem da canoa caiçara, presente no novo passaporte brasileiro.  A imagem abaixo é a colagem do artista que serviu de base para o desenho presente no passaporte. Trata-se de uma Canoa Caiçara BONETEIRA na qual repousa um Remo Caiçara. As proporções estão totalmente erradas na arte, pois, se realidade fosse, o remo teria pelo menos uns 5 metros de comprimento. Mas como inspiração está ok.

https://www.casadamoeda.gov.br/pws/assets/entities/entity21.html

No desenho final do passaporte, houve também uma alteração na proa, o bico de proa sumiu. Esse fato torna difícil identificar o feitio da canoa no passaporte mas, o desenho acima, não deixa dúvidas de que realmente uma Canoa Caiçara BONETEIRA serviu de inspiração para a arte que está no novo passaporte brasileiro. 

https://www.casadamoeda.gov.br/passaportebrasileiro/







segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Pirataria Privada na Ilha Anchieta! O butim é grande!

De Parque Estadual para Parque Temático. 

O Golpe está aí! Só não vê quem não quer.

Reforma tudo com dinheiro público, pra entregar de mão beijada pra "iniciativa" privada.

Ainda bem que algum funcionário com escrúpulos e fígado deixou bem à mostra os "itens" que nem de perto dizem respeito à Contenção.



Quer entender todo o "rolê" do projeto de privatização da Ilha Anchieta? 

Então veja aqui: 

https://canoadepau.blogspot.com/2016/05/exploracao-turistica-da-ilha-anchieta.html

https://canoadepau.blogspot.com/2013/03/gestao-costeira-quem-perde-e-quem-ganha.html 

https://canoadepau.blogspot.com/2013/09/o-infeliz-destino-de-nossos-parques.html 


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

VARRENDO ESGOTO PRA DEBAIXO DO BUEIRO

Agosto de 2020, Praia da Enseada, Rua Santa Rita, Ubatuba - SP
INACREDITÁVEL!!
Nos últimos dias vários caminhões  do tipo limpa fossa estão descarregando esgoto diretamente no bueiro da esquina da Rua Luzia Maciel Leite com a Rua Santa Rita (foto). Tudo isso está indo diretamente para o mar que está a 50 metros de distância. Existe um emissário irregular nesta rua que já não dá mais conta do volume normal, imagine de vários caminhões. BREVE MAIS ATUALIZAÇÕES

Filmagem do emissário irregular totalmente negligenciado pela Sabesp.

Desculpem o palavreado, mas a imagem abaixo recebi por mensagem. Não sei se é realidade, mas se um dia for, digo até que o palavreado orna bem com a paisagem.




terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Canoa Caiçara São Sebastião tem Alma foi localizada em Brest - França

Já escrevi anteriormente neste blog sobre a impressionante e épica aventura de dois Mestres Canoeiros Caiçaras que construíram uma legítima Canoa Caiçara, no ano de 1996, durante o famoso Festival Marítimo de Brest realizado a cada 4 anos na França. Em 1996 ele reuniu quase 2.500 barcos, 17.000 marinheiros tendo 30 países representados e mais de um milhão de visitantes. Neste ano de 1996 entretanto aconteceu um fato curiosíssimo, durante o festival foi construída uma legítima Canoa Caiçara em um brasileiríssimo tronco de Guapuruvu que foi levado junto com dois Mestres Canoeiros de Ilhabela - SP, Geovani Oliveira e Moisés de Souza que transformaram, em oito dias de trabalho, um tronco de guapuruvu, trazido do Brasil, numa canoa de 7.5 m de comprimento,  0.75 m de largura e 0.8 m de pontal (profundidade), pesando próximo de 400 kg. Esta epopeia foi articulada pelo Espaço Cultural São Sebastião tem Alma, uma ONG hoje extinta, e os detalhes me foram aparecendo ao longo dos anos junto com minha incessante pesquisa sobre a Canoa Caiçara. Ao que parece, conforme consta na publicação "Teresa Aguiar e o Grupo Rotunda - Quatro Décadas em Cena" de Ariane Porto (2007), pode ser que esta Canoa após ter sido construída em Brest, também participou da Exposição Mundial de Lisboa - 1998
Mas este fato ainda carece de confirmação pois a grafia do nome da canoa exposta em Lisboa é diferente daquela que está em Brest. (Então será que outra Canoa Caiçara SSTA também foi levada para Lisboa?)
Amyr Klink autografando a Canoa em Lisboa 1998. fonte: Ariane Porto, 2007.
Algum tempo depois, já estudando na USP, por uma linda coincidência, meu orientador o Prof. Diegues contou-me que estava em 1996 no festival de Brest e fotografou a Canoa SSTA ao lado de um "cacique" Guarani, fato que causou a confusão que fez os jornais locais de Brest publicarem a manchete chamando a Canoa Caiçara equivocadamente de "Pirogue Guarani". VEJA AQUI, CLIQUE

Recentemente, através da publicação anterior neste blog, fui contactado diretamente de Brest pelo Sr. Serge Santelli, um apaixonado pelas tradições náuticas e atual guardião da canoa, que me contou mais alguns detalhes sobre a Canoa SSTA:

"Assim que, na manhã seguinte do final do festival (o dia do grande desfile em direção a Douarnenez), a canoa estava no topo da enorme pilha de cavacos.
Como estivador, abri o depósito de batatas ao longo do cais de carvão. Peguei uma empilhadeira com 4 garfos e abriguei a canoa. Nos festivais seguintes, a canoa quase virou uma floreira.
Quando sai da cooperativa de ADS, peguei e a levei para o estacionamento do meu clube de remo.
Atualmente, restauro a canoa, mantendo as cores e a inscrição original."
Canoa Caiçara SSTA descansando em Brest. (foto: Serge Santelli)
Hoje, o Sr. Santelli está entrando em contato com autoridades locais para recuperar toda esta história e dar o justo destaque que a Canoa SSTA merece. Após várias trocas de mensagens e informações entre mim e o Sr. Santelli, ele prepara a construção de um Remo Caiçara. Conforme as fotos e dimensões que eu lhe enviei, ele já preparou este maravilhoso esquema, do que eu chamei de o primeiro remo Bretão-Caiçara do mundo.
"PAGAIES" Croqui do remo Bretão-Caiçara feito pelo Sr. Santelli
Conforme novidades surjam irei atualizando esta postagem.
Kenavo, ar vech aol.

quarta-feira, 27 de março de 2019

A PESCA DE MARCAÇÃO EM UBATUBA - SP

"A 12a edição da coletânea do PROCAM, que consta de 16 artigos elaborados por alunos de Mestrado e Doutorado, apresenta-se como um conjunto de textos que caracterizam as múltiplas reflexões que compõem o quadro de pesquisas desenvolvidas nas suas diversas linhas de pesquisa dentro do arcabouço da Ciência Ambiental. A complexidade dos eventos associados à problemática ambiental impõe a necessidade de diálogo entre ciência, gestores e sociedade, em virtude da emergência de fenômenos que representam ameaças globais, em um cenário que Ulrich Beck (2010) define como sociedade de risco. Neste sentido, coloca-se a necessidade de aprofundar o debate de temas que têm, nos diferentes tipos de incerteza, a possibilidade de multiplicar conhecimentos e diálogos e construir um olhar mais apropriado para lidar com estas questões prementes."
"Nesta publicação, destaca-se mais uma vez, a preocupação do PROCAM de apresentar resultados de pesquisa desde uma perspectiva interdisciplinar. No conjunto de artigos aqui apresentados, enfatizase a importância dos processos sociais que determinam as formas de apropriação da natureza e suas transformações, através da participação social na gestão dos recursos ambientais em suas múltiplas manifestações, seja em políticas públicas, assim como nas práticas dos diversos atores sociais."

"No artigo “A pesca de marcação nos mares da Enseada do Flamengo, Ubatuba, São Paulo”, de Peter Santos Németh e Antonio Carlos Sant’ana Diegues, abordam-se as técnicas e conhecimentos relativos à pesca de marcação nos territórios marítimos tradicionais utilizados pela comunidade de pescadores artesanais da Praia da Enseada, na Enseada do Flamengo em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Concluiu-se que a atual regulação pesqueira, federal ou estadual, é feita “de cima para baixo”, ignorando deliberadamente as peculiaridades locais e os processos e mecanismos pelos quais os pescadores estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços marítimos, atropelando as regras tradicionais baseadas no direito consuetudinário, e afetando sua liberdade e autonomia."

Fonte: Caminhos do conhecimento em interdisciplinaridade e meio ambiente / Pedro Roberto Jacobi / Paulo Antonio de Almeida Sinisgalli (organizadores) – São Paulo: IEE-USP e PROCAM-USP, 2018. 1ª Edição. 419 páginas.  ISBN 978-85-86923-55-5


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

MEXILHÕES MORREM COM ALTA TEMPERATURA DO MAR EM UBATUBA

Infelizmente é triste a notícia.
Com as altas temperaturas da água do mar em Ubatuba - SP, diversos produtores estão amargando um grande prejuízo com a mortalidade de seus mariscos.
O mexilhão não suporta a água muito quente e por volta dos 31 graus celsius eles começam a morrer.
Produtores locai estão perdendo sua produção.
Na região da Praia da Lagoinha a perda praticamente total, na Enseada ainda sobraram alguns.
Na Barra Seca sobraram apenas alguns dos mariscos juvenis.
No Itaguá foi registrada a temperatura de 29º C. em 31 de janeiro de 2019.
A última vez que tal evento havia ocorrido foi no verão do ano de 2010, quando a perda da safra foi quase total em Ubatuba.
MEXILHÕES DE UBATUBA: foto Peter Németh
O sapinhauá também morreu. Foto: Roberto Ferrero, Enseada, fev de 2019.
PRAIA DA COCANHA EM CARAGUÁ TAMBÉM HOUVE MORTANDADE
(Relato de José Luiz Alves, pesquisador e maricultor local)
"Bom dia, na Cocanha também morreram os mexilhões .
Aqui a diferença está sendo o sistema de semeadura e densidade.
Tem um maricultor que utiliza o sistema francês e o tamanho da rede é de 1,5 m, por ser curta ele fez com uma densidade alta. Esse maricultor teve mais de 50 % de mexilhões mortos nas redes.
Também alguns lançam os coletores para a captação de sementes, e só colhem no tamanho comercial.
 Essas duas situações que citei tem uma grande concentração de mexilhões e isso está favorecendo a mortandade.
No caso de quem trabalha no sistema espanhol e com uma densidade mais baixa (250 a 300 por metro), teve uma perda mais ou menos de 11,5% nas cordas.
Domingo eu tirei 39.5 kg de mexilhões. 114 mexilhões vieram mortos na corda. Naquele dia 25 mexilhões por quilo.4,6 kg de mexilhões mortos.
Podemos considerar alguns que morreram e desprenderam da corda. 
Mas se for comparar com os colegas. De todo jeito a situação está critica."

CAUSAS DE UM JANEIRO DOS MAIS QUENTES EM 76 ANOS (por CLIMATEMPO):
"O calor intenso e persistente que se sente em São Paulo neste janeiro de 2019 é resultado de uma combinação de fatores. Ainda que um novo episódio do fenômeno El Niño esteja quase configurado, desta vez não pode ser tecnicamente culpado pelo calorão paulistano.

A situação atual é parecida com a que foi observada no verão de 2014, quando uma circulação de ventos atípica predominou por mais de 30 dias sobre o país mantendo as frentes frias afastadas do litoral paulista.

Em dezembro de 2018, água do mar no meio do oceano Atlântico, ao largo da costa da Região Sudeste, estava mais fria do que o normal. Isto permitiu que o sistema de Alta Pressão Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) ficasse mais próximo do litoral da Região Sudeste em janeiro de 2019. Qualquer sistema de alta pressão atmosférica inibe a formação, a expansão e permanência das grandes áreas de instabilidade que provocam chuva generalizada. Menos nuvens, mais sol e mais calor!

A presença do sistema de ASAS afasta as frentes frias. O ar frio de origem polar passa longe do litoral paulista e não consegue chegar a São Paulo. É o vento quente, que vem das regiões tropicais do país, que tem predominado sobre a capital paulista desde o início do ano.

Do outro lado do continente, na costa sul do Chile, a água do oceano Pacífico e está mais fria do que o normal. Esta é outra situação atípica que está desviando as frentes frias, que não conseguem avançar com força sobre a Argentina." fonte: https://www.climatempo.com.br/noticia/2019/01/25/sao-paulo-vive-um-dos-meses-mais-quentes-em-76-anos-1497

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

João Batista o "Ico Paru" pescador e maricultor da Enseada

João Batista, o "Ico" é filho do João Paru e da Dona Antônia. Nascido e criado na costeira do Morro do Espia no cantinho leste da Praia da Enseada em Ubatuba. Na Ponta do Espia o pai dele tinha roça e ele cresceu cuidando da roça e pescando com o pai e os irmãos.
João Batista, o Ico (12) 9 9151- 6633. Foto: Peter Santos Németh, Praia da Enseada.
Aliás a Turma do Paru sempre trabalhou muito forte junta.
Hoje o Ico também trabalha na sua fazenda marinha cultivando mexilhões Perna perna também conhecido como marisco de pedra.
Ele é o maior produtor da Praia da Enseada e cultiva artesanalmente com a ajuda da esposa que também ajuda nas vendas na pequena peixaria que montaram em casa.
São 5 produtores na Enseada e os cultivos ficam bem longe da areia da praia, na costeira do Morro do Espia, garantindo mais qualidade aos mariscos.
Depois de recolher as "cordas de marisco" ele pacientemente debulha e lava as conchas uma por uma até que fiquem prontas para irem pra a panela.
O Ico aprendeu a trabalhar com cultivo de marisco desde os anos 1980 quando a Enseada possuía uma grande fazenda marinha conduzida pelo Dino Garnier que chegou a produzir 150 toneladas de mexilhões por ano.
Aliás a Enseada tem uma tradição em cultivo de mexilhão desde o ano de 1968, quando o Sr. Enrique Casalderrey e o Sr. Roberto Prochaska fizeram a primeira balsa de cultivo de mexilhões, inspirada nas famosas bateas galegas de Villa Garcia de Arosa, na Espanha, terra natal do Sr. Enrique cujo pai presidiu a associação de produtores de mexilhão local. Mas isso é tema para outra história que estou documentando para uma publicação futura.
Enrique Casalderrey e (provavelmente) a primeira balsa do Brasil. Foto: Roberto Prochaska.
Sr, Roberto Prochaska com a balsa produzindo na Ilha Anchieta. Foto Roberto Prochaska

Batea de Villa Garcia de Arosa. Foto: Arquivo pessoal de Enrique Casalderrey.  
Produtores de Villa Garcia de Arosa, Galicia, Espanha: Foto: Arquivo pessoal de Enrique Casalderrey

Pra quem quiser comprar mexilhões de cultivo artesanal pode ligar para o João no telefone: (12) 9 9151- 6633 e encomendar mariscos vivos, direto do produtor. Os mais frescos possível, pois são colhidos e vendidos no mesmo dia.
Essas fotos foi ele mesmo quem tirou dia 21 de janeiro de 2019 durante uma manhã de trabalho:







sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Balneabilidade na Praia da Enseada em Ubatuba

Janeiro de 2019, Praia da Enseada - Ubatuba - SP

Este verão tem sido muito intenso em Ubatuba, o calor está beirando o insuportável, a Praia da Enseada esteve lotada como há pelo menos uns 10 anos não vejo e o mar é (ou seria) uma ótima opção para relaxar e refrescar. Seria...
Como já denunciei várias vezes aqui (2018/01/deu-merda-no-emissario-da-enseada) nada continua sendo feito com o esgoto da Enseada, absolutamente nada.
Pior do que isso, é que mesmo denunciando, avisando pessoalmente os banhistas in loco, este verão o pior aconteceu. Parentes e conhecidos da praia que possuem residência próximas ao vazamento adquiriram infecções de pele que evoluíram gravemente. Completando essa situação, a procura por atendimento médico em Ubatuba é um verdadeiro caos. Atravessar a Praia Grande, dependendo do horário, pode levar até 2 horas, e conseguir ser atendido na Santa Casa pode demorar outras 2. Os Postinhos da Maranduba e Saco da Ribeira ajudam, mas os diagnósticos de um para outro variaram de picada de mosquito agravada por areia e mar sujo, catapora e impetigo. Foi receitado de pomada a antibiótico.

Peço desculpas se as fotos a seguir são chocantes, mas a situação pede que a verdade nua e crua seja mostrada. São fotos de um adulto e duas crianças, uma de 3 anos e outra de 9 que se banharam no mar próximo ao emissário da Praia da Enseada em Ubatuba.





quinta-feira, 15 de novembro de 2018

"O PULEIRO"


O PULEIRO

SÓ LEMBRA QUE TEM O POBRE,
NA OCASIÃO DA ELEIÇÃO,
DEPOIS QUE TÁ NO PULEIRO,
NÃO LEMBRA QUEM TÁ NO CHÃO.

Quadrinha transmitida por Nelson de Góis na véspera da eleição de 2018. O blá blá do político continua o mesmo década após década.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Fandango da Força Verde

Mestre Aorelio Domingues traduz com maestria a injustiça sofrida por Caiçaras de todo o litoral.

Conhecidas por "Florestal", "Força Verde" ou simplesmente "Meio Ambiente" essa força policial fiscalizatória trata os Caiçaras como bandidos.

Transcrevo um trecho da minha dissertação que foca nesta situação específica:

4.7.1. O conflito com o “meio ambiente”  
O pescador caiçara tradicional, não difere, nem percebe distinção, entre a própria vida e o ambiente natural em que ele está inserido, e do qual sobrevive.
Para o caiçara, o conceito de “meio ambiente”, possui significado totalmente distinto da concepção urbano-industrial. 
O “meio ambiente”, para ele, significa: a polícia florestal e as leis ambientais (MANSANO, 2004: p. 208; DIEGUES, 2008: p.67) que restringem suas atividades tradicionais.  É muito comum ouvir entre os caiçaras, expressões como: “O meio ambiente prendeu”, “O meio ambiente proibiu”, “O pessoal do meio ambiente”. 

"O profundo respeito e admiração pela natureza dos moradores da Barra do Ararapira não os fazem conservacionistas, pois a palavra é uma invenção nossa e que surge da nossa maneira dicotômica de perceber a natureza separada da humanidade. “Conservar” jamais seria uma palavra usada por eles, pois os mesmos não veem uma natureza possível de ser conservada, já que para eles não é algo estável, parada no tempo, imutável. Como se conserva algo que muda constantemente?" (RAINHO, 2015: p.140, grifo da autora)                                                 
 
Esta “névoa” que envolve o conceito local de “meio ambiente”, causa uma grande confusão quando o caiçara precisa expressar suas ideias sobre “manejo” ou “conservação ambiental”. O conceito de “conservação da natureza”, envolve práticas tradicionais tão arraigadas ao próprio modo de vida local, que os pescadores precisando explicá-las formalmente, confundem-se, contradizem-se, constrangem-se com a necessidade de dominar palavras, para explicar algo tão óbvio do ponto de vista tradicional prático.
 
"Aquele dia da reunião (Oficina do PEIA: SÃO PAULO, 2008a) mostrando... lembra... A placa que tinha (na Ilha Anchieta)... Mostrô o (nome suprimido) caçando né... lata de skol... Aí eu falei pra ela (gestora): -Isso aí a Sra. mostra né? Isso aí, coisa ruim, a Sra. mostra... Mas a Sra. num mostra que lá na Ilha tem aqueles pé de amendoeira, que faz sombra na frente do presídio, quem plantô foi pescador! Aquilo num nasceu lá não, a Sra. viu? Foi gente que levou... amendoeira, bananeira, coco da Bahia... Quem plantô? Né? Pescador... Pescador num faz o que ela tava mostrando... [...] Hoje a Ilha, Alemão... o que vem de saco de latinha quando desce lá (no píer do Saco da Ribeira), meu Deus do céu... Enche o cais só de saco preto cheio de latinha de cerveja... E a mulher (gestora do PEIA) filma os pescadô né? Que é os pescadô que (estraga)... Viu o monte de lata e garrafa (mostrados na Praia do Sul pela gestora, ao lado do rancho dos pescadores, para justificar a retirada do rancho daquela praia)? É... Mas o que descarrega (de lixo de turista) ninguém filmou, aquele monte de saco preto que só vê barulho, 10, 12 saco, mas assim ó (mostra 1 metro acima do solo) que vem de lá... Isso ninguém filma... É muito (injustiça)... sabe..." (DOS SANTOS, 2014, comunicação pessoal) 

Se a pressão da formalidade provoca distorção na comunicação, no entanto, suas considerações baseadas na observação empírica do uso da natureza no dia-a-dia da faina pesqueira, são cristalinos quando apontam quem realmente lucra com o “meio ambiente”. 

"O meio ambiente foi bom sabe pra quem? Pros... pros, cara...  que vieram pra explorá Ubatuba, assim, Caraguatatuba, todo o litoral, é os grileiro. Então isso foi bom. Então o meio ambiente ele foi bom, pelos (para os) grileiros que apareceram. Mas pela classe que sempre respeitaram o meio ambiente, eles prejudicaram. Que é os pescador... é os antigo... é o roceiro, é o cara que sempre criou o filho com farinha e palmito... entendeu?" (DE GÓIS, 2016, comunicação pessoal)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro Walter Alves de Lima - Vila Nova - Iguape


PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 02 em 27 de julho de 2018
MESTRE CANOEIRO:
Walter Alves de Lima, BAIRRO DE VILA NOVA, IGUAPE, SP
IDADE: 71 ANOS
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues
Vila Nova - Iguape. Fonte: http://www.artesol.org.br/novo/conteudos/visualizar/Iguape-SP1
                1.Walter Alves de Lima nasceu em Prelado-Juréia, Iguape em 1947 (71 anos). Para ele, a construção de canoa caiçara é uma arte transmitida de pai para filho. Seu pai já construía canoas grandes para o transporte de arroz. O irmão e seu filho também fazem canoa. Ele começou a ajudar pai quando era criança, com 7 anos. Até os 12 anos seu pai explicava para ele as técnicas da construção mas com 12 anos ajudava o pai sem pedir explicações pois já tinha aprendido e trabalhava só.
                2.As madeiras mais usadas eram o guanandi, a timbuva e o cedro, esta mais rara na região.     
                3. A escolha da árvore era fundamental dependendo do tamanho e da largura da canoa que se quer construir e da disponibilidade de tronco suficiente para o que se quer. Um critério importante para a escolha da arvore era sua posição ao sol (nascente ou poente).
                4.Processo de construção: o básico era o processo de mutirão pelo qual parentes e conhecidos ajudavam a derrubar e depois transportar o tronco para o rancho onde era feito o acabamento.
                O inicio era o desbaste da madeira na parte inferior da canoa que se encontrava virada para cima. Aí se empregavam três linhas de proa à popa e faziam as patilhas (popa e proa).
                Depois desviravam o tronco para fazer a parte de dentro, usando inicialmente machado para desbastar a madeira e depois o enxó e plaina para acabamento. No bojo de cima usavam duas linhas. Mas, segundo Walter Lima, o “importante é o mestre ter as linhas nos olhos e isso só se consegue com a experiência”.
                Para acertar espessura fazem-se três furos no fundo da canoa.
5.Uso de v ela. Quando criança ele ainda viu o uso de vela na canoa caiçara. Seu uso foi desaparecendo com o uso do motor de popa e depois motor de centro.
6.Outros mestres canoeiros do lugar: Adelson, seu primo e Odilo Mendonça.
7.Uso da canoa: além do uso na pesca e transporte de mercadoria e pessoas a canoa era usada no transporte dos integrantes dos grupos do Reisado, no período do Natal e do Divino, na Festa do Espírito Santo. Seu Walter ainda toca rabeca na festa de Reis e seu filho Ordilei constrói rabecas e ensina a construí-las na Ilha Comprida.   

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Escama "estratégica" da Tainha

Uma das crenças mais difundidas a respeito da tainha é que ela seria um peixe abençoado por ter a imagem de Nossa Senhora estampada em suas escamas.
Fora esta crença popular a escama da tainha ainda tem uma função "estratégica" entre o rol de artimanhas dos pescadores.
Um dos principais fatores que garante o sucesso de uma pescaria tradicional é o "segredo" com respeito ao local onde está o cardume de Tainhas. Geralmente este cardume é chamado de "o peixe" e saber onde "o peixe" está, onde "o peixe dorme" e qual a quantidade do peixe é fundamental para o sucesso da pescaria.
Então durante a Época da Tainha, é comum os pescadores utilizarem as mais diversas estratégias para garantir o "segredo" sobre "o peixe". Então é muito comum entre os pescadores de uma localidade, mentir, enganar, despistar sobre o resultado de uma pescaria a fim de não revelar o "segredo" para os outros pescadores.
É aí que as escamas da tainha são utilizadas para cumprir esta função estratégica.
Muitas vezes quando o pescador quer dar a impressão de que matou muita tainha na noite anterior (mesmo tendo matado 2 ou 3), ele limpa as tainhas e junta as escamas e o sangue delas para espalha-los ao redor da canoa, por cima da rede e na proa da canoa, passando assim a impressão de que matou muitas tainhas.
Já com o intuito contrário, se ele matou muita tainha e quer esconder o sucesso da pescaria para que seus "concorrentes" não se dirijam para o pesqueiro utilizado na noite anterior, ele limpa todas as escamas de dentro da canoa, ou que tenham caído no chão, e lava todo o sangue de tainha que esteja na rede ou na proa da canoa.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Entrevistando o Mestre Canoeiro João Francisco - Mamanguá.

PROJETO REGISTRO DA CANOA CAIÇARA: Entrevista nº 01 em 5 de maio 2018
MESTRE CANOEIRO:
JOÃO FRANCISCO DO NASCIMENTO, BAIRRO DO BAIXIO, MAMANGUÁ, PARATY
IDADE: 60 ANOS, CASADO
CONSTRUTOR  DE CANOA CAIÇARA E PESCADOR
Entrevistador: Antonio Carlos Diegues

Inicio da atividade de construtor de canoas com cerca de 20-25 anos, observando o Mestre Leonel, seu primo do Bairro do Cruzeiro em Mamanguá. “Só via ele trabalhá na canoa, mas não perguntava nada.” Depois começou a trabalhar na profissão com o irmão mais velho, seu Acácio, que já sabia fazer a canoa. A primeira canoa foi feita com “timbuíva” com 50-60 cm. de boca.
As madeiras mais usadas eram as de timbuíva, ingá ( a mais usada,  pesada) caquera,  canafístula, jequitibá (para canoas maiores, com motor), guapuruvú ( madeira leve, dura menos que as outras).

Ferramentas usadas: machado, enxó, plaina, arco de pua

Processo de produção:
1.Escolha da  árvore no mato.
2.Derrubada da arvore e desgalhamento, preparo do tronco para a retirada da mata e transporte até o rancho onde se continua o feitio da canoa. O transporte é feito com a ajuda de vizinhos e parentes através do mutirão
3.Nivelamento da parte superior do tronco com machado
4.Colocação da linha de centro, fixada na proa e na popa. Coloca também duas linhas laterais, uma de cada lado, retirando a casca.
5.Prepara o “bergado” ou a “subida“ da proa e da popa.
7.Vira o tronco de bruço e cavuca o miolo do tronco
8.Para medir a espessura faz três buracos no fundo dianteiro, traseiro e meio.
9.O acabamento é feito com enxó e plaina.

Destino da canoa: quase sempre para uso próprio mas pode ser vendida se houver comprador.
Mudanças na profissão.
No Saco do Mamanguá as canoas eram feitas por ele, seu irmão Acácio, seu Tonico do Fundo do Saco, o Ditinho do Baixio. Só o seu João continua, mas somente faz alguma reforma de canoa pois é aposentado e já não tem forças para o trabalho mais pesado de retirada do tronco da mata.

A partir da implantação do “ parque” (Reserva Ecológica da Juatinga) em 1992, a atividade ficou mais difícil pela proibição da  derrubada das árvores pelo órgão gestor(hoje Eneia). “A gente tirava alguma madeira pra canoa, mas ia assustado”. Só era permitido usar árvores caídas ou derrubadas pelo vento, pela idade, mas em geral a madeira já vinha com defeito, partes podres, etc. Até então a maioria das embarcações eram canoas a remo usadas na pesca, canoas bordadas com motor de centro para transporte, baleeiras compradas do sul, barcos a motor de centro e algumas poucas lanchas de alumínio, depois de fibra para transporte de turistas. O modo de vida já estava mudando, o pessoal trabalhando na construção civil e no transporte de veranistas/turistas. A lavoura foi desaparecendo junto com as casas de farinha, sobrando hoje somente uma ou duas. A pesca, apesar de ter diminuído, garante ainda a mistura na comida das famílias e alguma venda para restaurantes locais e visitantes. As mulheres também passaram a  pescar o siri com  as “fisgas” na praia ou com os “covos”, transportados em canoas e deixadas com isca para serem retirados na manhã seguinte. As mulheres também retiram a carne do siri que é vendida a restaurantes, assim como vendem ostras e mexilhões retirados das pedras das “costeiras” e vôngole retirados também pelas mulheres na maré baixa.

Futuro dos mestres e da canoa caiçara: Para seu João a canoa caiçara do Mamanguá tende a desaparecer pois os jovens não se interessam pela profissão e usam cada vez mais as lanchas de alumínio com motores maiores e mais rápidos no transporte de turistas. Alguns desses turistas, no entanto, preferem alugar os barcos de madeira com motor de centro, mais vagarosos mas que permitem apreciar a paisagem durante a viagem.
Pescador do Mamanguá em sua canoa. Foto: Paulo Nogara.